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Entrevista (pág. 9)

Jornal de Espiritismo nº 98 · Novembro 2020Página 96 min

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Sentiram-se, por exemplo, a flutuar sobre o seu corpo físico, ou parecem ter estado presentes a assistir a alguma conversa noutra parte do edifício ou sentiram ter passado por um túnel. Assim, há muitos aspetos por que as pessoas passaram que pode não ter sido a totalidade do fenómeno, mas, se perguntar, há um considerável número de pacientes que de alguma maneira terão passado por estas experiências. Estar ciente desta realidade afeta a prática clínica e os pacientes?

Elaine Drysdale – Penso que as EQM têm um grande efeito nos pacientes. Se perceber que alguém passou por uma EQM sublinho que não é caso para a pessoa em causa se sentir ridicularizada ao referi-la. Não creio que seja explicável apenas por uma questão infeciosa ou por hipoxia. Por isso valido a experiência por que o paciente passou, embora saiba que 95% da população não passou por esse fenómeno. Como muita gente tem pânico de morrer, ao falar das EQM a pessoas nessa condição coloco-lhes com frequência esta pergunta: «Conhece alguém que já tenha tido uma EQM ou do que é que isso trata?

». Explico que as pessoas se aproximam tão perto quanto possível do que seja morrer e depois regressam e dizem-nos o que se passou. O processo de morrer parece estar envolvido num contexto de paz, independentemente do que pareça se visto do exterior. Há também implicações espirituais nas quais se pode acreditar ou não. Penso que é importante reconhecer clinicamente o fenómeno das EQM por várias razões. Como psiquiatra contacta com pacientes que pensam no suicídio.

Esta tendência tem algumas implicações nas EQM? Elaine Drysdale – É importante transmitir informações relativas às EQM e dirigi-las a pessoas que tentaram o suicídio ou que não encontrem significado para a sua vida. O que por vezes pergunto aos meus pacientes numa emergência é se já ouviram falar sobre as EQM. Se não sabem, explico que é uma experiência que algumas pessoas tiveram quando estiveram muito perto de morrer, por exemplo, com uma paragem cardíaca, e depois regressam e falam do que viveram.

Falam de um sentido de amor incondicional no universo, mas mais importante até é perceber que a sua vida tem um significado, que está aqui com um propósito e é uma pessoa amada. Trata-se de um fator espiritual, mas ao mesmo tempo não é suposto deixarmos esta vida antes do seu término natural. Porque, pelas histórias das pessoas que tentaram suicidar-se e não conseguiram, há fatores que apontam para terem de voltar a passar pelas experiências que rejeitaram e só depois poderão avançar.

Não há qualquer benefício em deixar a vida prematuramente. É preferível resistir e enfrentar os problemas para depois os ultrapassar e seguir caminho. O mais interessante é que isso ocorre quando se pensava que não haveria qualquer tipo de consciência, em estado de coma ou até quando se acaba de declarar o óbito. Parece-me que tentar o suicídio é como abandonar num certo ano o percurso universitário quando se está a meio e as dificuldades parecem insuperáveis, para depois se arrepender e ter de voltar ao princípio.

Não é suposto abandonarmos a vida antes do seu término natural. É altura de perguntar: o que dá significado à sua vida? O que pode preencher a sua vida? É claro que nãooúnico apoio que se pode dar a quem pensa em suicídio. Podemos prescrever um tratamento, o caso pode até requerer hospitalização, medicação, mediante a preocupação pela sua segurança. Não é a única coisa a fazer mas é importante alertar as pessoas para o facto de que são amadas, até sem saberem, que há esse sentimento universal e que se encontram aqui por uma razão.

Quais são os efeitos na vida das pessoas que tiveram uma EQM? Elaine Drysdale – Os efeitos são profundos. Quem teve uma EQM diz que se tinha medo de morrer deixou de o ter. Sabem que há uma experiência de paz e que a vida continua. Dão mais valor à dimensão espiritual da vida. Se eram ateus ou agnósticos tendem a ser pessoas de fé, com um sentimento de que são pessoas queridas onde quer que estejam, desenvolvem um sentido de gratidão pela vida que têm e querem vivê-la em plenitude.

