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Entrevista (pág. 9)

Jornal de Espiritismo nº 92 · Janeiro 2019Página 97 min

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depois da ditadura, que tinha suprimido a liberdade inclusive no direito de associação. Mais tarde, em setembro de 1986, tivemos oportunidade de fazer “visita de médico” a sua casa, em São Paulo. Tivemos a alegria de ser muito bem recebidos. Na posse de um gravador, e acompanhados por Julieta Marques, de Lagos, que conduziu as perguntas, conversámos e fizemos uma entrevista. Em jeito de homenagem e gratidão, partilhamos consigo alguns extratos.

- Como se interessou pela doutrina espírita? Zíbia Gasparetto – Viemos de uma família católica. O meu marido também era católico. Não conhecíamos nada de Espiritismo. E certa noite, de repente, de madrugada, levantei-me a falar alemão – que é um idioma completamente estranho para mim, que nunca estudei alemão. O meu marido ficou muito assustado. Uma coisa inesperada, inusitada. Chamou uma vizinha, pela janela até – ficou com medo de me deixar sozinha em casa, como tinha já naquele tempo dois filhos pequenininhos, os dois mais velhos.

- Era muito nova, então? Zíbia GasparettoEra! Tinha uns 23 anos, por aí. Ele chamou uma vizinha. Essa senhora conhecia um pouquinho a respeito e foi dizendo o que era. Fez uma prece e voltei ao normal, passou. No dia seguinte, o meu marido foi a uma livraria e procurou livros a respeito do assunto. Ele disse: “Se vai acontecer de novo, tenho de estar pelo menos preparado, sabendo o que é isso!”. E foi assim. Desenvolvi a mediunidade e ele naturalmente não precisou de outra prova, porque já me conhecia há tantos anos, não é?

Conhecíamo-nos há uns sete ou oito anos. Ele sabia perfeitamente que eu seria incapaz de fazer uma coisa daquelas. Depois, nunca tínhamos tido uma experiência assim. Não falávamos a respeito desses assuntos, nem nada e, a partir daí, ele trouxe “O Livro dos Espíritos” para casa, leu-o, ficou tão encantado com a filosofia e... abriu assim para ele uma noção diferente, uma visão diferente da vida. Ele resolveu procurar a Federação Espírita do Estado de São Paulo e a partir daí, tudo começou.

- E a senhora aceitou bem a mediunidade e o espiritismo? Zíbia Gasparetto – É. Embora eu tenha tido assim aquele desenvolvimento inesperado, a minha mediunidade mais evidente era a de psicografia, mas eu não sabia isso. Quando era pequena fechava-me longas horas no quarto (aos 9, 10 anos) que a minha mãe tinha de me tirar de lá, senão eu passava o dia todo, não fazia outra coisa, escrevendo contos, escrevendo histórias.

E ela não achava uma coisa muito saudável para uma criança, não é? Então ela tirava-me de lá. Eu não sabia o que era isso! Infelizmente esses cadernos tolos se perderam com o tempo, não é? - Que pena! Zíbia GasparettoNaturalmente não tinham nada de importante. Eram um treino, mas eu não sabia. Tinha aquela vontade de escrever, sentava, escrevia. Então, depois houve esse problema mediúnico – quando eu desenvolvi, já pela xenoglossia.

Depois, então, houve a manifestação da psicografia, quando me sentava para fazer a reunião do evangelho no lar. Então recomeçou e aí eu já estava a compreender o que era, não é? - Não é comum verificar-se a xenoglossia (Espírito comunicante falar em língua desconhecida do médium), pois não? Zíbia GasparettoNão, não é muito comum. O interessante é isso! Porque não é sempre que isso acontece e não depende nada da minha vontade, é uma coisa que me é completamente estranha.

Algumas vezes ocorre espontaneamente. Lá na Federação, uma vez, eu já, numa sessão, recebi uma entidade que falava em israelita. Foi traduzido por uma pessoa que estava presente. Numa outra oportunidade também já recebi uma entidade que falava russo ucraniano (e aquilo foi traduzido). As vezes em que foi traduzido é que eu posso dizer que tenha sido algo comprovado, não é? Porque o meu marido não sabia alemão; ele entendeu que deveria ser alemão por uma palavra ou outra, mas eu não poderia jurar, porque ninguém estava ali que pudesse compreender e traduzir.

Dessas outras vezes não, houve mesmo tradução. Geralmente as pessoas não querem ser médiuns. Aqueles que não conhecem o fenómeno, têm medo, não é? Porque acham que lidando assim... com “mortos”, com Espíritos, que é uma coisa perigosa. E, quando estive em Lisboa (1978), aconteceu um fenómeno muito interessante. Fomos recebidos por uma das pessoas que estava no grupo, nos lugares em que estivemos, uma senhora muito simpática até, trabalhava no aeroporto de Lisboa.

Ela estava com um problema com um filho dela, que estava a passar muita dificuldade. Eles não eram de Portugal, eram da África portuguesa. Esse rapaz tinha-se casado lá na terra dele e estava a acontecer uma série de problemas. Eles não conseguiam, marido e mulher, viver juntos; eles gostavam um do outro, queriam, mas havia tanta perturbação. Então, ela pediu, sabendo que nós tínhamos aqui um atendimento de desobsessão (que nós formamos para cuidar de perturbação espiritual), ela pediu que pudéssemos atendê-la.

