Memória
Jornal de Espiritismo nº 93 · Março 2019Página 154 min
Há dias de sorte. Soube por mero “acaso” que o Pe. François Brune estaria em Lisboa, num evento sobre “Tanatologia”. Um dos organizadores era o general Conceição e Silva (foi chefe do Estado-Maior da Força Aérea Portuguesa). Lá fui, com um gravador de cassetes, para tentar uma entrevista. Apesar de muito solicitado e do apertado horário, o simpático padre Brune, sem me conhecer de lado nenhum, anuiu: “Sente-se aqui”, convidou-me, e num sofá no meio de um corredor, com pessoas a passar, ali estava eu qual formiguinha, perante um homem tão notável quanto simples.
Posteriormente voltar-me-ia a cruzar com François Brune em dois congressos sobre TCI (Transcomunicação Instrumental – comunicação com o mundo espiritual através de aparelhos eletrónicos), em Vigo, Espanha, primorosamente organizados pela diplomata portuguesa Anabela Cardoso. Lado a lado com pesquisadores e cientistas de todo o mundo, François Brune era figura de destaque, não só pelas suas pesquisas em TCI mas pela pessoa que era: um homem bom, simples, afável, muito culto e de mente aberta.
Sendo padre católico falava abertamente da comunicabilidade dos Espíritos, da imortalidade, da reencarnação, ora concordando ou discordando, mas o seu sorriso e simpatia eram imagem de marca, que a todos cativava. Em 1987 conheceu, no Luxemburgo, o casal de pesquisadores de TCI Jules e Maggy Harsch-Fischbach. Levado pela curiosidade científica, participou em algumas experiências e, diante das evidências encontradas concluiu (tal como os demais pesquisadores) tratar-se realmente de comunicações de “mortos” ou Espíritos.
Gostaria que continuassem a trabalhar neste sentido. Que continuem a progredir no Amor, cada um na sua vida, porque estamos na Terra para aprender a amar. Participou em vários congressos espíritas no Brasil, não tendo qualquer problema nem preconceito científico em estar ao lado de espíritas, falando da imortalidade e comunicabilidade dos Espíritos. Esteve no Brasil, também em 1992, em eventos sobre TCI, com espíritas e não espíritas, conheceu o cientista espírita brasileiro Hernâni Guimarães Andrade (fundador do Instituto Brasileiro de Pesquisas PsicobiofísicasIBPP).
Lidava com pesquisadores europeus, gente simples normal, sem formação científica, para logo mais estar em profundos colóquios com cientistas em várias áreas. Repescando parte de uma entrevista, concedida em Vigo, em 2006, ao “Jornal de Espiritismo”, disse: “JDE – Serão necessários novos paradigmas para que a Ciência descubra o Espírito? François Brune – Sim, creio que a Ciência deve adaptar-se a uma realidade que lhe escapa neste momento.
Podemos fazer uma comparação: se eu for à pesca, para apanhar peixes tenho de lançar a linha e tenho de a adaptar à posição do peixe. Não posso pedir ao peixe que siga o atalho que corresponde à posição da linha! As linhas são as teorias científicas para “apanhar” a realidade. Se conservo essa mesma linha, nunca conseguirei “apanhar” a tal realidade que me escapa. É pois necessário que a Ciência aceite mudar esses paradigmas, para se adaptar a novos níveis de realidade que de momento, repito, lhe escapam.
JDE – Dos casos que conhece, que objectivos têm os Espíritos, as pessoas faleciAté breve… François Brune Desencarnou François Brune (18 Agosto 1931 em Vernon - 16 Janeiro 2019). Padre católico, um homem culto, bom, simples, reconhecido internacionalmente. Tinha uma particularidade: falava com os Espíritos e pesquisou a Transcomunicação Instrumental (TCI). das, que se comunicam através da TCI ou dos médiuns? FB – Dois motivos fundamentais: o primeiro é o de consolar os seres queridos que deixaram na Terra e que se encontram, muitas vezes, desesperados; o segundo é o de confirmar que a vida continua imediatamente após a morte, que Deus existe – dizem-no frequentemente – que nos espera, que nos criou por amor e que todo o sentido da nossa vida na Terra é o de crescer nesse Amor!
JDE – Tem alguma mensagem que queira transmitir aos espíritas portugueses, ou aos portugueses, em geral? FB – Gostaria que continuassem a trabalhar neste sentido. Que continuem a progredir no Amor, cada um na sua vida, porque estamos na Terra para aprender a amar. Que utilizem estes meios de comunicação com o Além para confortarem a sua fé e mesmo a fé cristã, apesar do estado catastrófico em que se encontra a Igreja.
Esta Igreja que não é fiel à mensagem do Cristo, mas esperemos que um dia se renove, é preciso que se trabalhe para isso… Mas, principalmente, é necessário conservar a fé, a fé cristã”. François Brune, mesmo pensando de maneira diferente, foi sempre um exemplo de que podemos ser pontes que ultrapassam os vales da discórdia, quando temos a vontade de conhecer pontos de vistas diferentes. Afinal, somos todos seres humanos, seres imortais, temporariamente numa experiência carnal.
Até breve, padre Brune, que possa iluminar o mundo espiritual com o seu sorriso, com a sua gentileza e simpatia… Por José Lucasjcmlucas@gmail.com foto ulisses.com.pt Dados biográficos François Charles Antoine Brune, teólogo católico, especialista em misticismo oriental e ocidental. Interessado na investigação psíquica (desde 1987) e na Transcomunicação Instrumental. Conferencista muito apreciado, por estes e outros temas afins.
Após quatro anos na Sorbonne, diplomou-se em Latim e Grego, tendo feito cinco anos de estudos de pós-graduação em Filosofia e Teologia, no Instituto Católico de Paris e um ano adicional na Universidade de Tuebingen, na Alemanha. Possui os mais altos graus de Teologia, Grego e Hebraico Bíblico, e Hieróglifos Egípcios e Babilónicos da Assíria. Tem tambémapós-graduação em Escrituras Sagradas, do Instituto Bíblico de Roma.
Autor de numerosas publicações eruditas e de vários livros sobre assuntos teológicos e sobre fenómenos paranormais, com especial referência para a sobrevivência após a morte e a comunicação com os mortos: “Os Mortos nos Falam”, Edicel, Brasil, 1991. “Linha Directa do Além”, com Rémy Chauvin, Edicel, Brasil, 1994. “A Comunicação com os Mortos”, com Rémy Chauvin, Ed. Prefácio, Portugal, 2001. Nasceu em Vernon, França em 18 de Agosto de 1931, tendo desencarnado a 16 de Janeiro de 2019.
