Opinião Pobres e ricos: a fractura A cada quatro segundos morre de fom
Jornal de Espiritismo nº 13 · Novembro 2005Página 167 min
Opinião Pobres e ricos: a fractura A cada quatro segundos morre de fome uma pessoa. A dimensão da pobreza toma proporções inimagináveis e faz dela um fenómeno social incontornável e impossível de esquecer ou de nos tornarmos indiferentes. A nova sociedade do século XXI será tanto mais humana e mais justa quanto mais informados, participativos e cooperantes formos. Actualmente 20% da população mundial vive com menos de oitenta cêntimos por dia.
A fome, a sede, as doenças e, para um grande número, as guerras são parte do quotidiano destes “condenados”. Apesar da boa vontade da comunidade internacional a pobreza ainda terá muito tempo de vida. Numa cimeira das Nações Unidas realizada em 1995, na cidade dinamarquesa de Copenhaga, a comunidade internacional prometeu “erradicar a pobreza no mundo”. Dez anos estão passados e, no mundo, uma em cada cinco pessoas ainda vive no limiar da pobreza.
Este problema actualíssimo foi um dos pontos da ordem de trabalhos da última reunião do G8 do passado mês de Julho, em Gleneagles (Escócia), porém muito pouco ou nada continua a ser feito. Face a este fracasso constante, as ONG as- sim como outras associações de ajuda e de apoio ao desenvolvimento trouxeram para o debate público um assunto até então quase restrito aos políticos e apontam o dedo, quer às instituições financeiras mun- diais (FMI e Banco Mundial), quer à global- ização, ao mesmo tempo que a atitude dos Estados ricos é posta em causa.
A medida da pobreza O ano de 2005 foi baptizado como o “Ano de África” por ser aquele em que a pobreza continua a ser a realidade mais vulgar. A de- terminação do limiar de pobreza é relativa, existindo mesmo duas formas concorrentes de cálculo. O limiar de pobreza absoluta define-se a partir do custo de uma cesta de produtos de consumo básicos e o limiar de pobreza relativa é fixado em função da média dos rendimentos da população.
Para a União Europeia o limiar de pobreza atinge-se quando “os recursos dos indivídu- os são tão baixos que estes ficam excluídos dos modos de vida mínimos”. Vulgarmente, utiliza-se o cálculo proposto pelo Banco Mundial: um dólar por dia e por pessoa. As Nações Unidas, através do programa para o desenvolvimento, utilizam um instru- mento específico de avaliação chamado Índice de Desenvolvimento Humano com três indicadores: esperança média de vida, taxa de alfabetização e de socializaçãoeo rendimento por habitante.
Diferentes palavras, uma só realidade A expressão “terceiro-mundo” – usada durante algum tempo para identificar os países mais pobres do mundo – foi criada por um economista, em 1952, e impôs-se na década de 60 do século passado para definir os países recém-descolonizados que recusavam o domínio dos dois blocos (ocidental e soviético). Estes países que- riam-se “não-alinhados” ou “neutrais” e eram liderados pelo indiano Nehru, pelo egípcio Nasser e pelo indonésio Sukarno.
Porém este conceito de um conjunto político e economicamente coerente não resistiu à realidade histórica. Com os choques petrolíferos dos anos 1970-1980 e o aparecimento de novos Estados criaram- se novas designações: “países do Sul”, “países intermédios”, “dragões do Sudeste Asiático”, “países menos avançados”, o que gerou uma certa confusão. Esta última expressão é a que se deve utilizar, quando se faz a localização das zonas mais atingidas pela pobreza.
Hoje fazem parte dela 49 países: Afeganistão, Angola, Bangladesh, Benin, Birmânia, Burkina Faso, Burundi, Butão, Cabo-Verde, Cambodja, Chad, Comores, República Centro Africana, República Democrática do Congo, Djibouti, Eritreia, Etiópia, Gâmbia, Guiné-Bissau, Guiné-Cona- cri, Guiné-Equatorial, Haiti,Iémen, Kiribati, Laos, Lesoto, Libéria, Madagascar, Maldivas, Mali, Malawi, Mauritânia., Moçambique, Nepal, Nigéria, Ruanda, Uganda, Salomão, Samoa, São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Togo, Tuva- lu, Vanuatu e Zâmbia.
Nos últimos 25 anos, um só país conseguiu deixar este grupo dos países menos avançados: o Botswana em 1984. Fome: uma arma política Os meios de comunicação social tocam, com regularidade, a rebate a propósito das fomes e com razão. O que nem sem- pre divulgam é que as suas causas não são exclusivamente naturais. “O Mundo, afirma a Acção Contra a Fome – ONG –, possui tempo suficiente para prevenir as penúrias alimentares”.
