Opinião
Jornal de Espiritismo nº 100 · Maio 2020Página 127 min
Trata-se de um desenvolvimento da antropologia espírita que observa os principais marcos históricos da evolução do Espírito. Reconhecemos que não se trata de uma leitura acessível, sobretudo para quem iniciou recentemente o estudo desta doutrina filosófica. Mas sem dúvida que estamos perante uma obra de elevado valor epistemológico (ramo da filosofia que estuda as questões relacionadas com o conhecimento humano) que deve ser analisada com a racionalidade necessária, no contexto antropológico, histórico e filosófico, reforçando os argumentos científicos do Espiritismo, entendido na sua vertente científica experimental.
Este livro fala-nos da história do Espírito e a sua leitura remeteu-nos para uma pergunta que julgamos bem enquadrada com a sua mensagem: Por que razão a doutrina espírita inicia o seu desenvolvimento apenas na segunda metade do século XIX? Dependendo da maturidade de cada leitor, em relação ao seu conhecimento doutrinário, várias respostas podem perfilar-se: Um acaso, uma etapa da História da Humanidade, um período de maturidade antropológica e religiosa, uma fase da evolução da Ciência, uma exigência psicossocial, o despertar dos sentidos coletivos, uma invenção do Ser Humano, uma emergência religiosa, a descoberta do psiquismo, uma criação do tempo ou uma imposição de Deus?
José Herculano Pires desenvolve nesta sua obra, uma resposta que permite ao leitor visualizar os principais marcos da trajetória do Espírito no contexto cronológico, para fornecer a compreensão da ordem temporal que preparou o caminho das dimensões científica, filosófica e religiosa do Espiritismo. Apesar do caminho percorrido, que notoriamente traduz um contexto global evolutivo, ainda são diagnosticadas hesitações, incompreensões e preconceitos sobre a natureza desta ciência experimental.
Adianta o autor que existe ainda quem olhe para a doutrina espírita como uma sistematização de velhas superstições, a formulação de uma abordagem científica frustrada, a tentativa de criação de uma ciência infusa e não organizada, o esboço impreciso de uma filosofia religiosa, o aparecimento de uma seita religiosa ou de uma religião e superstição eivada de resíduos mágicos. Esta difusão interpretativa de que ainda padece o Espiritismo, é característica de um parto difícil que gradualmente desatará os nós dos preconceitos orgulhosos e incapazes de negar esta doutrina como uma realidade histórica.
Nunca é demais afirmar que um dos alicerces do Espiritismo assenta na universalidade milenar, da crença na sobrevivência da alma, transversal a todas as religiões e civilizações. Nesta obra de José Herculano Pires o tempo é apenas cronológico, para facilitar a referenciação dos principais marcos evolutivos do Espírito, lembrando que o conceito do tempo decorre da observação de fenómenos naturais (movimento de translação e de rotação da Terra, fases da Lua, vibração natural do elemento químico césio para a medição do segundo).
Se ensaiarmos a perceção dos mecanismos do tempo, concluiremos que o tempo é inexistente e portanto sem realidade. Para atestar esta ideia, concorrem os Espíritos afirmando que: «Não contamos o tempo como contais; os Espíritos vivem fora do tempo». O Espírito foi amadurecendo e revelando a sua natureza espiritual desde a fase designada por José Herculano Pires de horizonte tribal. Nele germinava o mediunismo primitivo, onde a lei da adoração manifestava os seus primeiros cerimoniais.
Adoravam-se as pedras, as rochas, os relevos, os animais, preparando a configuração da mitologia e do politeísmo. O selvagem não tinha ainda a consciencialização dos fenómenos metapsíquicos, apesar destes atuarem de forma direta e imediata. Seguiu-se a fase do horizonte agrícola, há cerca de 12 mil anos, caracterizada fundamentalmente pelas formas de sedentarização. Esta grande transformação permite o desenvolvimento da racionalização anímica, que aprofunda a crença tribal na existência dos espíritos.
Nesta fase tomam preponderância os elementos da Natureza, a Terra que representa a MãeeoCéu que tipifica o Pai. No horizonte agrícola, Osíris é o deus egípcio fluvial que purifica a terra cuja representação também se identifica na água da renovação em S. João Batista. O sentido osírico da civilização egípcia estabeleceu contactos com a doutrina da ressurreição cristã, tal como o dogma da Virgem-Mãe tem a sua origem no mito egípcio da virgindade da Terra, deusa-mãe que permanece imaculada após a fecundação do deus-sol e, possibilita a fertilização dos campos após o inverno.
José Herculano Pires nota que desde tempos ancestrais é a constelação de Virgem a primeira a aparecer no céu, logo depois do solstício de inverno. O horizonte agrícola manifesta ainda o mistério do pão e do vinho através do ritual da impregnação. O pão representado nas deusas grega Deméter e romana Ceres e, o vinho nos deuses grego Dionísio e romano Baco, em cujas cerimónias pagãs, o pão era impregnado pelo vinho, simbolizando a matéria fecundada pelo espírito.
