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Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 34 min
passeio numa das levadas da Madeira).
Fonte: José António (Madeira)
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“Grande confusão” com desastrosas consequênciasEstudo de caso
No dia 14 de Agosto do ano passado foi-nos entregue a seguinte carta de Leitor deste jornal: “Estimado Dr. Iso, pretendo saber o que se passa comigo. Desde pequeno, ainda de colo, que sofro de obsessões, compulsões, ideias fixas e manias. Pensamentos recorrentes. Ultimamente o meu estado de saúde tem-se vindo a agravar de dia para dia. Sensação de mal-estar. Dores de cabeça. Sensação de um peso na minha cabeça. Pensamentos obsidiantes, recorrentes sobre o sexo. Penso que um dia vou ficar louco e passar o resto dos meus dias num hospital
Os psiquiatras dizem que eu tenho uma neurose obsessivo-compulsiva, mas os medicamentos não fazem nenhum efeito. Em face da sintomatologia que apresento, tenho tido acompanhamento psiquiátrico e psicológico, mas sem resultado. Já fiz todos os exames possíveis e imaginários e nada me foi detectado. Os psiquiatras e psicólogos não sabem o que eu tenho. Uns dizem que é uma coisa, outros dizem que é outra. E uma grande confusão! Um psiquiatra português já me disse
ue podem ser espíritos que andam comigo.
E prossegue o nosso Leitor: “Em relação a centros espíritas conheço muitos. Já frequentei alguns, vários anos, e até já trabalhei em dois, dando passes e na mediunidade, mas sem resultados positivos. Os dirigentes espíritas que contactei, também não sabem realmente o que eu tenho, uns dizem que é uma coisa, outros dizem que é outra: é uma grande confusão entre ães e sobretudo contradizemse. Por que razão me dizem, e sem me conhecer, “que sou um grande médium curador” e “tenho é que começar a trabalhar imediatamente”?
Até foi sugerido que eu começasse a trabalhar em casa, dando passes às pessoas doentes da minha localidade. Por que esses dirigentes mal falam comigo e colocam-me logo, como eles dizem, “a trabalhar” na mediunidade, se eu não entendo nada disso, nem sei como, nem o que estou a fazer? Como ficam as pessoas que se sentam em frente a mim para levarem um passe meu, se eu nem sei o que isso é? Será que eu sou mesmo médium?
Como elas podem ter tanta certeza disso, se mal conversam comigo, só por eu dizer que transpiro pelas mãos e que sinto, às vezes, as mãos quentes e com formigueiros? (...)”.
E o nosso Leitor conclui dramática e desesperadamente: “Uma coisa é certa, sendo médium ou não, trabalhando ou não, continuo cada vez pior e já passou mais de uma dezena de anos nesta situação. Desejo saber o que é que eu tenho. Diga-me, por favor, o que se passa comigo e o que me sugere?”” MJ. Portugal.
O caso do sr. MJ será analisado aqui, resumidamente, sem a pretensão de respondermos, exactamente, à sua inquietação maior: “o que é que eu tenho?”. E que não somos magos, nem místicos e, obviamente, sem uma anamnese, uma história completa e um exame psíquico rigoroso, só podemos opinar sobre o caso em tese, e é o que faremos...
A julgar-se pelos sintomas referidos pelo ST. MJ (obsessões, compulsões, “manias”, etc.) é bem possível que ele sofra de uma neurose obsessivo-compulsiva, hoje chamada Transtorno Obsessivo-Compulsivo (TOC), segundo a Classificação Internacional da Organização Mundial de Saúde (OMS)... Podemos resumir a conceituação do TOC dizendo que nesta doença os pacientes apresentam ideias intrusivas (obsessivas), recorrentes, geradoras de ansiedade e, na luta contra elas, resultam rituais repetitivos, compulsivos... Por exemplo: uma paciente ao entrar numa igreja católica tem ideias intrusivas de que deve olhar para a genitália da imagem
de determinado santo e, depois de uma luta ãuase incessante para afastar tal ideia do campo e sua consciência, é levada a “rituais de purificação”, como o de lavar as mãos, várias e várias vezes, embora elas já estejam limpas. Tais “rituais” ocupam, muitas vezes, várias horas do dia, caracterizando-se a inutilidade e o carácter patológico, doentio, do seu comportamento compulsivo. Os exames comâ)lementares nos pacientes com TOC não revelam, via de regra, nenhuma anormalidade, pois a alteração é funcional do cérebro, com disfunções bioquímicas, ainda incompletamente esclarecidas...
Ainda que os medicamentos não estejam fazendo efeito no TOCcomo parece estar acontecendo no caso do sr. M.J.-, isto não significa que o diagnóstico de neurose obsessivo-compulsiva esteja errado, pois o TOC é, talvez, a neurose mais grave e de mais difícil tratamento... O sr. Leitor não citou o(s) medicamento(s) dos quais fez uso, mas gostaríamos de esclarecer que a substância clomipramina, assim como antidepressivos mais modernos, como a fluoxetina, o cloridrato de sertralina e outros, produzem bons resultados no tratamento do TOC; no entanto, os resultados nem sempre são satisfatórios, devido à gravidade dos sintomas da doença e aos eventuais efeitos colaterais da droga utilizada; por isso, só devem ser usados sob prescrição médica, por um médico-psiquiatra.
Não obstante, o tratamento farmacológico deve ser aliado a uma psicoterapia e complementado por orientação espiritual e recebimento de passes por pessoas hígidas mental e fisicamente.
Confusão entre mediunidade e mediunato
É lamentável a confusão conceptual e prática de alguns dirigentes espíritas, conduzindo, muitas vezes, a consequências desastrosas, como parece ocorrer
