Opinião (pág. 14)
Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 144 min
De acordo com o que nos diz “O Livro dos Espíritos”, Deus criou todos, simples e ignorantes (questão 115). A cada nova existência na Terra Deus dá-nos o mesmo ponto de partida, seja através de uma gravidez dita “normal”, in vitro ou qualquer outro processo oriundo da evolução da ciência. Contudo, ainda que a forma de retornarmos à Terra seja a mesma, assim que o fazemos começam a surgir as primeiras diferenças.
Primeiro as diferenças físicas, cor, tamanho, peso, maior ou menor “perfeição”… mais tarde começam a tornar-se evidentes as diferenças de carácter, diferentes formas de sentir, pensar, agir e reagir. Percebemos pormenores tão simples como, diante de uma situação de stress, uns riem outros choram, uns deixam de comer, outros parecem prontos a comer os problemas. Isto porque, embora voltemos ao corpo físico da mesma forma, somos o somatório de todas as experiências do passado, trazendo qualidades e imperfeições para trabalhar na presente existência.
Tendo consciência das diferenças inevitáveis e sábias que Deus proporciona a cada um de nós, tornando a sociedade dotada de iniAceitar a diferença no outro gualável beleza e antes de pensar se, aceito o outro, ou até que ponto o faço, uma primeira e pertinente questão se coloca como ponto de partida para esta reflexão, que parece, à primeira vista, banal (e poderá ser) sem trazer nada de novo (avaliaremos no final…): Será que eu me aceito?
Esperamos e desejamos que os outros aceitem as nossas fraquezas, mas estamos sempre prontos a julgar as suas. O primeiro olhar deve recair sobre nós mesmos, identificando as nossas próprias caraterísticas físicas, o que gostamos e não gostamos em nós. Algumas dessas caraterísticas (peso, rugas…) hoje em dia com força de vontade e/ou poder económico podem ser alteradas ou simplesmente aceites por nós. Mais delicadas são as nossas caraterísticas psicológicas.
Temos muita facilidade em enumerar qualidades e muita dificuldade em assumir defeitos, vícios e limitações. Mesmo quando inquiridos, na maior parte das vezes destacamos uma qualidade na forma de defeito: “Sou bom demais”. Devemos, por isso, parar de mentir a nós mesmos, compreendendo que só nos aceitaremos quando reconhecermos, não o que somos mas como estamos, uma vez que somos seres em evolução. Lidamos aqui com uma grande dificuldade do ser humano, o PRECONCEITO que aliado ao egoísmo são os responsáveis pela falta de aceitação.
Quando percebemos que conseguimos ser preconceituosos connosco próprios, ao não aceitarmos as nossas caraterísticas, com os nossos filhos, procedendo da mesma forma, então todo o processo de aceitação do outro se torna mais difícil. Todos os pais desejam que os seus filhos sejam seres perfeitos, física e psicologicamente, bonitos, simpáticos, inteligentes, saudáveis, que cresçam de forma harmoniosa e sejam sempre bem sucedidos em tudo o que façam.
Este desejo é normal, mas é necessário perceber que nem nos contos de fadas tudo acontece de forma tão linear. Os nossos filhos, tal como nós, têm as suas qualidades e limitações e um projeto de crescimento e melhoramento a fazer na Terra. Hoje a medicina já evoluiu ao ponto de ser possível escolher/aceitar as caraterísticas do filho durante a gestação, consentindo ou impedindo o seu nascimento. O que estamos a fazer?
A aceitar ou a reprovar as decisões de Deus? A usar do nosso orgulho e vaidade para fazer uma seleção que não nos compete. Sim! Somos preconceituosos com os nossos filhos, sempre que ocultamos os seus problemas e limitações, não procurando muitas vezes ajuda especializada, pois nem sequer queremos considerar assumir que tal problema é real e desta forma dificultamos as suas vidas, impedindo-os de usufruir de um conjunto de recursos que também pela evolução da ciência já se encontram ao seu dispor.
A dificuldade de aceitar o nosso filho(a) tal como ele é não tem a ver com as caraterísticas da criança, tem a ver com uma caraterística nossa. “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” (Albert Einstein). Como não podia deixar de ser, também somos preconceituosos com a sociedade em geral, fazemos diferença na cor, aspeto físico, cultura, país de origem, condição social e económica, religião, escolha sexual, etc.
Esperamos e desejamos que os outros aceitem as nossas fraquezas, mas estamos sempre prontos a julgar as suas. Usamos de dois pesos e duas medidas, para nós brandura “quem não erra?”, para os outros intolerância “não admito que…!”. O nosso lar é uma escola abençoada. É na família que encontramos os maiores instrumentos evolutivos, os filhos com deficiência ou de difícil trato, o marido austero, a mulher hipocondríaca e insatisfeita.
Todos servimos aos propósitos de Deus e sempre que aceitamos o outro, aceitamos a nossa própria condição. Assim, aceitar a diferença no outro é respeitá-lo como ele é, com o que tem de bom e menos bom. Como disse Kardec, podemos não conseguir amar da mesma forma aquele que nos trata bem e aquele que nos trata mal, mas podemos respeitá-lo, ajudá-lo e daí nascerá a simpatia, depois a afetividade e mais tarde o amor. Desta forma para aceitarmos a diferença no outro é preciso aceitarmos as diferenças em nós!
Não conseguiremos amar o outro sem nos amarmos, nem aceitar o outro sem nos aceitarmos. Texto: Ana Duarte foto pixabay “É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito” - Albert Einstein Devemos aceitar o outro tal como ele é… aceitar a diferença, seja ela de que ordem for… mas será que aceitamos? MAIO.JUNHO.
