Opinião As mudanças necessárias A partir dos finais dos anos 60 do séc
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 125 min
Opinião As mudanças necessárias A partir dos finais dos anos 60 do século XX, algumas previsões catastróficas, baseadas na evolução dos parâmetros estatísti- cos, apontavam a explosão demográfica como um dos factores que mais contribuiriam para o colapso do equilíbrio global do planeta. As apreensões eram justificadas e algumas das premissas a elas associadas mantêm a sua actualidade, exigindo madura reflexão por parte dos decisores e da opinião públi- ca em geral, uma vez que fechar os olhos à nova realidade acarretará indescritíveis sofrimentos colectivos.
A poluição da terra, da água, do ar, dos alimentos, a degrada- ção dos ecossistemas, o impacto ambien- tal negativo decorrente de uma falta de ordenamento dos territórios, o crescimento urbano que destrói a paisagem agrícola, as reservas ecológicas, com o consequente desaparecimento de inúmeras espécies animais, gerando aquecimento térmico, degelos, terão consequências nefastas. Efectivamente a evolução dos números, ao longo das décadas, parecia apontar nesse sentido.
Já o Espírito Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, escrevia em 1952 que estavam encarnados, à época, cerca de dois biliões de espíritos, mas acrescentava: “Mais de vinte biliões de almas conscientes, desencarnadas, sem nos reportarmos aos biliões de inteligências sub-humanas que são aproveitadas nos múltiplos serviços do progresso planetário, cercam o domicílio terrestre, demorando-se noutras faixas de evolução.
“Para a maioria destas criaturas, necessita- das de experiência nova e mais ampla, a reencarnação não é somente um impera- tivo natural mas também um prémio pelo ensejo de aprendizagem.” (1) Abramos um parêntesis. O planeta Terra não é, pois, só “povoado” por aqueles que aqui estão reencarnados. A Terra tem recursos suficientes para alimen- tar uma população bem maior do que a actual. A miséria e as desigualdades sociais, assim como todo o sofrimento (basica- mente moral) decorrem das escolhas do próprio homem e do mau uso que faz do seu livre-arbítrio.
As ciências dão-nos, cada vez mais, um co- nhecimento minucioso e preciso das várias realidades, colocando nas nossas mãos a intransferível responsabilidade pelos nossos actos individuais e colectivos. Ao procura- rem a verdade dos factos, elas tornam-nos conscientes das consequências, por vezes dramáticas, de muitas das nossas opções. Mas essas mesmas ciências que observam e analisam o mundo e a sociedade, que pro- curam respostas e soluções, parecem não ser capazes de resolver a causa de tantos desequilíbrios previsíveis que está enraizada no nosso orgulho e no nosso egoísmo.
Basicamente: sabemos, temos consciência, que o procedimento está errado mas não o alteramos porque senão teríamos de prescindir dos nossos interesses particu- lares. Este tipo de opção origina múltiplos sofrimentos levando a provas e expiações reparadoras. Não é Deus que castiga: é a Lei da Natureza a funcionar. Por isso, quando uma civilização se esgota, é preciso que ela morra para dar lugar a outra. É a lei do pro- gresso conduzindo os espíritos à perfeição.
Fechemos parêntesis. A evolução das sociedades, sobretudo daquelas que são consideradas as mais avançadas, avaliadas pelos índices de de- senvolvimento que apresentam, demons- tram, contudo, que existem mecanismos intrínsecos na escala do progresso social que parecem desenvolver inconsciente- mente fenómenos auto-reguladores que inibem a progressão exponencial da taxa de natalidade. Parece evidente, pelos estudos mais recentes, que estas sociedades, fundadas em valores imediatistas, materialistas, utilitaristas, pelos fins que prosseguem e pelos valores de que se alimentam, pelas normas, códigos e leis em que se fundam, pelas necessidades que geram, acabam por condicionar ou dirigir, de algum modo, as opções individuais dos seus membros.
Em alguns pontos da velha Europa já se assiste hoje a um previsível colapso social, impossível de evitar, que terá o seu epicen- tro à volta do ano 2050. A Itália, por exemplo, que registou, ao longo de quase uma década, uma das mais baixas taxas de natalidade do mundo, está a “mor- rer”. Como a esperança de vida aumentou, há cada vez menos pessoas a pagar impos- tos e a contribuir para as pensões, enquan- to aumenta continuamente o segmento da população que necessita de pensões e de cuidados na terceira idade.
Em 2003 a percentagem de pessoas com idades acima dos 65 anos já era das mais altas do mundo: 18,6%. Analistas financeiros asseguram que as pensões de reforma custam tanto que é só uma questão de tempo para que a economia entre em colapso. Uma vez que a taxa de natalidade não aumenta, prevê-se que em 2050 a população italiana tenha diminuído cerca de um terço. O panorama é semelhante na generalidade dos países europeus e mesmo Portugal que nos anos 80 do séc.
XX era dos países mais jovens, já apresenta hoje a mesma tendência. Seguir-se-lhes-ão as emergentes potências asiáticas condenadas ao mesmo destino porque sujeitas ao mesmo modelo de desenvolvimento económico-social. Provavelmente o esboroar de uma civiliza- ção compensada ou atenuada por um forte surto migratório e uma consequente misci- genação de povos, raças e culturas (como já aconteceu em eras passadas e está regista- do nos anais da História), permitirá que das cinzas surja uma outra civilização, uma nova cultura, base de uma nova Humanidade, de uma outra civilização.
Para já, ao lado das tensões e das incerte- zas, sente-se a necessidade de uma outra consciência, impregnada de novos valores que só não se expressam com mais vigor e abertura porque os velhos valores ainda es- tão bem arreigados. Novas crenças e novas mentalidades, nova cultura, nova educação, novos valores e novos modelos de acção surgirão, certamente, por imperativo da necessidade. Uma aproximação entre ciência e religião, tendo como centro uma nova espirituali- dade, assente num novo paradigma de relação do homem com a vida, estenderá a sua influência renovadora a todo o pensa- mento, a toda a cultura, a toda a sociedade.
O primado de uma visão espiritual da vida tornará o homem mais consciente e responsável, permitindo-lhe encontrar a paz e viver em harmonia com tudo aquilo que o rodeia e que ele passará, então, a compreender melhor. Será a experiência simples do amor, colocado em todas as suas opções. Por muito tempo ainda, e por várias provas e expiações se terá de passar até que esse dia surja. Temos fé que sim! Texto: Reinaldo Barros (1) Roteiro, Emmanuel, psic.
Francisco Cân- dido Xavier, FEB, 6ª Ed., 1982, pág.
