Entrevista Os animais têm espírito?
Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 107 min
Irvénia Prada é professora catedrática e veterinária da Universidade de São Paulo (USP), Brasil, sendo uma autoridade mundi- al na comunidade científica sobre neuroanatomia animal. É também uma respeitada investigadora espírita particularmente no que toca à interacção cérebro-mente dos animais. Com vários livros e estudos científicos e espíritas publicados, eis esta entrevista exclusiva ao Jornal de Espiritismo, quando da sua estadia na cidade do Porto, há um ano.
Por que passou em Portugal? Estive em Portugal, especialmente na cidade do Porto, por vários motivos. Um deles foi o X Congresso Luso-Brasileiro de Anatomia, a ser aqui realizado de 30 de Setembro a 2 de Outubro. Outra razão liga-se ao meu grande e antigo desejo de conhecer esta cidade, cheia de belezas com as quais vim encantar-me, agora, pesso- almente. Por outro lado, assim que decidi vir ao Porto, comuniquei com Benvinda Serrano, que aqui reside, e com a qual já tinha contactado.
Agendou-me alguns compromissos de palestras e entrevistas, tanto no meio espírita, quanto em relação a entidades de defesa e de protecção dos animais, actividade em que me encontro também inserida. Na sequência, fui para o Congresso Mundial de Espiritismo, em Paris. Como se tornou espírita? Eu nasci em família espírita. A família de meu pai já era espírita desde o meu avô paterno, que conheceu a doutrina e a assumiu plenamente, a partir da cura de um processo obsessivo que havia aco- metido minha avó.
Assim, tive o privilégio de crescer vendo meu pai e outros famili- ares, desenvolvendo e vivenciando tarefas meritórias dentro e fora da Casa Espírita. Tenho-os como exemplos que procuro seguir. Embora já desencarnados, a pre- sença deles me é constante, não apenas pela extrema afeição que lhes dedico, como pelo meu sentimento de gratidão a eles, por terem me conduzido a esta doutrina de amor, de consolação e de libertação das consciências.
Por que tem esse afecto pelos animais? Sou veterinária e, no início de minha car- reira profissional, encontrava-me, como ainda hoje me vejo, totalmente encantada com as maravilhas da Anatomia, estudo a que me dediquei. Com o passar do tempo e embora não tivesse contato directo com os animais, no atendimento clínico e hospitalar, fui-me sensibilizando com tudo o que via, a respeito deles. As cenas de mat- adourolocal que visitava frequentemente para adquirir órgãos para as minhas aulas práticas, no ensino da Medicina Veterinária, a utilização indiscriminada de animais em pesquisas científicas, o abandono de cães e gatos atropelados, cancerosos, cegos e com toda sorte de mazelas, todos os dias, no pátio da faculdade, nos fins de tarde...
Também fora do ambiente académico, a ocorrência de espectáculos deprimentes, ditos “de diversão humana”, como “farra do boi”, touradas, rodeios, exibição de animais em circos, e outros. Tenho, sim, grande afecto por eles mas, penso que isso, apenas, não basta, pois muitas vezes subjugamos e submetemos à nossa vontade, aqueles que dizemos amar. É necessário o despertar de nossa con- sciência, para reconhecermos que eles têm direito natural à própria vida.
e à condição de não serem constrangidos a procedi- mentos e situações que lhes causem dor e sofrimento. Os animais todos, que tive e tenho, em casa, sempre engrandeceram nossas vidas com demonstrações inegáveis de leal- dade e companheirismo, de tal forma que aprendemos a valorizar a relação afectiva que se estabeleceu entre nós, estendendo para todos os animais, em geral, essa nossa postura. Como entende o Espiritismo, os animais?
Segundo meu entendimento, o Espiritismo considera os animais espíritos em evolução. Vejamos algumas das muitas citações, a respeito, constantes da literatura espírita: - LE (O Livro dos Espíritos). 597 – “Pois se os animais têm uma inteligência que lhes dá uma certa liberdade de acção, há neles um princípio independente da matéria?” (eu sublinhei) Resposta – “Sim, e que sobrevive ao corpo”; GE (A Génese).III.21 – “A verdadeira vida, do animal, tal como do homem, não se encontra no envoltório corporal...
ela está no princípio inteligente, que preexiste e que sobrevive ao corpo” (eu sublinhei); - LE, 612 – “...No momento em que o princípio inteligente atinge o grau ne- cessário para ser Espírito e entra no período de humanidade, não tem mais relação com o seu estado primitivo e não é mais a alma dos animais, como a árvore não é a semente”; - Alvorada do Reino, de Emmanuel – “O ani- mal caminha para a condição de homem, tanto quanto o homem caminha para a condição de anjo”.