Diz-nos José Herculano Pires que o Espiritismo veio libertar o Ser Humano dessa impregnação para o conduzir ao horizonte espiritual. Estas configurações do horizonte agrícola acabaram por conformar o Deus Agrário do Antigo Testamento, através de processos sincréticos originados nos rituais mitológicos. Neste percurso histórico do Espírito seguiu-se o horizonte civilizado, dando-se a fusão do humano com o divino nos chamados Estados Teológicos (civilizações do Egito, da Assíria, da Babilónia, da China, da Índia, o Estado de Israel e o império da Pérsia).
O Espírito civilizado é caracterizado pela transição do mediunismo coletivo para o culto individual dos Espíritos, fazendo emergir os complexos da humanidade, a alegoria da evoluçãoea ideia do renascimento. Estas ideias estão bem representadas na lenda do dilúvio universal, presentes em Noé no Antigo Testamento, em Gilgamesch na civilização assíria e em Deucalião no dilúvio grego, cujas lendas advertem a Humanidade para a necessidade da evolução, por intermédio da espiritualização do Ser Humano.
Ao horizonte civilizado sucedeu-se o profético, também denominado por Herculano Pires por mediunismo bíblico. Nele estão reunidas as três dimensões do profeta: a social, a mediúnica e a espiritual. Aqui foi operada a transição do politeísmo para o monoteísmo, com os testemunhos dados pelos profetas do Antigo Testamento. A individualização mediúnica desenvolveu-se através da coexistência dos horizontes agrícola, civilizado e profético no espaço hebraico, preparando para o advento do poder renovador do Cristianismo.
O aparecimento de Jesus marca a passagem para o horizonte espiritual, no qual se observa uma considerável evolução mediúnica, sem que o Ser Humano se aperceba verdadeiramente da natureza de Deus, uma vez que «os Homens ainda não estão preparados para compreenO Espírito e o Tempo derem esta revolução». Na Idade Média a filosofia torna-se a serva da teologia, constituindo um tempo de preparação para a racionalização da fé.
É o período da Renascença que promove a luta contra o fideísmo e os símbolos, através do processo dialético de Erasmo de Roterdão, da reforma protestante de Martinho Lutero e Calvino, impelindo a própria Igreja a encetar a sua renovação com a convocação do Concílio de Trento. Operou-se então a Contrarreforma com duas referências em sentidos opostos: uma negativa, a instituição do Santo Ofício e, outra positiva, a formalização da Companhia de Jesus.
Chegados aos séculos XVIII-XIX, estavam criadas as condições espirituais para se iniciar uma nova etapa, que José Herculano Pires designou por «Invasão Espiritual Organizada», caracterizada pela sucessão de manifestações mediúnicas. Diz-nos o autor que a nebulosa do Espiritismo nasceu com o espiritualista e médium multifacetado Emmanuel Swedenborg (1688-1772), seguindo-se os casos do pastor escocês Edward Irving (1792-1834), em cuja igreja aparece um acometimento considerável do dom das línguas, do comportamento mediúnico dos emigrantes ingleses conhecidos por «Shakers», na Califórnia, a partir de 1837, da tiptologia (comunicação dos espíritos através de pequenas batidas em materiais rígidos) interpretada pelas irmãs Fox, em Hydesville, em 1848, do clarividente Andrew Jackson Davis (1826-1910), e finalmente do fenómeno das mesas girantes estudado por Hypollite Léon Denizard Rivail (1804-1869).
Em face desta sucessão de fenómenos mediúnicos não se poderia conceber o Espiritismo fora do contexto da evolução da científica. O positivista Auguste Comte (séc. XIX) identificava como campos científicos a Matemática, a Astronomia, a Física, a Química, a Biologia e a Sociologia. A ausência da Psicologia na estrutura de Comte era uma omissão substancial, um ramo científico fundamental para a afirmação do psiquismo como fenómeno.
Allan Kardec percebeu o estado evolutivo teológico, filosófico e científico do seu tempo, para evidenciar o papel da Ciência em busca da racionalidade dos fenómenos anímicos e mediúnicos. Esta obra fundamental de José Herculano Pires contribui para levantar ligeiramente o véu dessa trajetória da grande Ordem Universal, equacionando o problema do conhecimento que não conhece campos interditos, no âmbito da dialética da filosofia espírita.
Assim sendo e, citando Martin Heidegger (1889-1976), «o espírito há de ser, por sua vez, afim com o tempo e com a sua essência», concluindo-se que a evolução não se antecipa no tempo. Por Carlos Paiva Neves «O Espírito e o Tempo» é um livro da autoria de José Herculano Pires (1914-1979) que foi considerado pelas principais instituições espíritas do Brasil, como o sétimo livro mais importante da doutrina espírita, fundamental para quem deseja aprofundar o estudo desta realidade filosófica.
