Opinião (pág. 13)
Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 135 min
O entendimento do Espiritismo é muito diferente. Ao longo dos séculos já vivemos e ultrapassamos calamidades de dimensões épicas: guerras mundiais, desastres humanitários, tragédias naturais violentíssimas, miséria e escassez de recursos. Já passamos até por diversas epidemias de consequências trágicas para a humanidade: no século XIV a Peste Negra dizimou cerca de um terço da população mundial; a Gripe Espanhola terá sido responsável pela desencarnação de 50 milhões de pessoas; o vírus da SIDA provocou mais de 30 milhões de vítimas no final do século XX.
À parte destas pandemias globais, não esqueçamos as zonas geográficas que convivem com a ameaça pandémica, miséria, guerra e escassez de recursos de uma forma persistente. Estas calamidades acontecem porque moramos num mundo dinâmico e instável, em que essas “anomalias” fazem parte das contingências de habitá-lo. Alguns cientistas acreditam que os vírus apareceram no momento em que eclodiu a vida, quando as células começaram a replicar-se há cerca de 3,5 mil milhões de anos.
Ou seja, muito antes da espécie humana surgir, os vírus já faziam das suas, provocando pequenas e grandes pandemias através dos reinos da Natureza. E se, no passado, a propagação dos vírus pelas populações humanas estava restringida pelas limitações técnicas dos meios de transporte, o advento da globalizaçãoea rapidez com que nos movimentamos, colocou desafios maiores à capacidade de contermos essas ameaças. Para além disso, ao longo dos últimos séculos, fomos destruindo e ocupando o mundo natural, facilitando a que os vírus passassem as barreiras das espécies.
Entretidos em conservar o nosso modo de vida e preocupados sobretudo com os interesses imediatos, apesar dos avisos que os cientistas foram fazendo, pouco foi realizado para nos prepararmos para esta pandemia. Esta é uma calamidade natural que a falta de previdência humana ajudou a potenciar, não é um apocalipse religioso, mas uma ameaça natural que descuidamos. Mas como todas as dificuldades e crises, este é também um momento precioso de trabalho e reflexão.
É um desafio que nos provoca e instiga a desenvolver o conhecimento e as técnicas para estarmos melhor preparados para futuras ameaças. Mais importante ainda, poderá alavancar o progresso moral de indivíduos e sociedade, despertados pela urgência da solidariedade, superação íntima e colaboração. Tocados pela necessidade de união, é uma oportunidade para os seres- humanos reorientarem a forma como vivem, aproximando a economia da colaboração, oferecendo à riqueza o atributo da partilha e dotando o conhecimento do talento de espargir felicidade.
Mais importante ainda, poderá alavancar o progresso moral de indivíduos e sociedade, despertados pela urgência da solidariedade, superação íntima e colaboração. Ao longo da nossa existência, mas de modo especial durante os momentos mais difíceis, é travada dentro de cada um de nós a batalha das nossas vidas: mostrar o melhor que podemos ser ou o pior que podemos ser. Esta pandemia tem sido fértil em exemplos destas duas situações: os profissionais de saúde em todo o mundo têm dado testemunhos diários de dedicação, espírito de missão e coragem; cuidadores que se mostraram mais preocupados com os seus velhinhos do que no seu próprio bem-estar; universidades, empresas e particulares em ações solidárias fabricando material de proteção para fazê-lo chegar onde ele escasseava; grupos de cidadãos que se organizaram para distribuir bens alimentares por aqueles que não podiam sair de casa; pequenas padarias e mercearias de bairro que se mantiveram abertas para que pessoas de mobilidade reduzida tivessem acesso facilitado a locais de abastecimento; milhões de pessoas que COVID-19: um antivírus para a miopia se isolaram em suas casas para impedir que a cadeia de contágio se tornasse incontrolável.
São incontáveis os casos que nos deixam com um nó apertado na garganta, tornando - -se difícil suster as lágrimas ao constatarmos como a dimensão humana pode ser potenciada por esta crise. No entanto, também existe o lado mais sombrio do comportamento individual e coletivo: pessoas que sucumbiram à indiferença e ao desleixo de poderem ser um foco de contágio; outras que se atiraram aos escaparates dos supermercados numa atitude de “salve-se quem puder!
”; outras ainda que viram esta crise como uma oportunidade de escalarem os seus negócios potenciando o lucro imediato pelo aumento exponencial do preço de bens essenciais; sem-abrigos que são confinados em lugares de parques de estacionamento quando os hotéis fecharam por falta de clientes; governantes mais preocupados com o seu futuro político do que com o bem - -estar das pessoas; organizações que têm no seu nome “União”, mas onde existe falta de colaboração e solidariedade, alimentando a indiferença em relação a países onde a epidemia teve maiores impactos.
O fosso entre o melhor que podemos ser e o pior de nós, poderá ser ultrapassado com a sensibilidade para ver, ouvir e compreender com maior lucidez. Uma lucidez que nos corrija a miopia que carregamos orgulhosamente e que nos ajude a ver muito para além dos nossos interesses imediatos e das ameaças que caiem no metro quadrado em que nos encontramos. Uma lucidez que nos instigue a ser sensível ao outro, às suas dores e dificuldades, mas também à natureza, à transcendência e à importância da comunidade nas nossas vidas individuais.
É essa sensibilidade e lucidez que nos empurra para uma real vivência em espiritualidade, sendo ela uma forma de perscrutar e descobrir a raiz das coisas, de sentir o que é a verdade, de compreender a sua essência, vivendo em amor e em integridade e fazendo desses os princípios orientadores das nossas vidas. Uma lucidez que permita que tudo aquilo que fazemos e tudo aquilo por que passamos tenha um sentido, um propósito.
Ao vivermos dessa forma, não adquirimos uma capa mágica que nos vai proteger miraculosamente de passarmos por estes tempos conturbados sem sermos feridos de alguma forma, mas conquistamos a serenidade íntima de nos sentirmos preparados, espiritualmente preparados e seguros de que a nossa alma passará incólume, qualquer que seja a ameaça. Por Carlos Miguel Diante de calamidades como a pandemia de COVID-19 que alastra por todo o planeta, há sempre muita gente que aproveita para dar voz a antigas teorias de hecatombe planetária de cariz religioso: “Arrependam-se!
Os tempos são chegados!”, gritam, procurando através do medo e do desespero uma adesão mais rápida às ideias que propagam. foto pixabay MAIO.JUNHO.
