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Jornal de Espiritismo nº 92 · Janeiro 2019Página 56 min
Nesse contexto, foi entendida como uma moléstia do útero que se inquietava da direita para a esquerda e daí para o cérebro, sendo portanto uma doença de senhoras. O termo medicina psicossomática começou a ser utilizado nas primeiras décadas do século XX e o ano de 1939 pode ser considerado como um marco, dando o início às discussões que resultaram na Fundação da “American Psychosomatic Society” em1942. A psicossomática evoluiu das investigações psicanalíticas, da origem Inconsciente das doenças, dos mecanismos de defesa do Ego, e dos estudos sobre a Histeria de Jean Martin Charcot (1825-1893) e Josef Breuer (1842- 1925), contemporâneos de Freud.
Sigmund Freud, na “Teoria Topográfica da Mente”, definiu o aparelho psíquico em três instâncias psíquicas: 1. O Inconsciente: onde se encontravam os conteúdos recalcados; 2. O Pré-consciente – onde se encontravam os conteúdos latentes, reprimidos e 3. O Consciente – onde estava o nosso domínio mental. Desde a Grécia Antiga que a Somatização (sintomas físicos de origem psíquica) tem sido associada à Histeria (do Grego “Histéra” – útero), cujo termo foi usado inicialmente por Hipócrates, filósofo grego, considerado pai da medicina moderna.
A Histeria é caracterizada por queixas somáticas múltiplas e recorrentes, frequentemente descritas de forma dramática e não explicáveis por condições médicas conhecidas. Tornou-se uma preoucupação central de Freud nos primeiros anos de desenvolvimento da psicanálise, culminando no conceito de conversão como mecanismo de defesa do EGO (os mecanismos de defesa visam a proteção do ego contra o sofrimento e são sempre inconscientes), em doentes com Histeria.
Em 1859, Briquet associou a perturbação a mulheres jovens que apresentavam queixas somáticas. Na idade moderna, com o predomínio do modelo cartesiano, materialista, prevaleceram os raciocínios lógicos e objetivos, a separatividade mente x corpo, a separação da ciência da fé. O organismo foi visto como uma máquina e ocorreu o surgimento do movimento materialista da medicina, que possibilitou o início da especialização médica num corpo humano destituído de alma.
Houve o desenvolvimento da anatomia e a busca de origem das doenças no início do século XIX, a perda da visão integralista do ser humano, numa visão mais fragmentada do SER. “Perturbação de somatização” na atualidade Segundo as classificações atuais, no DSM III, “Manual de Diagnóstico e Estatística Norte - -americano”, publicado em 1980, foi designada como Perturbação de Somatização, afastando-se do conceito de Histeria ou de Conversão (Phillips , 2008).
No “Manual de Diagnóstico e Estastística Norte-americano”, DSM IV- TR e na ICD 10, da Organização Mundial de Saúde (WHO), foram designadas de “Perturbações Somatoformes”, tendo sido abolido o termo Psicossomático, porque o uso do termo poderia implicar que fatores psicológicos não exerceriam um papel importante na ocorrência, curso e evolução de outras doenças, as quais não são assim chamadas, ICD 10. Na 5.ª Edição do DSM aparecem então as “Perturbações de Sintoma Somático”, condição na qual se enfatiza a centralidade dos sintomas sem explicação médica.
É também por essa falta de explicação médica que muitas pessoas vêem estes diagnósticos como duvidosos e irreiais. As normais culturais e padrões sociais atuais também desvalorizam e estigmatizam o sofrimento psicológico quando comparado com o físico. Definição As Perturbações de somatização englobam um conjunto heterogéneo de entidades nosológicas, cuja principal característica assenta na dualidade mente x corpo, mais concretamente no papel que a condição psicológica exerce na manifestação de sintomas fisicos (ou somáticos) e vice-versa.
Podem manifestar-se em diversos sistemas que constituem o nosso corpo, como por exemplo: no aparelho gastrointestinal na forma de úlceras, gastrites, colites; no aparelho respiratório, na forma de asma, bronquites de repetição; no aparelho cardiovascular, na hipertensão de difícil controlo, nas taquicardias, na angina de peito; em Dermatologia, através da psoríase, dermatites, herpes, urticárias, eczemas; no Sistema Endócrino e metabólico na expressão da diabetes; no Sistema Nervoso, na enxaqueca de difícil tratamento, nas vertigens; em Reumatologia na fibromialgia.
