Opinião O homem sem tempo João era uma pessoa como outra qualquer
Jornal de Espiritismo nº 14 · Janeiro 2006Página 134 min
Levava vida simples, casado, com filhos e um trabalho que lhe permitia viver de forma razoável, sem luxos mas também sem grandes necessidades. Um dia, envolto em grandes elucubrações íntimas, pro- curava uma resposta ou respostas para as crises existenciais. Será que a vida continua pos mortem? Se sim, como é que acon- tece? Onde está a justiça divina perante tanta dissemelhança?
www.adeportugal.org curso básico de espiritismo on-line em Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal Como que por encanto os livros espíritas apareceram-lhe no caminho. Devorou-os, um a um, identificando-se de imediato com esta filosofia de vida esclarecedora e consoladora. Integrou-se em várias actividades espíritas, com alegrias, êxitos mas também alguns fracassos. Nem sempre o relacionamento humano é o desejável e a lei das afinidades também fala mais alto, mesmo entre os espíritas.
É da natureza humana. Começou a “cansar-se”. Era incompreendido, dizia ele. Noutras alturas não tinha tempo, retorquia, para o trabalho de apoio ao próximo. Múltiplas actividades foram surgindo no seu caminho. No meio do desencanto foi pegando uma a uma, deixando para trás aquilo que tanto o entusiasmara anos antes. Envolto num frenesim diário, a ansiedade e a irritabilidade foram tomando conta dele. «Não tenho tempo para nada» era a frase mais ouvida da sua boca.
Se um amigo convidava para amena cavaqueira «não tinha tempo». Se um familiar ou filho pedia que fossem a determinado lugar respon- dia invariavelmente: «não tenho tempo». Companheiros de jornada solicitavam-lhe o apoio fraterno nesta ou naquela actividade mas havia que estabelecer prioridades e mais uma vez respondia: «gostava muito mas não tenho tempo». João foi-se isolando, deixou de conviver com os amigos, deixou de praticar des- porto, deixou de ter vida social, de tal modo estava mergulhado no seu trabalho e no seu hobby.
Um dia, repentinamente, sentiu forte dor no peito. Articulou um berro para chamar pela esposa em busca de auxílio, mas não obteve resposta. Sentiu-se leve e estranho, como que a flutuar. Mais espantoso ainda é que o seu corpo estava deitado no chão, tombado, com a cara para baixo. Passado algum tempo, identificou a situação com o que aprendera na doutrina espírita e verifi- cou que tinha falecido. Entrou em pânico, mas, rapidamente lembrou-se dos ben- feitores espirituais.
Chorou, relembrando os filhos, a esposa que no trabalho o julgava a caminho do seu emprego. «E agora, meu Deus? E tanto que eu tinha para fazer, logo hoje!...» pensou o João. Sentiu uma mão suave no ombro. Virou-se e viu um ser muito simpático que o envol- via com um sorriso doce e amigo. «Vem comigo» disse-lhe o desconhecido amigo. Esse pedido fora como que uma or- dem que não conseguia recusar. Sentaram- -se numas cadeiras nas imediações do local e como que por artes mágicas, aparece uma tela de cinema.
João estava atónito, queria articular mil e uma perguntas, mas o sinal de silêncio feito com o dedo pelo espiritual amigo, fê-lo manter-se calado. Olhou com atenção e, momento a mo- mento, como se alguém tivesse seguido os seus passos silenciosamente ao longo dos seus 53 anos de idade, João pôde conferir todo o seu percurso na Terra quando ainda no corpo de carne, Viu no filme da sua vida todo o bem levado a cabo e todo o bem que ficara por realizar.
Ia-se incomodando com tais situações. Mas, o que mais intranquilidade lhe trazia ao coração era a resposta sistemática que dava aos amigos: «Não tenho tempo…, sabes como é, tenho muito que fazer, as obriga- ções sociais são mais que muitas». Lembrou-se que não mais veria esses ami- gos e familiares e desejou ardentemente poder voltar atrás e refazer a vida. Já era tarde, o tempo passara e os minutos não voltam mais. Chorou de tristeza, inquieto, até que ouviu a voz doce da esposa: «querido, acorda, que se passa contigo?
» Atónito, acendeu a luz do candeeiro, abriu os olhos e espantado concluiu que não passara de um sonho. «Ufa! Que alívio!... Pensou…» Disse à esposa que fora um mero pe- sadelo que não se preocupasse e voltaram a dormir. Aquele foi o último dia da vida do João, já que no dia seguinte, como que renascera, recomeçando nova vida, com novas priori- dades, valorizando mais as relações huma- nas que os trabalhos em que se integrara.
Sabendo que todos nós temos um pouco do João, até que ponto precisaremos de passar pela mesma situação para reflectir- mos em torno da necessidade da sociabili- dade, dos convívios fraternos, dos contactos humanos, dos passeios na natureza, enfim de uma vida equilibrada onde possamos finalmente dizer a um convite para uma conversa: «Há quanto tempo esperava esta oportunidade! Vamos a isso...» Texto: José Lucaslucas@clix.
