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Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 54 min
Existe um ângulo terapêutico no espiritismo? O entrevistado é diretor clínico do Hospital André Luiz, em Belo Horizonte, no Brasil, e psiquiatra e psicoterapeuta do Instituto de Assistência Psíquica Renascimento. Neste congresso representou a AME Internacional e a AME Brasil. Roberto Lúcio Vieira de Souza está ligado autoria e co-autoria de variados livros, tais como “Por que adoecemos: princípios para a Medicina da Alma”, “Na viagem da vida” e “Depressão: abordagem médico-espírita”, entre outros.
Gentil, concordou em responder a algumas questões. A medicina pode beneficiar do conhecimento da realidade espiritual/mediúnica própria do ser humano? Roberto Lúcio – A medicina só ganha quando se abre a um entendimento do que é o homem na sua condição integral, na medida em que o homem pode perceber essa transcendência de uma maneira mais efetiva. Isso engrandece realmente o trabalho. Não podemos esquecer que aproximadamente até grande parte do século XVIII a medicina não se separava das questões espirituais.
Isso ficou mais evidente com as ideias materialistas do final do século XIX e com aquilo que aconteceu no século passado. Antes disso, o terapeuta, o médico, o profissional de saúde estava extremamente vinculado às questões do religioso. É possível distinguir facilmente uma alucinação de fenómenos de vidência, como são referidos pelo espiritismo? Roberto Lúcio – Isso vai depender muito mais da experiência e da habilidade da avaliação.
Quando fazemos uma anamnese espiritual juntamente com uma anamnese médica e vemos a condição dessa pessoa, é mais fácil diferenciar isso. Mas não podemos esquecer que o homem é um todo e que, às vezes, ao mesmo tempo em que ele apresenta um processo patológico, ele também vive as suas intervenções espirituais e a sua vida transcendental. Quando diferenciamos, o que fazemos tem por base facilitar a abordagem, oferecer um tratamento adequado.
Tudo provém do espírito e deve ser cuidado como uma realidade una na vida de uma pessoa. O sentimento de culpa tão comum na maior parte das pessoas, a partir de certo momento pode trazer doenças? Roberto Lúcio – O sentimento de culpa sempre traz doenças. A culpa é a constatação de que o homem desrespeitou a lei. E é esse desrespeito da lei, esse sentimento de culpa que nós muitas vezes não buscamos reparar, que entendemos ser o adoecimento humano.
As doenças que a medicina apresenta são resultado dessa doença primordial do espírito, que se chama egoísmo e as suas excrescências. Existe um ângulo terapêutico na doutrina espírita? Roberto Lúcio – Olha, eu trabalho num hospital psiquiátrico espírita em Belo Horizonte, no Brasil, e há uma tarefa constante junto dos voluntários que são espíritas e colaboram na área doutrinária. Digo-lhes sempre que são terapeutas, terapeutas desta abordagem da espiritualidade na vida humana.
Não são médicos, não são psicoterapeutas, mas trabalham com o que é mais profundo. É importante lembrar que a palavra terapeuta vem do grego e significa aquele que eleva até Deus. Desse ponto de vista o trabalhador da casa espírita que se propõe auxiliar o indivíduo à transformação primordial da vida é um terapeuta – é um instrumento para levar a pessoa até Deus. Como compara os resultados de um hospital vulgar e de um hospital como aquele em que trabalha?
Roberto Lúcio – Primeiramente dentro do hospital entendemos que a terapêutica complementar espírita é um dos ângulos do tratamento. Faz parte do trabalho. O hospital só oferece esse tratamento aos pacientes e familiares que concordam e aceitam, consentem, o tratamento. No caso, é a grande maioria. As pessoas procuram o hospital pelos resultados. E é esse desrespeito da lei, esse sentimento de culpa que nós muitas vezes não buscamos reparar, que entendemos ser o adoecimento humano A nossa maior preocupação é a humanização do tratamento.
Tratar as pessoas de uma forma humanizada e oferecer-lhes apoio e consolo. Muitos dos pacientes que recebemos são pacientes crónicos e nessa condição eles não têm de maneira nenhuma recursos para vencer a sua doença nesta reencarnação. Então, o apoio espiritual é fundamental nesse contexto. Qual o melhor remédio contra a depressão? Roberto Lúcio – O melhor remédio contra a depressão é alguém assumir que está doente. Só o indivíduo que assume que está doente é que vai procurar tratar-se.
A grande dificuldade é que a maioria das pessoas deprimidas querem que se tenha dó delas. Não querem assumir que são responsáveis pelo seu adoecimento e que precisam se tratar como um todo, tomando medicação, fazendo terapia e buscando nos recursos da espiritualidade o processo de transformação. Quando a pessoa faz isto, ela consegue sair desse processo tão difícil. Texto: JG e J. Lucas foto pixabay Durante o VII Congresso sobre Medicina e Espiritualidade, que decorreu no auditório da Escola Básica de Matosinhos no fim de semana de 23 e 24 de novembro, Roberto Lúcio, médico psiquiatra, concedeu-nos uma entrevista.
