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Jornal de Espiritismo nº 95 · Maio 2019Página 123 min

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A conversa tinha começado há pouco e Joana, que atendia o médium em transe psicofónico, estava ainda a procurar perceber as preocupações da entidade espiritual que se exprimia para poder começar a ajudar num clima de absoluta fraternidade. A dada altura, o médium, atuado pelo Espírito desencarnado, diz em cavaquear ameno: «Não quero ser cremado, tenho medo. Que coisa mais macabra! Prefiro uma decomposição lenta».

Joana contemporiza, retifica o rumo da conversa a fim de que esta seja útil, e tenta apurar em pezinhos de lã se, neste caso, quem se comunicava sabia que já não existia no plano material: «Acredito que isso é apenas o corpo físico, nós continuamos a existir – a alma sobrevive à morte do corpo». A entidade espiritual aquiesce: «Também acredito», mas ainda não sabia da sua situação objetiva de Espírita desencarnado. A mente deste senhor já domiciliado no Preocupações fora de prazo outro lado da vida movia-se nesta fase entre preocupações emocionais que convergiam em três vertentes: questões familiares, de saúde e monetárias.

Sentia - -se impotente para dar a volta, resolver esse bicho-de-sete-cabeças, sem saber que essa sua realidade subjetiva estava desfasada do calendário, bem como o detalhe por ele referido sobre o funeral. É normal que tomemos o rumo de aferir o que conhecemos e depois partir com dúvidas para o que parece mais distante do que nos parece evidente e imediato. O corpo material é uma ferramenta muito importante de relação com o mundo denso e acreditamos, por falta do domínio consciente que julgamos ter em vigília, “quando estamos acordados”, que temas tão fortes como a continuidade da vida após a morte se tornem confusos, com muitas lacunas preenchidas pela imaginação inspirada nas tradições culturais, muito mais do que nas leis da natureza que agem sobre todos, independentemente das crenças de cada um.

A mente deste senhor já domiciliado no outro lado da vida movia-se nesta fase entre preocupações emocionais que convergiam em três vertentes: questões familiares, de saúde e monetárias. Não deixa de ser caricata, contudo, a preocupação de quem já tinha desencarnado há alguns anos ainda estar preocupado com uma situação mais que ultrapassada: o funeral. Na verdade, em casos destes, cremação ou sepultura resulta no mesmo.

A ressalva da cremação abrange apenas os casos que de alguma maneira podem ainda absorver ecos de sensibilidade a partir de ação material no corpo físico durante um período variável caso a caso. Por exemplo, se for a situação de suicídio, a cremação não deverá ser boa opção. A existência material abreviada normalmente torna mais difícil o desligamento dos laços que unem o corpo espiritual ao corpo material. Enquanto esses laços não se dissipam, existe a possibilidade de haver trânsito de percepções entre ambos, a não ser que se dê o caso de ocorrer um período prolongado de inconsciência.

Dentro do que nos tem sido possível observar, não têm ocorrido casos de perturbação centrada na psicosfera de dor psicológica que predomine sobre sensações físicas, uma vez que normalmente estão misturadas e são por vezes aliviadas sempre que realizadas em reuniões mediúnicas adequadas, dentro de condições controladas. Contudo, a cremação em situações normais – estas não incluem indivíduos que adoptam hábitos autolesivos como, por exemplo, a toxicodependência, inclusive focada no consumo frequente de bebidas alcoólicas e tabaco –, passados talvez dois a três dias do decesso, concretizado o desprendimento completo entre corpo físico e perispírito, esta não deverá ter qualquer repercussão no Espírito recém - -desencarnado.

Na situação observada no início destas linhas, porém, não deixa de ser caricato que alguém projetado pelas leis da vida no seu próprio futuro, já no plano espiritual, cheio de novas possibilidades, ainda retenha ressalvas sobre o sepultamento ou a cremação do seu corpo físico, há muito devolvido ao ciclo de carbono que recicla e refaz a vida material no planeta Terra, esta escola fantástica em que todos estamos sempre a aprender.

Texto: J. Gomes foto arquivo JULHO.AGOSTO.