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Biografia Maria Veleda: já ouviu falar?

Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 145 min

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O presente artigo consta do site da Associação de Professores de História (http://www.aph.pt). Gentilmente, a autora (1) autorizou-nos a sua publicação no «Jornal de Espiritismo», facto que nos apraz registar e que muito agradecemos. A forma como é apresen- tada a biografia de Maria Veleda, citando os aspectos mais relevantes da sua vida de profes- sora, feminista, republicana, livre-pensadora e espiritualista, dispensa qualquer prefácio.

Por isso mesmo, aqui vos deixamos este interessante documento sobre uma mulher que, apesar de inúmeras ocupações, ainda teve tempo para estudar e aprofundar o Espiritismo, do qual se tornou uma defen- sora e adepta. «Maria Veleda (2) foi uma mulher pioneira na luta pela educação das crianças e os direitos das mulheres e na propaganda dos ideais republicanos, destacando-se como uma das mais importantes dirigentes do primeiro movimento feminista português.

Tendo-se estreado na imprensa algarvia e alentejana com a publicação de poesia, contos e novelas, dedicou-se depois aos temas feministas e educativos. Na linha da escola moderna de Francisco Ferrer, defen- dia a educação laica e integral, em que se aliassem a teoria e a prática, a liberdade, a criatividade, o espírito crítico e os valores éticos e cívicos. Num tempo em que a liter- atura infantil quase não existia em Portugal, publicou, em 1902, uma colecção de con- tos para crianças, intitulada «Cor-de-Rosa» e o opúsculo “Emancipação Feminina”.

Em 1909, por sua iniciativa, a «Liga Repub- licana das Mulheres Portuguesas» fundou a «Obra Maternal» para acolher e educar crianças abandonadas ou em perigo moral, instituição que se manterá até 1916, graças à solidariedade da sociedade civil e às receitas obtidas em saraus teatrais, cujas peças dramáticas e cómicas Maria Veleda também escrevia e levava à cena. Em 1912, o governo nomeou-a Delegada de Vigilân- cia da Tutoria Central da Infância de Lisboa, instituição destinada a recolher as crianças desamparadas, pedintes ou delinquentes, cargo que ocupou até 1941.

Consciente da situação de desigualdade em que as mulheres viviam, numa so- ciedade conservadora e pouco aberta à mudança, iniciou, nos primeiros anos do século XX, um dos maiores combates da sua vida: defender a igualdade de direitos jurídicos, cívicos e políticos entre os sexos. Numa época em que as mulheres estavam, por imperativos económicos, sociais e cul- turais, confinadas à esfera doméstica, criou cursos nocturnos no Centro Republicano Afonso Costa, onde era professora do en- sino primário, e nos Centros Republicanos António José de Almeida e Boto Machado, para as ensinar a ler e a escrever e as educar civicamente, preparando-as para o exercício de uma profissãoea participação na vida política.

Entre 1910 e 1915, como dirigente da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas e das revistas A Mulher e a CriançaeA Madrugada, empenhou-se na luta pelo sufrágio feminino, escrevendo, discursando, fazendo petições e chefiando delegações e representações aos órgãos de sobera- nia. Combateu a prostituição, sobretudo, a de menores, e o direito de fiança por abuso sexual de crianças. Fundou o “Grupo das Treze” para combater a superstição, o obscurantismo e o fanatismo religioso que afectava sobretudo as mulheres e as impedia de se libertarem dos preconceitos sociais e da influência clerical que as man- tinham submetidas aos dogmas da Igreja e à tutela masculina.

Convertida ao livre-pensamento e iniciada na Maçonaria, em 1907, aderiu também aos ideais da República e tornou-se oradora dos Centros Republicanos, escolas liberais, as- sociações operárias e intelectuais, grémios, círios civis e comícios do Partido Republi- cano, da Junta Federal do Livre-Pensam- ento e da Associação Promotora do Registo Civil. Alguns destes discursos e conferências foram publicados no livro A Conquista, prefaciado por António José de Almeida.

O combate à monarquia e ao clericalismo valeu-lhe a condenação por abuso de liber- dade de imprensa, em 1909, além das con- stantes perseguições e ameaças de morte, movidas por alguns sectores católicos e monárquicos mais conservadores. Depois da implantação da República, por ocasião das incursões monárquicas de Paiva Couceiro, integrou o Grupo Pró-Pátria e percorreu o país em missão de propa- ganda, discursando em defesa do regime ameaçado.

Em 1915, em consonância com o Partido Democrático de Afonso Costa, juntou-se aos conspiradores na preparação do golpe revolucionário que destituiu o governo ditatorial do General Pimenta de Castro e, a seguir, envolveu-se na propa- ganda a favor da entrada de Portugal na 1ª. Guerra Mundial. Nesse mesmo ano, saiu da «Liga», filiou-se no Partido Democrático e fundou a «Asso- ciação Feminina de Propaganda Democráti- ca», cuja acção terminou em 1916, em nome da “União Sagrada” de todos os portugueses, na defesa dos interesses da Pátria ameaçada.

Desiludida com a actuação dos gover- nos republicanos que não cumpriram as promessas de conceder o voto às mulheres nem souberam orientar a República de modo a estabelecer as verdadeiras Igual- dade, Liberdade e Fraternidade e con- struir uma sociedade mais justa e melhor, abandonou o activismo político e feminista em 1921, após os acontecimentos da “noite sangrenta”. Fez-se jornalista do Século e de A Pátria de Luanda, onde continuou a de- fender os ideais feministas e republicanos que sempre a nortearam.

Atraída pelos caminhos da espiritualidade e do esoterismo e preocupada com o sentido da existência humana, aderiu ao espiritismo filosófico, científico e experimental. Fundou o «Grupo Espiritualista Luz e Amor» e, em 1925, dinamizou a organização do I Con- gresso Espírita Português e participou na criação da Federação Espírita Portuguesa. Fundou as Revistas A Asa, O Futuro e A Vanguarda Espírita e colaborou na imprensa espiritualista de todo o país, publicando poesia e artigos de pendor reflexivo e me- morialista.

Em 1950, publicou as «Memórias de Maria Veleda» no jornal República. Maria Veleda dedicou a vida aos ideais de justiça, liberdade, igualdade e democracia e empenhou-se na construção de uma sociedade melhor, onde todos pudessem ser felizes. Semeou ideias, iniciou processos de mudança nas práticas sociais e lançou o debate sobre os lugares, os papéis e os po- deres de mulheres e homens num mundo novo.» (1) Natividade Monteiro é professora de História no Instituto Militar dos Pupilos do Exército e membro dos órgãos sociais da APH.

Investigadora do Projecto “Biografias de Mulheres. Século XX”, do CEMRI, Uni- versidade Aberta, e do Projecto “Dicionário no Feminino”, Faces de Eva-Estudos sobre a Mulher, Universidade Nova de Lisboa, ambos financiados pela Fundação para a Ciência e Tecnologia. (2) Maria Veleda (1871-1955). Professora, feminista, republicana, livre-pensadora e es- piritualista. Fonte deste texto: http://www. aph.pt/uf/images/0410_maria_veleda.

jpg Por Sílvia Antunes A ADEP DESEJA-LHE UMA FELIZ ÉPOCA NATALÍCIA CHEIA DE FRATERNIDADE E PAZ www.adeportugal.