Eu, Luís e mais o meu marido convidámos a senhora. Ela foi lá ao hotel onde estávamos, com o filho, para fazermos uma prece, darmos um passe. No momento em que o trabalho foi feito, houve necessidade de conversar com um daqueles Espíritos que estavam a obsidiar. O Luís serviu de médium para esse Espírito; mas era um Espírito violento que não entendia; o meu marido tentou conversar, eu tentei conversar, mas o Espírito estava firme, rancoroso, não queria ceder.

Num certo momento, fiquei envolvida por uma entidade espiritual que falou com ele numa língua completamente estranha para mim. Falou algumas coisas e o Espírito mudou, comoveu-se, chorou, a situação ficou resolvida. E, depois, então, a senhora estava presente explicou-me que aquele era um dialeto africano que se falava, justamente, na região a que pertencia a mãe da moça. Então, o Espírito falou num dialeto de um determinado lugar e conseguiu convencer o outro.

Ela traduziu o que ele disse: traduziu que ele devia tirar o que tinha colocado no coração dos dois, tinha de fazer uma limpeza fluídica. Enfim, ela traduziu e fiquei emocionada! Porque, essas coisas, a gente sabe que são possíveis, mas quando acontecem connosco, é emocionante. Foi uma experiência muito boa na viagem que fiz a Lisboa. - Como médium a sua atividade já cessou? Zíbia Gasparetto – Não, absolutamente. Atualmente psicografo quatro romances, um cada dia, não é?

- E já sabe quais são as entidades espirituais que os estão a ditar? Zíbia GasparettoNão. Talvez seja o mesmo autor. Acontece uma coisa interessante: tenho a impressão que o meu guia espiritual (que é Lucius), os Espíritos na sua maioria quando vão transmitir, passam por ele, porque é que está ligado a mim, não é? Nos romances, porque nas mensagens não. Esses quatro livros que atualmente estão a ser escritos é ele que está, mas não sei se atrás dele estão outras entidades, não é?

- Em relação à mediunidade, tem incorporação também? Zíbia GasparettoTenho de incorporação e tenho de vidência, ocasionalmente. - Isso não lhe traz qualquer tipo de perturbação física? Zíbia GasparettoAbsolutamente. O que, às vezes, pode assim trazer um pouquinho de perturbação é porque eu tenho uma mediunidade em que capto os problemas das pessoas. Antigamente isso trazia-me problemas porque não sabia como agir, mas atualmente não.

Só percebo e sai na mesma hora, passa e vai embora, graças a Deus. - Ser-se médium é uma coisa maravilhosa não é? Zíbia GasparettoEu acho. É conhecer mais de perto a vida espiritual. É muito bom. Geralmente as pessoas não querem ser médiuns. Aqueles que não conhecem o fenómeno, têm medo, não é? Porque acham que lidando assim... com “mortos”, com Espíritos, que é uma coisa perigosa. Mas, na verdade, é uma realidade que existe e tudo o que existe é permitido por Deus; neste caso, é tudo certo como está.

É bom conhecer. Porque, quando conhecemos as coisas, podemos viver com elas de uma boa maneira. A mediunidade abre-nos um caminho de conhecimento. E naturalmente é muito bom também porque evita que fiquemos só presos ao mundo material. Faz pensar que existem outras dimensões de vida onde esta continua. É reconfortante saber isso, não é? Pelo menos para mim que em julho fiz 60 anos! - Quer dizer alguma coisa aos portugueses?

Zíbia GasparettoBom. De Portugal eu guardo lembranças muito boas. Adorei quando estive lá. As pessoas são muito carinhosas, muito fraternas, amigas. Guardo de Portugal as lembranças assim mais queridas. Gostaria de dizer o seguinte: que a vida continua mesmo e ninguém vai fazer a nossa parte por nós. Cada um precisa de cuidar de si mesmo, do seu desenvolvimento espiritual como pessoa, como Espírito eterno. E nós podemos amparar-nos uns aos outros mas...

temos de fazer a nossa parte. Então, é a hora, não é? Acho que já é altura das pessoas procurarem interessar-se por estes assuntos, estudarem, compreenderem que, além aos cinco sentidos físicos, que além da nossa vida material, temos o nosso ser espiritual dentro de nós, a pedir alimento, a pedir esclarecimento. É preciso também alimento espiritual. Não só cuidar do físico, mas também do Espírito. No Espiritismo eu acho que encontramos esse alimento espiritual.

E também a mediunidade, não é? Ela serve para fazer-nos compreender tantos problemas humanos, de conflitos, o relacionamento entre as pessoas; a mediunidade faz-nos compreender a influência dos pensamentos, dos Espíritos desencarnados e até dos encarnados também – porque também uns influenciam os outros espiritualmente. A mediunidade ajuda a estudar esses assuntos. A gente pode viver melhor já – desde já!». Zíbia desencarnou em 10 de outubro, com 92 anos de idade.

Deixa uma vasta obra psicografada: «O amor venceu», «O Matuto», entre tantos outros. Não temos o dever de agradecer? Texto: JG JANEIRO.FEVEREIRO.