Habitualmente entende-se que, apesar da origem ser multifatorial, a principal causa da manifestação física está numa perturbação emocional. É frequente o insucesso no diagnóstico, através dos meios auxiliares diagnósticos. É recorrente a ineficácia da terapêutica, numa vertente só organicista. Etiologia das Perturbações de Sintoma Somático (APAAssociação Psiquiátrica Americana) 2013 As causas que originam os sintomas operam muitas vezes a nível inconsciente e são invariavelmente multifatoriais.
Muitas vezes existe uma vulnerabilidade genética e biológica; por exemplo, indivíduos que somatizam têm aumento da sensibilidade à dor. Em conclusão, na Visão Espírita, conhecemos o processo da evolução que se encarrega de imprimir no corpo as conquistas do Espírito, mediante o perispírito, “transferindo de uma para outra existência as cargas emocionais que necessitam de ser reparadas e bem dirigidas ou ampliadas a benefício da saúde integral” Apresentam maior incidência de experiências traumáticas precoces, tais como violências, abusos, perdas significativas.
Está demonstrada a presença dos factos da aprendizagem, que se referem à atenção obtida quando ocupam o papel de doente, levando ao reforço do papel vitimizado. Segundo a compreensão do Ser imortal, podemos admitir que existam sempre causas que operam em vivências espirituais, reencarnatóriais, traduzindo-se através da vulnerabilidade expressa na vida atual e que, de certa forma, ao se encontrar com outros fatores de reforço na atualidade, fazem com que o sintoma se expresse, muitas vezes potencializado por vivências semelhantes que, por lei de sincronicidade, se repetem.
Visão Holística da Perturbação Sintoma Somático (anterior psicossomático) Na visão Junguiana ou da psicologia integral, “todo sintoma é psicossomático e pode ser um meio para que o processo do autoconhecimento possa acontecer”. Segundo Mello Filho (2005), a expressão doença psicossomática foi utilizada inicialmente para se referir apenas a certas doenças, como a úlcera péptica, asma brônquica, hipertensão arterial e colite ulcerativa, onde as correlações psicofísicas eram nítidas.
Posteriormente foi-se percebendo que tal concepção é potencialmente válida para todas as doenças. Para a psicossomática a causa da doença está na mente. Numa visão do homem multidimensional, integral nas várias dimensões do SER (corpo, perispírito e espírito), a causa da doença está no Espírito enfermo e a manifestação física, a sua consequência, servindo para o aprimoramento do ser espiritual, ainda que a causa orgânica não se encontre manifestada no corpo físico.
Outras vezes, em certas enfermidades, existe causa orgânica conhecida, porém, o fundo psicogénico (influência da mente/estados emocionais) é demasiado importante, como acontece no caso da asma ou das úlceras. Na doença entendida como “psicossomática”, todas as nossas doenças, tenham elas uma causa conhecida ou não, são influenciadas pela nossa mente e pelas nossas emoções. E esse é o paradigma das neurociências. Eric Kandel, prémio Nobel de 2000, afirma que “todos os processos mentais são biológicos”, não sendo um paradigma materialista, mas, sim integralista, pelo qual todos os processos mentais têm uma repercussão orgânica, e todas as nossas emoções, um substrato orgânico, sendo moduladas pelo nosso cérebro, na interação mente x corpo.
“Somos seres espirituais vivendo experiências físicas”. Por isso a doença surge como consequência das emoções em desequilíbrio em processo de reajustamento, servindo para o aprimoramento do espírito. Muitas vezes confunde-se estas condições, pela ausência de um órgão enfermo, com perturbações do foro espiritual (mediúnicas e ou obsessivas), mas não deixam de ser anímicas (do próprio indivíduo), apesar de vividas na sua subjetividade.
No caso de processos mediúnicos e/ou obsessivos, a pessoa em causa, para além de não sentir toda a gama de sintomas durante todo o tempo, também pode não ter os sintomas constantemente; e por vezes essa pessoa pode perder a consciência e o domínio sobre si nos estados de transe mediúnico e/ou obsessivo. Em conclusão, na Visão Espírita, conhecemos o processo da evolução que se encarrega de imprimir no corpo as conquistas do Espírito, mediante o perispírito, “transferindo de uma para outra existência as cargas emocionais que necessitam de ser reparadas e bem dirigidas ou ampliadas a benefício da saúde integral” - Joana de Ângelis, “Refletindo a Alma”, p.
240. A exprimirem-se na forma de doença psicossomática ou física, são necessidades evolutivas do SER em processo de reajustamento emocional. * Médica Psiquiatra, Terapeuta com Formação em Terapia Familiar e Abordagem Sistémica, Psicodrama; Terapeuta Transpessoal. O chefe do serviço de Medicina Interna em Salpètriere, Jean Charcot, descreveu uma das primeiras doenças contextualizadas como uma doença psicossomática: a Histeria.