Está claro que, ao inquirir os espíritos, se nos animais há um “princípio” independente da matéria, Kardec referia-se ao “princípio inteligente”, conforme lemos no LE.79 – “...os Espíritos são individualizações do princípio inteligente como os corpos são individual- izações do princípio material... (eu sublin- hei)”. Veja-se, também, o LE.27, a respeito do conceito de trindade universal (Deus, princípio inteligente e princípio material).
É possível relacionar animais e medi- unidade? Kardec já discutia esse assunto, à sua época, na Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, gerando matéria que se encontra publicada na Revista Espírita, de Setembro de 1861. Também no próprio O Livro dos Médiuns (LM), o capítulo XXII dedica-se ao assunto “Da Mediunidade dos Animais”. Constante do item 236 desse capítulo, temos o comentário de Erasto: “Certamente que os espíritos podem tornar-se visíveis e tangíveis para os animais...
Muito frequent- emente se vêem cavalos que se recusam a avançar ou recuar, ou que se empinam diante de um obstáculo imaginário. Pois bem! Podeis estar certos de que o obstá- culo imaginário é quase sempre um Espirito ou um grupo de Espíritos que se compra- zem em detê-los. Lembrai-vos da mula de Balaão que, vendo um anjo pela frente...É que, antes de se manifestar visivelmente a Balaão, o anjo quis tornar-se visível apenas para o animal” .
Assim, pelo relato de Erasto e ainda pela observação de muitas pes- soas quanto a comportamento sugestivo, de seus animais, podemos concluir que os animais têm, sim, a capacidade de perce- ber a presença de entidades espirituais, sentindo-lhes as vibrações. Cabe, a respeito, citação do relato bíblico da “Cura do Ende- moniado Geraseno” (Lc 8:20-34): “...Tendo os demônios saído do homem, entraram nos porcos e a manada precipitou-se despenhadeiro abaixo, dentro do lago, e se afogou”.
Entendemos, nesta passagem, que os chamados “demónios” (espíritos muito necessitados) não propriamente “entraram” nos porcos mas, para eles transferiram a sua necessidade de vampirização de fluido vital, de tal sorte que os animais “perceberam”, “sentiram” as características de suas pesadas vibrações e se descontrolaram. Nesse sen- tido e nessas condições, poderíamos nos atrever a dizer que os animais são médiuns, uma vez que no LM.
2.ª XIV. 159, lemos: “Todo aquele que sente a influência dos Espíritos, em qualquer grau de intensidade, é médium”. Na tradução de Herculano Pires, já não teríamos essa possibilidade, pois aí se lê: “Toda pessoa que sente...” Se por um lado, reconhecemos que deter- minados animais percebem a presença de espíritos e mesmo os vêem, de outra parte consideramos que existe grande restrição em se admitir que possam actuar como médiuns, nas chamadas manifestações de efeitos inteligentes ou intelectuais (como psicografia e psicofonia), em que o médium age como intermediário e, necessaria- mente, com o envolvimento de seu cére- bro, (LM, 225).
Alem do mais, como ressalta Erasto (LM.236), “necessitamos da união de fluidos similares, que não encontramos nos animais nem na matéria bruta”. Pessoas que abandonam animais de estimação: qual a óptica espírita? É atribuída a Chico Xavier a consideração de que “Somos livres para decidir sobre os nossos actos, muito embora nos tornemos escravos de suas consequências”. Assim, seremos inexoravelmente alcança- dos, mais cedo ou mais tarde, pelos efeitos de nossos actos, sejam de amor ou de desamor.
Em Missionários da Luz, cap. IV – “Vampir- ismo”, observamos como André Luiz se surpreende quanto à infeliz condição de “ muita gente na terra que vive à mercê de vampiros invisíveis. E a proteção das esferas mais altas? E o amparo das entidades angé- licas, a amorosa defesa de nossos superi- ores?”. O mentor Alexandre esclarece: “Em todos os sectores da Criação, Deus, nosso Pai, colocou os superiores e inferiores para o trabalho de evolução, através da colabo- ração e do amor...
no capítulo da indiferença para com a sorte dos animais ...nenhum de nós pode atirar a primeira pedra. Os seres inferiores e necessitados do planeta não nos encaram como superiores generosos e inteligentes mas, como verdugos cruéis... A missão do superior é a de amparar o inferior e educá-lo... Sem amor para com os nossos inferiores, não podemos aguardar a protecção dos superiores”. Portanto, percebe-se ser grande o nosso compromisso para com os animais que conosco convivem.
Abandonar um animal “de estimação” (imagine-se o que fazem com os demais...) à sua própria sorte, com certeza também é abdicar de condições vi- bratórias compatíveis com o merecimento da tutela dos espíritos de luz (“...a cada um, segundo as suas obras.” - Ap.22:12). Como podemos entender a participação de animais em actividades de diversão do ser humano, como a caça e outras?
