Entrevista Ao longo da história do homem, particular- mente a partir d
Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 116 min
Entrevista Ao longo da história do homem, particular- mente a partir do Horizonte Agrícola (vide “O Espírito e o Tempo”, de Herculano Pires), os animais sempre estiveram ao seu lado, participando de muitas de suas actividades. Ainda hoje vemos, por exemplo, nas lidas do campo, cavalos, bois e cães-pastores em tarefas de trabalho, na companhia do ser humano. Quer no trabalho, quer nos momentos de diversão e lazer, é desejável que a interacção entre homens e animais, seja harmónica, respeitando-se as carac- terísticas das diferentes espécies animais e seus limites de bem-estar.
Entretanto, vemos com pesar que a grande maioria das situações arquitectadas com vistas à diversão humana, nelas incluindo-se diversas modalidades de desporto, penaliza os animais, submetendo-os a toda sorte de desconforto, privações, maus tratos e mesmo crueldade. Lemos no LE. 734 – “No seu estado actual, o homem tem direito ilimitado de destruição sobre os animais?” R – “Esse direito é regulado pela neces- sidade de prover à sua alimentação e à sua segurança; o abuso jamais foi um direito”.
Na questão seguinte, LE. 735, temos mais esclarecimentos a respeito: “Que pensar da destruição que ultrapassa os limites das necessidades e da segurança; da caça, por exemplo, quando não tem por objectivo senão o prazer de destruir, sem utilidade?” R – “Predominância da bestialidade sobre a natureza espiritual. Toda destruição que ultrapassa os limites da necessidade é uma violação da lei de Deus...” Portanto, é de se lamentar a vigência de tristes espetáculos como a “Farra do Boi”, no sul do Brasil.
Nessa actividade, aí implantada por açorianos e defendida na região como prática de “cultura e tradição”, o animal é exposto, nas praças e ruas, à insanidade dos que têm a “coragem” de furar-lhe os olhos, de lhe espetar farpas, de quebrar-lhe os os- sos e de fazê-lo sangrar em exaustão, até à morte. Que falar também da caça à raposa, das touradas, garraiadas, rodeios, dos ani- mais amontoados em circos e em feiras e, ainda, das lutas de galos e de cães?
Penso que a nossa inteligência, tão fér- til para a conquista de tantos avanços tecnológicos e científicos, teria todas as condições, se assim o desejasse, de promover atividades de trabalho ou de diversão, com a participação de animais, respeitando-lhes o direito à vida e a sua ca- pacidade de sofrimento. Mas, isso depende, também, do nosso desenvolvimento moral, que ainda deixa muito a desejar... E o conceito de evolução das espécies, o Espiritismo acrescenta-lhe algo?
É muito interessante a observação do facto de que Darwin (1809-1882) e Kardec (1804- 1869) foram contemporâneos. Apesar das polémicas repercussões sociais e religiosas que a teoria darwiniana levantou, na época, com a publicação de “A Origem das Espé- cies”(1859), Kardec entendeu a validade da proposta, pois em GE.XI.15 (1868) considera, com o título “Hipótese sobre a Origem do Corpo Humano”, a possibilidade de que “...
Corpos de macacos teriam sido muito adequados a servir de vestimentas aos primeiros Espíritos humanos, neces- sariamente pouco avançados, que vieram encarnar-se na terra...”. Outras citações sustentam a consideração dessa “hipótese”: GE.XI.16 – “Como não há transições bruscas na natureza, é provável que os primeiros homens que apareceram sobre a Terra pouco diferissem do macaco, em sua forma exterior, e sem dúvida, também quanto à sua inteligência...
” ; LE. 849 – “Qual é, no homem em estado selvagem (eu entendo que Kardec referia-se ao homem “primi- tivo”), a faculdade dominante: o instinto ou o livre-arbítrio?” Resposta: “O instinto...”. A ciência, actualmente, confirma ple- namente a validade dessa hipótese. No terreno da Biologia e da Antropologia, con- sidera-se que as espécies conhecidas, do género humano, vieram do Australopithe- cus (austral = sul; pithecus = macaco), es- pécie de macaco, já de postura erecta, que teria vivido no Sul da África, há aproxima- damente 3,5 milhões de anos.