Há uma ênfase acentuada no sentido da vida e a noção de que a parte invisível do universo ainda é bastante desconhecida aguarda por nós. Os efeitos de uma EQM são diferentes de um delírio em que as pessoas se sentem esfusiantes por já não estarem doentes. As EQM são muito diferentes e afetam a vida das pessoas intensamente. Além disso, há alguns factos interessantes. Sentem por vezes que a sua energia eletromagnética está diferente, os relógios não funcionam tão bem, e outros factos que foram descritos pelo Dr.

Melvin Morse no livro “Transformed by the Light”, em casos de EQM relacionados com crianças. Conheceu uma pessoa muito ligada à investigação das EQM, o Dr. Raymond Moody Jr. Pode contar-nos algo sobre ele? Elaine Drysdale – O Dr. Raymond Moody é um homem fascinante e muito gentil. Tem um doutoramento em Filosofia e quando foi estudar Medicina conheceu dois casos de EQM. Pensou que não podia ser a única pessoa a saber disso.

Assim, entrou na unidade de Cardiologia e entrevistou pessoas que tiveram paragens cardíacas. Ao entrevistar pessoas que estiveram perto de morrer, descobriu que com frequência diziam ter flutuado sobre o corpo físico e terem sido declaradas mortas. Algumas foram até capazes de ver algo noutras cidades e subir na atmosfera a ponto de ver o Globo terrestre com a sua luz azul. As pessoas referem a passagem por um túnel onde podem encontrar um ser de luz no seu fim.

Por vezes encontram parentes já falecidos e amigos que celebram a sua chegada. Outras vezes têm uma retrospetiva da sua vida, desde que nasceram até àquela altura. Vêem esses acontecimentos como foram mas sentem a questão moral de como procederam neles. O Dr. Raymond Moody falava às pessoas sobre isto e estava consciente das características deste fenómeno de EQM. Ele escreveu em 1975 um livro para elucidar, caracterizar os seus vários aspetos e tornou-se um “best seller”.

Vendeu muitos exemplares, teve várias edições, foi traduzido em várias línguas, teve efeitos em todo o planeta. Diante disso, as pessoas começaram a falar mais no assunto. Mas a minha convivência com o Dr. Raymond Moody foi como estudante de Medicina. Alguém me disse para o contactar. Reparei que foi muito recetivo à perguntas que tinha para lhe fazer. Excelente investigador, caracterizou o fenómeno das EQM e encorajou as pessoas a falar dele.

Tinha um excelente sentido de humor e revelou-se fundamental para que as pessoas falassem mais abertamente das EQM. Penso que é uma personalidade maravilhosa que teve um grande efeito nesta área. Como se sentiu no VII Congresso sobre Medicina e Espiritualidade, em Matosinhos? Elaine Drysdale – Penso que este congresso foi maravilhoso. Ter um evento que junta aspetos próprios da medicina aos da espiritualidade é um passo em frente que indica aos profissionais de saúde que devemos ter mais em conta esta vertente no tratamento das doenças.

Deixa também uma mensagem para o público em geral: isto é importante! Médicos e terapeutas devem ter noção da importância da condição espiritual do paciente. Senti-me diante de uma experiência profunda, com bons oradores, apreciei as vossas apresentações e os vossos posters com os quais aprendi algo. Senti que este congresso foi muito amigável. As pessoas ligadas à espiritualidade são pessoas acolhedoras e simpáticas.

Sinto-me grata por estar aqui e à Dr.ª Sónia Doi, a presidente da AME Internacional, que está a fazer um ótimo trabalho, a organizar programas destes e a gerar oportunidades sucessivas às pessoas para aprenderem mais. Texto: JG e JF JANEIRO.FEVEREIRO.