opinião Ambição, ética e espiritismo Ignorâncias ancestrais ainda cond
Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 106 min
Ambição, ética e espiritismo
Ignorâncias ancestrais ainda condicionam o rumo de muitos seres pensantes do mundo presente. Atraídos por sonhos fáceis, não arrepiam caminho na ilusão do “tudo ter”. É, então, urgente ser luz, caminho e verdade, mesmo na escuridão
Ganhar muito dinheiro, casar “bem” ou viajar pelo mundo são, entre muitos outros, objectivos que povoam o imaginário da nova sociedade, transportando-a ao mundo da ambição. Para lá do doce viver que alimenta, o cenário que traça é obscuro e arrisca-se a vaticinar que as próximas encarnações se desenvolvam num cenário de dificuldades incontáveis. De facto, o tema da ambição não é inédito. Basta lembrar que, nos seus ensinamentos, a Bíblia Sagrada reverencia-o e que, desde tempos imemoriais, é assunto de debates filosóficos e de peças teatrais, tendo merecido tratamento especial de Shakespeare que introduziu este trama em várias peças.
Etimologicamente, a palavra ambição deriva de “ambire”, que significa “mover-se livremente”. Em sentido positivo, o mesmo será dizer: criar o seu próprio caminho. Mas, infelizmente, o vocábulo perdeu a significação de raiz e encontrou outros sentidos como, vantagem económica ou financeira, desrespeito por pessoas e regras impostas, egoísmo exacerbado e ... muito mais ...
Ora, pretender algo melhor para a sua vida e para a dos outros é sentimento nobre, que exige coragem de ouvir críticas, aprender com os erros e aceitar novos pontos de vista. E, na verdade, nada há de errado em ser ambicioso, muito menos em ter “grandes ambições”, quando condicionadas pelo respeito de normas. Estimular a saúde pública e privada, preservar a integridade física e psíquica, respeitar a Natureza e todos os seres que nela habitam ou amealhar bens mínimos imprescindíveis a um viver com dignidade, nada tem de inaceitável.
Entre os bens desejáveis para todos os homens está a propriedade. Poder dispor desse benefício com certa maleabilidade é sinónimo de autonomia que, devidamente controlada, aumenta o sentido de responsabilidade. Allan Kardec, o sintetizador dos ensinamentos espíritas no planeta Azul, assevera que “... a propriedade que resulta do trabalho é um direito natural, tão sagrado quanto o de trabalhar e de viver.
Geralmente, delibera-se a ambição antes da ética, quando seria correcto proceder inversamente. Moral e Ética, às vezes, são palavras cujo sentido se cruza ou se confunde, de acordo com a bagagem académica. Consultado o dicionário, a Moral é “um conjunto de normas de conduta consideradas mais ou menos absoluta e universalmente válidas” e da Ética fazem parte “os princípios morais por que um indivíduo rege a sua conduta pessoal ou profissional” clareando, desta forma, o binómio imprescindível a um comportamento reflexivo e capaz de nortear as acções humanas na sociedade de que é parte integrante.
“ Não matarás! Não roubarás!” ... Quem não conhece os preceitos? ...
Contudo, para que as regras éticas sejam efectivamente legitimadas, é necessário que sejam partes integrantes do respeito próprio, ou seja, que o auto respeito dependa, além dos diferentes êxitos na realização dos projectos pessoais de vida, da consideração em que
assentam esses valores e regras. Mas, sujeito à ambição, o ser humano não domina os contornos de “uma ética” que frustre os seus objectivos. Percebendo que não se vislumbram os rumos traçados, a tendência é prontamente reduzir ou anular o rigor ético sem, contudo, refrear a ambição. Cabe aqui um pequeno exemplo. A maioria dos pais ou educadores inquietam-se se os seus pupilos não mostram ambição, mas não se preocupam, nem questionam, se estes quebram a ética, ou mesmo, se a conhecem. O filho copiou na prova ou no exame, ... não importa, desde que tenha passado de ano ...