No campo da Genética, estudos do genoma humano e de diferentes espécies, tem mostrado que a diferença de nossas características genéticas, em relação ao chimpanzé, é de menos de 1%. Antecipando, em mais de 50 anos, essa evidência, no prefácio da obra de André Luiz “Os Mensageiros”(1944), Emmanuel nos deixa a seguinte citação: “No chimpanzé, a lei de herança continua com ligeiras modificações”. Ainda, na área da Etologia (análises comportamentais) e da Neurociência, pesquisas realizadas nas últimas décadas, tem revelado impression- antes dados a respeito da inteligência e da complexidade de organização do cérebro, de primatas não humanos, derrubando a barreira convencional com que, na visão antropocêntrica, sempre se pretendeu considerar o homem separadamente e com expressivo destaque.
Portanto, em termos de evolução orgânica, o Espiritismo (GE.X. “Génese Orgânica) caminhou com a Ciência e mantém postura coerente com os resultados das mais recen- tes pesquisas. Entretanto, nossa doutrina acrescentou algo de extraordinário a essa visão, pois enquanto a Ciência conven- cional se limitou à análise da evolução biológica, o Espiritismo descortinou a reali- dade da evolução espiritual (GE. XI.” Génese Espiritual”).
Veja-se, a respeito, “Evolução em dois mundos”, de André Luiz e, entre as obras básicas da codificação, entre muitas citações: - LE. 606 a – “A inteligência do homem e dos animais emanam de um princípio único? Resposta – Sem dúvida nenhuma mas, no homem, ela passou por uma elaboração que a eleva acima dos brutos”; - LE.607 – “Onde cumpre o Espírito essa primeira fase? Resposta – Numa série de existências que precedem o período que chamais de humanidade”; - LE.
607 a – “Parece, assim, que a alma teria sido o princípio inteligente dos seres inferi- ores da criação? Resposta - ...É nesses seres, que estais longe de conhecer inteiramente, que o princípio inteligente se elabora e en- saia para a vida...É um trabalho preparatório, como o da germinação, em seguida ao qual o princípio inteligente sofre uma transfor- mação e se torna espírito”; -LE. 601 – “Os animais estão sujeitos, como o homem, a uma lei progressiva?
Resposta – Sim, e daí vem que nos mundos superi- ores, onde os homens são igualmente mais adiantados, os animais tambémosão...” Em “Alvorada do Reino”, Emmanuel sintetiza a ideia: “O animal caminha para a condição de homem, tanto quanto o homem caminha para a condição de anjo”. O mesmo conceito, ele anuncia em “O Consolador”: “Considerando que eles (os animais) igualmente possuem um futuro de profícuas realizações, através de nu- merosas experiências, chegarão, um dia, ao chamado reino hominal como, por nossa vez, alcançaremos, no escoar dos milénios, a situação da angelitude....
” Os animais têm linguagem? Sim, os animais possuem meios de comu- nicação de informações, entre os membros de sua comunidade. Hoje sabe-se que até insectos, como abelhas e formigas, não apenas vivem com elaborada organização social e divisão de trabalho, como também exibem expressivo repertório de sinais, com os quais se comunicam, uns com os outros. A literatura é farta sobre pesquisas recentes, a respeito do assunto.
No Brasil, na Universi- dade de São Paulo, desenvolveu-se estudo de campo sobre a linguagem dos macacos muriquis (Revista FAPESP, no.85, mar- ço/2003), com resultados surpreendentes. É notável a capacidade dos animais, até de aprenderem novas formas de linguagem. Refiro-me ao trabalho do biólogo america- no Roger Fouts, relatado no livro “O Parente mais próximo”. Ele ensinou a chimpanzés a linguagem gestual, humana, utilizada por deficientes auditivos.
Os animais não ap- enas aprenderam a utilizar os mais de 150 sinais que compõem essa linguagem, como através dela puderam expor conteúdos de seu psiquismo que se julgava, antes, serem apanágio de seres humanos. Concluiu o autor que está criada uma nova geração de chimpanzés, com uma nova forma de comunicação. E têm inteligência? Sim, os animais têm inteligência. A antiga e equivocada noção de que os animais agem apenas por instinto, hoje não encontra a menor sustentação, nem na ciência académica, nem na literatura espírita.
Na concepção cartesiana, do séc.
