opinião Visão espírita da Bíblia "“Dever-se-á daí concluir que a Bíbli
Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 115 min
"“Dever-se-á daí concluir que a Bíblia é um erro? Não; a conclusão a tirar-se é que os homens se equivocaram ao interpretá-la».
Allan Kardec, «O Livro dos Espíritos»
A Bíblia (que o nome quer dizer “O Livro”) é na verdade uma biblioteca, reunindo os diversos livros da religião hebraica, escritos por vários autores em número de 42. Representa a codificação da primeira revelação do ciclo do cristianismo. Foram todos escritos em hebraico e aramaico e traduzidos no séc. V da nossa era para o latim. O Evangelho ou Novo Testamento foi reunido mais tarde pelas igrejas católicas e protestantes, não pertencendo de facto à Bíblia.
É outro livro, escrito muito mais tarde, com a reunião dos vários escritos sobre Jesus e seus ensinos. O Evangelho é a codificação da segunda revelação cristã. No Espiritismo não devemos confundir esses dois livros, mas devemos reconhecer a linha histórica e profética, a linhagem espiritual que os liga. São, portanto, dois livros distintos. O Evangelho traz uma nova mensagem, substituindo o deusguerreiro da Bíblia pelo deus-amor do Sermão da Montanha.
Se analisarmos bem, a própria Bíblia é um livro mediúnico, tal como o apóstolo Paulo o afirmou: “Vós recebeste a lei por mistérios dos anjos”, isto em Actos, 7:53, explicando ainda em Hebreus 2:2: “Porque a lei foi anunciada pelos anjos”. Está claro que os anjos são espíritos, reveladores das leis de Deus aos homens, como afirma o espiritismo. Paulo vai mais longe, afirmando em Actos 7:30-31, que Deus falou a Moisés através de um anjo na sarça-ardente.
O próprio Moisés condenou precisamente o que o Espiritismo condena, ou seja o abuso da mediunidade, especialmente no Cap.18 do Deuteronómio que vai do versículo 9 ao 14. À tradução, como sempre, varia de um tradutor para outro, e às vezes nas diversas edições da mesma tradução. Moisés proíbe os judeus, quando se estabeleceram em Canaã, de praticar estas abominações: fazer os filhos passarem pelo fogo; entregar-se à adivinhação, prognosticar, agourar ou fazer feitiçaria; fazer encantamento, necromancia, magia, ou consultar os mortos. E Moisés acrescenta, no versículo 14: "Porque essas nações, que hás de
ÁcarosAranhasBaratasTérmitas
Bicho da MadeiraCarraçasFormigas MelgasMoscasMosquitosRatos Piolhos dos LivrosPulgasRatazanas
rolamos as seguintes espécies:
possuir, ouvem os prognosticadores e os adivinhadores, porém a ti o Senhor teu Deus não permitiu tal coisa". No entanto, Moisés aprovou a mediunidade moralizadora, a prática espiritual da relação com o mundo invisível. Assim é que no livro de Números, Cap.11, versículos 26 a 29 se conta que Eldad e Medad tendo ficado no campo lá mesmo foram tomados e profetizavam, ou seja, davam comunicações de espíritos. Um jovem correu e denunciou o fato a Josué.
Este pediu a Moisés que proibisse as comunicações. A resposta de Moisés é um golpe de morte em todas as pretensas condenações do Espiritismo pela Bíblia. Eis o que diz o grande condutor do povo hebreu: "Que zelos são esses, que mostras por mim? Quem dera que todo o povo profetizasse, e que o Senhor lhe desse o seu espírito"! Como acabamos de ver, Moisés aprovava a mediunidade pura que o Espiritismo aprova e defende. Mas o pior cego é o que não quer ver, principalmente quando fechar os olhos é conveniente e proveitoso.
Kardec afirmou e demonstrou que o Espiritismo é a continuação do cristianismo. Veja-se o que ele escreveu a respeito da introdução e no primeiro capítulo de O Evangelho Segundo o Espiritismo. Veja-se a sua teoria da Revelação no primeiro capítulo de A Génese. A I Revelação do Cristianismo foi “feita através de Moisés e dos profetas, a II Revelação veio com o Cristo e foi codificada nos Evangelhos. Mas esta codificação anunciava outra vinda, a do Espírito da Verdade que se manifestou a Kardec e deulhe os ensinamentos codificados em O Livro dos Espíritos.
Esta codificação é a ITI revelação, que “não anuncia mais nenhuma, porque nela a Revelação Cristã se completa, abrindo definitivamente as portas da mediunidade para o diálogo do Visível com o Invisível. Estando as portas abertas, a Revelação Cristã flui naturalmente daqui para diante, sem necessidade das divisões históricas do início. Por isso e para isso é que o Espiritismo não se fecha numa estrutura dogmática e eclesiástica.
evidentemente, encerra “factos que a razão, desenvolvida pela ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e derivam de costumes que já não são os nossos. Mas a par disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela encerra grandes e belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do pensamento, pois logo desaparece o absurdo”.
A palavra de Deus não está contida na Bíblia, mas sim na natureza, traduzida em suas leis. A Bíblia é simplesmente uma colectânea de livros hebraicos, que nos dão um panorama histórico do judaísmo primitivo. As leis morais da Bíblia podem ser resumidas nos Dez Mandamentos. Mas esses mandamentos nada têm de transcendentes. São regras normais de vida para um povo de pastores e agricultores, com pormenores que fazem rir o homem de hoje.
Por isso, os mandamentos são hoje apresentados em resumo. O Espírito que ditou essas leis a Moisés, no Sinai, era o guia espiritual da família de Abrão, Isaac e Jacob, mais tarde transformado no Deus de Israel. Desempenhando uma elevada missão, esse Espírito preparava o povo judeu para o monoteísmo, a crença num só Deus, pois os deuses da Antiguidade eram muitos. O Espiritismo reconhece a acção de Deus na Bíblia, mas não pode admiti-la como a "palavra de Deus".
através dos médiuns, então chamados profetas. O próprio Moisés era um médium, em constante ligação com lave ou Jeová, o deus bíblico, violento e irascível, tão diferente do Deus-pai do Evangelho. Devemos respeitar a Bíblia no seu exacto valor, mas nunca fazer dela um mito, um novo bezerro de ouro. Deus não ditou nem dita livros aos homens.
Texto: Carlos Ribeiro (CECA) - cariberto&hotmail.com
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