Mais difícil ainda é refrear o ímpeto dos atentados aos bens imateriais ou espirituais de cada pessoa humana que, em sociedade, percorre as vias da aprendizagem. Por isso, definir cedo o comportamento ético pode representar tarefa difícil, mas é, com certeza, uma via proibitiva de antecipação. É a ética que tem de preceder à ambição, através de um trabalho interior capaz de melhorar a qualidade de vida, o que permitirá ao ser humano conhecer-se melhor e ao Universo como um todo, uma vez que é levado também por um propósito fundamental, cuja função é a de aprender a amar incondicionalmente.
Destituído deste ideal, o homem cultiva a pobreza do seu mundo interior, acarretando uma desumanização e uma obstrução da capacidade de amar, porque a sua dignidade não está fundamentada em “parecer amar”, mas sim em “amar verdadeiramente”. Os piores inimigos ou adversários encontram-se no seu interiornão estão fora dele. Situam-se no carácter e procuram assenhorar-se do coração.
Lembra ainda que, embelezando a vida ao seu semelhante, o ser humano pode sentir que, logo mais, também ele renascerá para a mesma ventura
os recursos do auto conhecimento e do trabalho a favor do Bem.
E, pois, importante a mudança de conceitos e a reconciliação com esses “inimigos” íntimos
responsáveis pelo desrespeito pelas máximas que a ética aponta no sentido de perspectivar a liberdade individual de acção, porque os sentimentos são parte importante da vida. Quando encarnados, dir-se-á que é bastante agradável a acção fácil, a “cunha” ou o esquema de resultados imediatos. Todavia, o desafio da conquista ou, melhor, o trabalho-desafio é quem oferece rendimentos espirituais mais valiosos e duradouros.
São eles que perduram nos anais da consciência, mesmo após o desencarne e com os quais o espírito imortal terá de conviver eternamente. Habituados a este preceito, não será tardia a bênção da oportunidade de servir, quando desencarnados. Em “ Nosso Lar”, obra psicografada por Francisco Cândido Xavier, André Luiz afirma que “quando o servidor está pronto, o serviço aparece.
A Ciência Espírita é excelente “pedra de toque” que apaga o erro e faculta a manifestação da verdade condutora ao caminho do bem-fazer. Os ensinamentos de Jesus e dos Seus Mensageiros estão aí patentes e rasgam clareiras nas trevas densas da ignorância em que o homem jaz, apontando “céus” formosos para o seu futuro. Através desta Doutrina, o Divino Amigo é apontado como ternura que atapeta os caminhos a percorrer e a liberdade que detém os tesouros da pureza de sentimentos e acções.
O Seu exemplo abre portas às emoções sadias e transporta a lamparina do Amor ao semelhante, evitando a escuridão derramada pela ambição desmedida. Senhor destas evidências, o seguidor de Cristo não deve descurar a sombra que amanhã o enregelará. O carácter filosófico que caracteriza as suas bases e os conceitos morais que agrega aconselham o sujeito a conduzir essa Luz que o enriquecerá de amor por todos e a cultivar a Paz, não se afligindo quando perder em benefício de alguém o que doentiamente ambiciona.
A não se entristecer com o triunfo dos seus companheiros de jornada, contribuindo, antes, para a festa do seu sucesso. Lembra ainda que, embelezando a vida ao seu semelhante, o ser humano pode sentir que, logo mais, também ele renascerá para a mesma ventura. Face a estes pressupostos, mereça o espírita que o seu companheiro de caminho constate a afirmação de Kardec: “reconhece-se o verdadeiro espírita pela sua transformação moral e pelos esforços que faz para dominar as suas más inclinações.
Assim sendo, só resta redireccionar a ambição no sentido da realização do progresso saudável à alma, tendo em mente a resposta dos Espíritos Superiores à questão n.º 779, de “O Livro dos Espíritos”, que asseguram: “O homem se desenvolve por si mesmo, naturalmente, mas nem todos progridem ao mesmo tempo e da mesma maneira; é então que os mais adiantados ajudam os outros a progredir, pelo contacto social.” E, face às lições do Mestre Amado na conquista do bem proceder, expressas no “Evangelho Segundo o Espiritismo” - cap. XVIII, itens 10, 11 e 12 - jamais se olvide a prerrogativa: “A quem muito foi dado, muito será pedido”.

