Opinião O sono dourado da Natureza Cada estação do ano tem as suas esp
Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 134 min
Opinião O sono dourado da Natureza Cada estação do ano tem as suas especificidades. E é interessante como a Natureza as conhece e compreende a linguagem de cada uma delas. Tal como a Natureza, a vida humana também tem as suas “estações”, devendo ser compreendidas e encaradas a partir dos seus contrastes, para que a esperança desponte em primaveras de evolução. Distraidamente, ao “navegar” na Internet, há dias li um poema de autor desconhecido.
Trata-se de «O meu (eterno) poema de Outono». Não resisto ao gosto de transcrev- er neste jornal um pequeno extracto: «Ao fim da tarde, ouvi o Outono chegar. Vinha disfarçado de vento quente, mas arrastava folhas secas e eu soube que tinha chegado de mansinho para não assustar ninguém. Trazia memórias de camisolas grossas, de praias desertas, de céus cinzentos, de marés vivas …». A “embriaguez” das palavras tão bem articu- ladas trouxe à minha mente enumeráveis encantos da nova estação que agora nos visita.
E à retina vieram imagens que se cruzam entre o deleite e o lamento pela insensatez da criatura humana! O surpreendente filão de sadias realidades que rememorei, reforçou a certeza de que a tranquilidade, o sossego e a paz são conquistas da almaencantadoras pre- disposições para estados de percepção profundae que as irrevogáveis Leis de Deus pulsam em toda a Natureza, da qual fazemos parte: belas árvores e arbustos com folhas moribundas, em tons vermelho, dourado e castanho que, cumprida a sina, se desprendem da mãe que lhes deu a vida na Primavera, deixando-lhe os braços nus … Nozes e avelãs amadurecidas … Cas- tanhas assadas, em magustos saturados de alegria … Andorinhas e patos que partem para terras mais quentes ...
Formigas, ursos e esquilos que guardam nas suas tocas os alimentos necessários para o Inverno … Frutas e hortaliças saborosas e tenras … Aromas e sabores, autêntica festa para o nosso paladar … Canas do milho, cortadas e transportadas para as eiras em carros de bois para a desfolhada que, no Alto Minho, termina com uma festa ao som de concer- tinas e de um baile que dura até altas horas da noite … Madressilvas que ainda expõem as suas flores … Apanha das uvas nas alde- ias de Portugal em dias de céu azul intenso e brisa leve, em que o “irmão” Sol ostenta um brilho especial: é dourado.
E, por entre árvores despidas, alimenta os cogumelos que fazem as delícias de quem os procura … Caçadores “desmiolados” que apontam armas e disparam em todas as direcções, desprezando o ciclo de vida a que todos os seres animados se sujeitam, e até a escassez de algumas espécies !!! Outono Estação que traz a vitalidade do mundo da privação do vigor. Da árvore que amarela e que perde a força da matéria … Pausa necessária da terra fecundada.
Mas, Outono não é só nostálgica doçura em sinfonias de vento e folhas que culminam em grandes amontoados. Outono implora introspecção e reflexão sobre o nosso viver, sempre em transformação e numa veloci- dade alucinante. Exige que cada um pense na realidade que o cerca e se interrogue do porquê cíclico da queda das folhas, provavelmente para esculpir no tempo a brevidade das nossas vidas, e saiba que to- dos os seres integram os retratos e cenários da Natureza.
Os ventos das grandes provações, sob a forma de enfermidades, lutos, perdas e des- encantos e as folhas mortiças, abundantes de dor, derrotas e sofrimento conduzirão o homem, com delicadeza, ao encontro final com as estações da vida – momentos necessários da caminhada – e, na harmonia dos seus contrastes, transmutar a tristeza em alegria. Efectivamente, Outono é o momento em que a vida se renova. Importa, apenas, que cada um entenda o significado da sua vida e, seja qual for a estação por que esteja a passar e os con- tornos emocionais que apadrinhe, perceba que, como folhas nascidas na Primavera, cairá das árvores da sua ilusão, proclaman- do o final de uma breve existência!
Conselhos valiosos O poema «Urgentemente», de Eugénio de Andrade, recentemente desencarnado, é testemunho de inovadoras formas de pensamento, num alerta à insensatez em que, tantas vezes, a humanidade se permite mergulhar. Segundo aquele autor, é urgente destruir certas palavras, como ódio, solidão e crueldade; é fundamental abandonar os lamentos e, em seu lugar, “cultivar” a paz. Num criterioso despertar, face às contradições a que o ser humano se expõe na corrida ao “tudo ter”, aquele grande escritor sugere ainda que: «É ur- gente inventar alegria,/Multiplicar os beijos, as searas,/É urgente descobrir rosas e rios/E manhãs claras.
…» para que não se perca em falsos entusiasmos que, no “ocaso da vida”, ou no face a face com a sua própria consciência, se transformarão em torrentes de arrependimento. Imagino que não há pessoa alguma que não aprecie a Primavera, que faz explodir cores, perfumes e flores. Contudo, até à chegada de nova Primavera, é imprescind- ível saber viver ao longo das estações do Verão, Outono e Inverno. É, pois, de valiosa importância renovar e buscar a evolução em cada jornada.
E, no tempo certo, o sol voltará a brilhar no ciclo de vida e de morte que se repete em nos- sas inúmeras encarnações. Texto: Eugénia Rodrigues. www.adeportugal.
