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Ge. Iii.12

Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 125 min

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Entrevista bustível que possibilitava o funcionamento automático dessas máquinas. Vemos, com surpresa, que Kardec já fazia referência à existência de instinto e de inteligência, nos animais, o que podemos encontrar na GE. III.12 (1ª. edição publicada em 1868), em que lemos: “O animal carni- ceiro é impelido pelo instinto, a nutrir-se de carne; porém, as precauções que ele toma, as quais variam segundo as circunstân- cias, são actos de inteligência” .

No LE.73, encontramos pergunta que Kardec faz aos espíritos, sobre o conceito dessas duas faculdades: “O instinto é independente da inteligência?”. R – “Precisamente não, porque é uma espécie de inteligência... Hoje temos a noção de que o chamado instinto corresponde a um dos comparti- mentos da memória do indivíduo, em que se acham arquivadas informações sobre o que ele já aprendeu, em sua jornada evolu- tiva, para sobreviver e perpetuar a espécie, sendo espontâneas as suas manifestações.

A literatura científica encontra-se repleta de pesquisas comportamentais e em neuro- ciência, demonstrativas da inteligência de aves, cães, chimpanzés, golfinhos e muitos outros animais. Portanto, eles têm e sempre tiveram inteligência! Nós é que não sabía- mos (ou não queríamos!) identificá-la. Podemos aprender com os animais? Quem tem animais em casa e com eles convive em harmonia, em interação afec- tiva, sabe que eles são exemplos incondi- cionais de lealdade e de companheirismo.

Lembro-me da reflexão do grande escritor Guimarães Rosa: “Se os animais só inspi- ram ternura, o que houve, então, com os homens?”. Acho que se esqueceram das coisas simples da vida, como ter um amigo e dedicar-lhe afeição. No livro “Memórias do padre Germano”, de Amália Domingo Soler, Ed. FEB, acham-se registadas palavras do sacerdote em relação à lealdade de Sultão, seu cão-compan- heiro: “Ah! Sultão! Sultão! Que maravilhosa inteligência possuías.

Quanta dedicação te merecia a minha pessoa! Perdi-te e perdi em ti o meu melhor amigo... Agora sei que estou só...”. Em casa, nossos queridos cães Teca, Nãna, Timi e Tábata, amigos que já desencar- naram, passaram por períodos muito difíceis de doenças, cegueira e velhice e em tudo nos ensinaram, com sua postura de recolhimento e aceitação. Na literatura académica, o neurocien- tista Paul Mac Lean (“O Cérebro Trino em Evolução”, 1968) faz importante análise a re- speito da composição do cérebro humano, em três blocos herdados da trajectória evolutiva dos animais, ou seja, as formações Reptiliana, Paleomamífera e Neomamífera, o que aliás se aproxima muito do relatado por André Luiz em “No Mundo Maior”, cap.

4 – Estudando o Cérebro (1ª. edição em 1947). Nessa publicação, Mac Lean comenta que a partir do cérebro reptiliano, instalam- se comportamentos importantes, que de- pois irão fazer parte do repertório do nosso próprio comportamento, como a invenção do “ninho” e o “cuidar” dos filhotes. O “ninho” representa, para o autor, os primórdios do que virá a ser o “nosso lar” e, o “cuidar de outro ser”, os primórdios do “altruísmo”.

Assim, entendemos que o aprendizado do espírito se faz em longa jornada evolutiva e, embora em patamares diferentes, todos ensinamos uns aos outros e aprendemos uns com os outros. E o sofrimento dos animais? Fico intrigada com a visão simplista, que por vezes observo, mesmo dentro do meio espírita, de um assunto tão complexo, que é o do sofrimento e suas causas. Quase sempre caracterizamos as mazelas huma- nas como “resgate” de coisas do passado.

Como veterinária, tenho constatado que, como os seres humanos, os animais tem cancro, epilepsia, tuberculose, fracturas, dis- crasias sanguíneas, parto distócico, enfim, toda sorte de deformidades e de doenças que lhes causam dor física. Também são sujeitos a maus tratos, crueldade, angústias, ansiedades e situações desencadeadoras de stress, que lhes causam sofrimento men- tal ou psíquico. Assim, considerando que, “para eles (os animais) não existe expiação” (LE.

602), fico com a forte impressão de que deve haver, para todos os seres vivos, uma outra causa, fundamental, de ocorrência de dor/sofrimento, que não o “resgate de débitos do passado”. Não desconsidero a importância dessa razão (o resgate) de sofri- mento para nós, seres humanos mas, acho que ela não é a única. Em “O Mistério do Ser Ante a Dor e a Morte”, Herculano Pires, respondendo à pergunta “Por que sofrem, os animais?

”, regista: “Sofrem porque evoluem e porque toda evolução, consciente ou inconsciente, é sempre acompanhada das dores do parto que anunciam as transacções evolutivas para planos superiores... A dor apresenta- se em todo o cosmos como decorrência natural dos processos evolutivos. É uma consequência dos esforços despendidos pelas coisas e os seres, em luta com os obs- táculos internos e externos com que todos nós e todas as coisas e seres se deparam nos caminhos da evolução universal...

Sofre a pedra, sofre o vegetal, sofre o animal e so- fre o homem em cada curva implacável do desenvolvimento de suas potencialidades”. Tenho ainda, a respeito, linda página de Em- manuel, psicografada por Chico Xavier, em 14/12/69, intitulada “Animais e Sofrimento”. Aí se lê que “Ninguém sofre, de um modo ou de outro, tão somente para resgatar o preço de alguma coisa. Sofre-se também para angariar os recursos preciosos para obtê-la...

Que mal terá praticado o aprendiz a fim de submeter-se aos constrangimen- tos da escola?...O animal, igualmente, para atingir a auréola da razão, deve conhecer benemérita e comprida fieira de experiên- cias que terminarão por integrá-lo na posse definitiva do raciocínio... Compreendamos, desse modo, que o sofrimento é ingredi- ente inalienável no prato do progresso”. Portanto, vejo o sofrimento que natural- mente acomete os animais, na forma de doenças, deformidades congénitas e outras, como ocorrência compatível com as carac- terísticas físicas e vibratórias da matéria de que somos constituídos.

Todos nós (os seres vivos deste planeta) estamos em constante aprendizado e, à medida que galgamos progressivamente mais altos patamares evolutivos, vamos adquirindo condições de substituir a vivência da dor, por lição já superada. É a escola da vida. Que mensagem final? Em “Missionários da Luz”, cap. 4, de André Luiz, o mentor Alexandre, recomendando que busquemos recursos nos laticínios em substituição ao uso da carne, em nossa alimentação, refere que “...

tempos virão, para a humanidade terrestre, em que o estábulo, como o lar, também será sagrado”. Confesso que, apesar de minhas reflexões, tive de início dificuldade em entender o significado desse comentário de Alexandre. Entretanto, recebi de um espírito zoófilo, a considera- ção de que Jesus, ao nascer em um es- tábulo, em meio aos animais, exemplificou a condição de harmonia em que podemos e devemos viver com a natureza.

Emmanuel, em “Emmanuel”, cap. XVII, “So- bre os Animais”, nos recomenda: “...Recebei como obrigação sagrada, o dever de am- parar os animais na escala progressiva de suas posições variadas no planeta. Estendei sobre eles a vossa concepção de solidar- iedade e o vosso coração compreenderá mais profundamente os grandes segredos da evolução, entendendo os maravilhosos e doces mistérios da vida”. Que Jesus nos abençoe e os espíritos amigos nos inspirem na realização de nossos bons propósitos.

Obrigada pela oportunidade! Muita paz a todos!