opinião Maãos à obra Como todos sabemos, desde sempre o homem necessit
Jornal de Espiritismo nº 11 · 2005Página 125 min
Como todos sabemos, desde sempre o homem necessitou de trabalhar, e cada vez mais, nos dias de hoje, percebemos que para podermos ter uma vida desafogada e educarmos os nossos filhos, para atendê-los nas suas necessidades, até a “mãe” se vê obrigada a arranjar emprego. Só assim se torna possível para nós acompanhar o nível de vida...
O Livro dos Espíritos diz-nos o seguinte a propósito deste assunto: “674. A necessidade do trabalho é uma lei da Natureza? O trabalho é uma lei natural, por isso mesmo é uma necessidade, e a civilização obriga o homem a trabalhar mais, porque aumenta suas necessidades e prazeres.”
Ora, uma vez que o nível de vida cresce, existe em nós uma vontade natural de acompanhar esse crescimento. Para tal, vemo-nos obrigados a aumentar o nosso trabalho.
Contudo, podemos analisar esta questão de um outro ponto de vista. Considerando o nosso crescimento espiritual, quanto mais longe quisermos chegar, mais temos de trabalhar também. Para reforçar esta afirmação, vamos de novo a O Livro dos Espíritos: “675. Devemse entender por trabalho somente as ocupações materiais? Não; o Espírito também trabalha assim como o corpo. Toda a ocupação útil é trabalho.”
Tudo aquilo que nós fazemos além do nosso emprego, desde que seja útil, é considerado trabalho. Por exemplo, um voluntariado; quando em horas de lazer tratamos das plantas do nosso jardim; quando já reformados, tomamos conta dos nossos netos... Novamente, O Livro dos Espíritos esclarece: “676. Porque o trabalho é imposto ao homem? É uma consequência de sua natureza corporal. É uma expiação e ao mesmo tempo um meio de aperfeiçoar a sua inteligência; por isso deve
Até aquele que não implica incapa:
seu sustento, segurança e bem-estar apenas ao seu trabalho e à sua actividade. Áquele que tem o corpo muito fraco, Deus deu a inteligência como compensação, mas é sempre um trabalho.”
Tudo aquilo que fazemos, independentemente de usarmos as nossas forças físicas ou a força da inteligência, é trabalho, é aquilo que laboramos.
Mas será que em outros mundos mais elevados existe a mesma necessidade de trabalho? O Livro dos Espíritos diz-nos: “678. Nos mundos
mais aperfeiçoados, o homem está sujeito à mesma necessidade de trabalho? A natureza do trabalho é relativa à natureza das necessidades. Quanto menos as necessidades são materiais, menos o trabalho é material; mas não deveis crer por isso que o homem fica inactivo e inútil: a ociosidade seria um suplício, em vez de ser um benefício.”
Na colónia Nosso Lar, descrita amplamente por André Luíz no livro com o mesmo nome, podemos perceber as diferenças entre o trabalho no mundo espiritual em comparação com o trabalho que conhecemos na Terra. No plano espiritual, a motivação para o trabalho nada tem a ver com o amealhar de dinheiro para fazer as compras necessárias às nossas necessidades (como acontece connosco). Na verdade, os trabalhadores de Nosso Lar são pagos em “bónus-hora”, que para simplificar, podemos imaginar que se trata de um cartão em que acumulamos pontos por cada hora de trabalho.
Depois, esses pontos podem ser trocados por benefícios pessoais, como por exemplo a visita feita a familiares encarnados. Assim, e resumindo, no mundo espiritual a motivação principal para o trabalho é o amor. Continuando com O Livro dos Espíritos: “679. O homem que possui bens suficientes para assegurar sua existência está livre da lei do trabalho?
entemente não tem meios físicos ou intelectuais para trabalhar, pode e deve fazê-lo. A deficiência idade, e muito menos para aqueles que “imaginam” a sua inutilidade.
a dos outros, que é também um trabalho. Se um homem a quem Deus distribuiu bens suficientes não está obrigado a se sustentar com o suor do seu rosto, a obrigação de ser útil a seus semelhantes é tanto maior quanto as oportunidades que surjam para fazer o bem, com o adiantamento que Deus lhe fez em bens materiais.”
O homem pode não ter necessidade de trabalhar para garantir o seu sustento, pelo facto de que Deus já lhe adiantou um “empréstimo”. No entanto, não se encontra
livre do trabalho perante o seu semelhante. Ele tem a obrigação de ajudar dentro das suas possibilidades e capacidades, quer aos outros quer a si mesmo, desenvolvendo a sua inteligência e pondo em prática a sua moral. Até aquele que aparentemente não tem meios físicos ou intelectuais para trabalhar, pode e deve fazê-lo. A deficiência não implica incapacidade, e muito menos para aqueles que “imaginam” a sua inutilidade ou que a inventam.
Já vimos que o trabalho é necessário para a nossa sobrevivência e bem-estar. No entanto, todos nós sentimos também uma incontornável necessidade de repouso. Depois de um dia ou de uma semana de trabalho, o nosso corpo e o nosso cérebro pedem descanso, e vemo-nos obrigados a fazer-lhes a vontade, para recuperarmos energias.
Consultando mais uma vez O Livro dos Espíritos, onde encontramos resposta para tudo, vemos o que nos explica a respeito do repouso. “682. O repouso, sendo uma necessidade após o trabalho, não é também uma lei natural? Sem dúvida. O repouso repara as forças do corpo e é também necessário para dar um pouco mais de liberdade à inteligência, para que se eleve acima da matéria.”
Assim, é fundamental repousar para que o nosso corpo recupere as forças e para que o nosso Espírito se eleve ou evolua. O período de sono é uma boa forma de termos parcialmente a nossa consciência como Espírito, e assim podemos agir pelo nosso bem. “683. Qual o limite do trabalho? O limite das forças; entretanto, Deus deixa o homem livre.” Então, Deus deixa que sejamos nós a determinar esse limite. Depende da nossa consciência manter-nos no limite, ultrapassálo, ou nem sequer lá chegar.
“684. O que pensar daqueles que abusam de sua autoridade para impor a seus inferiores excesso de trabalho? É uma das piores acções. Todo homem que tem o poder de comandar é responsável pelo excesso de trabalho que impõe a seus subordinados, porque transgride a lei de Deus.”
Então e no que diz respeito ao avançar da idade? Diz-nos o mundo espiritual: “685. O homem tem direito ao repouso na velhice? Sim. Ao trabalho está obrigado apenas conforme suas forças.”
“686. Mas que repouso tem o idoso necessitado de trabalhar para viver, se já não pode? O forte deve trabalhar pelo fraco e, na falta da família a sociedade deve tomar o seu lugar: é a lei da caridade.”
Então, para que possamos chegar à nossa velhice sem que sintamos o peso da necessidade, devemos pôr mãos à obra e aproveitar a nossa juventude, a nossa força, para trabalhar o suficiente, garantindo o nosso bem-estar presente e futuro. Depende sempre de nós impedir que a ociosidade inútil nos invada o Espírito. E sendo assim, mãos à obra!
Texto: Jani Martins. Foto: Ulisses Lopes