De facto, os fenóme- nos climatéricos que provocam as secas são frequentemente conhecidos com a antecedência necessária pelos serviços de meteorologia. As fomes transformaram-se num instrumento ao serviço da guerra ou da diplomacia. As organizações humani- tárias denunciam o facto de diversas crises serem deliberadamente provocadas para atraírem o socorro humanitário, verdadeiro maná, que é desviado em benefício dos movimentos armados.
As crises de sub- sistência podem, assim, ser utilizadas para conseguirem uma legitimidade, subor- dinando o acesso às vítimas em troca do reconhecimento internacional. Denunciam-se igualmente os governos que deixam morrer à fome toda a população, a fim de melhor suscitar a compaixão interna- cional, quando tinham nas mãos os meios financeiros e materiais para socorrer os esfomeados, tal como aconteceu no Iraque com Saddam Hussein e actualmente na Coreia do Norte.
Outros negam a evidência da fome para se livrarem de minorias étni- cas, políticas ou religiosas (Sudão), para se chamar a atenção internacional sobre um regime que não respeita os direitos huma- nos ou uma gestão económica desastrosa; cite-se o caso da China e do Chad até 1996. Outra situação a nomear é a chamada “fome silenciosa”, na qual, apesar dos povos não sofrerem propriamente de fome, vivem mal nutridos, em consequência de uma alimentação insuficiente e de má qualidade.
Limites da cooperação Se os países ricos ajudam financeiramente os países menos desfavorecidos, alguns vêem esse suporte mais como uma con- fissão de culpa do que como uma lição humanitária. Na verdade, os países mais ricos são em parte responsáveis pela situa- ção: as políticas, ditas de “ajuste estrutural” iniciadas, sob a sua pressão, pelas grandes instituições financeiras, são um fracasso na medida em que acabam por aumentar ainda mais as dívidas que, obviamente os países mais pobres, não serão capazes de pagar.
O esforço consentido pelos países ricos a título de ajuda pública ao desenvolvim- ento tem sido constante desde o final da 2.ª Guerra Mundial e atingiu um nível sem precedentes em 2004 com 78,6 biliões de dólares, mas, a bem da verdade, deve dizer- se que este aumento se deve à intervenção militar no Afeganistão e no Iraque. Constata-se que, na Ásia e em África, a maior parte da ajuda pública ao desen- volvimento não chega aos seus destina- tários.
Por exemplo, as fortunas pessoais de muitos presidentes (Zaire ou Angola) são superiores às dívidas externas dos países que dirigem. Outra forma de auxílio seria permitir aos países mais pobres o acesso directo aos mercados dos países industrializados, mas isso implicaria o confronto com os protec- cionismos agrícolas dos países ricos. O problema da fome e da subnutrição atinge também as nações desenvolvidas e é o responsável pela existência de “ilhas de fome” nos países da “abundância”.
A solução parece fácil: suprimir a dívida, criar igualdade de condições ao acesso e à dis- tribuição do trabalho e da riqueza, porém os ricos fincam o pé. E nós, o que podemos fazer? A solidariedade O espiritismo é sensível a esta catástrofe social. Os Espíritos relembram a moral de Jesus, e de muitos outros, mostrando, na prática, as suas implicações. Alerta para a solidariedade e para a caridade, para a necessidade de fazer o bem.
Contribui para o progresso e para a construção de uma sociedade mais justa na qual a vida é en- carada como excelente escola para os que querem crescer. Cada vez se reivindica e se fala mais em cidadania, talvez porque a democracia – o poder político do povo – atravessa, ela própria, momentos difíceis e não tem sabido dar resposta aos problemas de carácter social. O apelo ao cidadão para que tome sobre si as responsabilidades e se solidarize com o que acontece aos outros ao invés de virar as costas a pretexto de não ter nada a ver com o assunto, aumenta na proporção da tomada de consciência da desumanidade exercida sobre os mais fracos e desfavorecidos.
A moral espírita renova o segundo mandamento Amarás ao teu próximo como a ti mesmo , entitativo do primeiro. O amor, a afeiçãoeo interesse pelo semelhante conseguem, aos poucos, as transformações estruturais da sociedade. São, no dizer dos espíritos superiores, os combustíveis do adiantamento na história e, simultaneamente, a matéria-prima da criação divina. Uma doutrina que tem por máxima fora da caridade não há salvação anima o indivíduo a fazer todo o bem que puder, a realizar a sua pequena parte, a deixar de lado a preguiça de intervir, a não deixar para os outros aquilo que o próprio pode fazer.
Perante o problema da fome, todas as vozes, todos os braços, todos os esforços nos colocam mais perto da sua resolução. Texto: Maria José Cunha mjscunha@netvisao.pt Bibliografia: KARDEC, Allan, O Livro dos Espíritos, “Con- clusão”, VII, VIII, 62ª ed., Rio Janeiro, FEB, 1985 Revista Espírita, “1861” e “1868”, Sobradinho DF, Editora Espírita Edicel Ltda, s.d., p.330 e 154-156, 171 1Mateus, XXII: 39 2 E.S.E.
