Opinião Os sonhos de Mónica Santa Mónica, viúva, mãe de Santo Agostinh
Jornal de Espiritismo nº 15 · Março 2006Página 128 min
Opinião Os sonhos de Mónica Santa Mónica, viúva, mãe de Santo Agostinho, nasceu por volta do ano 331 em Tagaste, actual Souq Ahras, Numídia (região do antigo Norte de África que ia do território de Car- tago até ao rio Muluia, no leste de Marrocos, tornada provín- cia romana no século I a.C.) Santo Agostinho escreve nas suas “Confissões” que terá sido graças às suas orações e lágrimas que ele se converteu ao Cristianismo.
Santa Mónica terá mor- rido no porto de Óstia, no ano 387, quando se preparava para embarcar, com o filho, em direcção ao Norte de África. Em várias passagens do seu livro “Con- fissões”, Santo Agostinho fala dos sonhos de Santa Mónica que o terão vivamente impressionado pelo seu carácter pre- monitório. É provável que Santo Agostinho tenha interpretado a posterior realização desses sonhos como um sinal objectivo da intervenção divina nos assuntos humanos.
É natural que, no seu tempo e no contexto histórico, religioso e sociocultural em que viveu, não se tivesse uma ideia perfeita- mente clara da vida espiritual, da natureza íntima do Espírito e das suas faculdades. Desconhecer-se-ia o modo como os Espíritos intervêm no mundo corporal, as propriedades do fluido perispirítico e os mecanismos da mediunidade – faculdade presente em todos os seres humanos (Espíritos encarnados) que estabelece uma ponte permanente de comunicação/inter- relação entre os dois planos da vida (entre o mundo dos “vivos” e o mundo dos “mortos”).
Só mais tarde, o Espiritismo, ao aprofundar o conhecimento da vida espírita, poderia oferecer a chave lógica para o entendimen- to racional de uma multidão de fenómenos chamados “sobrenaturais” ou “inexplicáveis”. Escreveu Santo Agostinho que, por ele ser, naquele tempo, partidário do maniqueís- mo, a sua mãe frequentemente orava em lágrimas, “com espírito de fé”, pedindo a sua salvação. Durante algum tempo, apesar de ser viúva, não pactuando com as “blasfémias do seu erro”, recusou ir viver com ele.
Mas um dia ela teve um sonho que a consolou. A partir desse momento, ela condescendeu em ir viver com ele e assentar-se à mesma mesa. “Nesse sonho [ela] viu-se de pé sobre uma régua de madeira. Um jovem airoso e alegre veio ao seu encontro a sorrir-lhe, enquanto ela se conservava triste e amargurada. Perguntando-lhe ele as causas do aca- brunhamento e das lágrimas quotidianas – não para saber, mas para instruir, como é costume – e respondendo-lhe ela que chorava a minha perdição, mandou-a sos- segar, aconselhando-a a que atendesse e visse que aonde ela se encontrava lá estaria eu também.
Apenas olhou, viu-me junto a si, de pé, na mesma régua.”1 Pacificada pelo teor do sonho, entendido como uma resposta de Deus às suas in- quietações, Mónica terá contado ao filho o sucedido, justificando, assim, a sua mudan- ça de atitude. O filho tê-la-á escutado com redobrado interesse, certamente porque, pela experiência anterior, terão tido, ambos, provas irrefutáveis de que esses sonhos premonitórios de Mónica normalmente se concretizavam (é o que, pelo menos, fica subentendido, pela insistência com que Santo Agostinho se refere aos sonhos de Santa Mónica).
Santo Agostinho esforçou-se por interpretar o sonho de acordo com as suas convicções. Para ele, homem letrado e culto, professor de retórica, considerando-secom algum orgulho e vaidade -, cultural e espiritu- almente superior a ela, o que o sonho deveria querer dizer era que ela não deveria desesperar porque haveria de estar com ele (logicamente, do seu ponto de vista, se ele lhe era superior, ela é que teria que “subir” e não ele que “descer”).
Imediatamente, sem a mínima hesitação, recusando qualquer outra interpretação, ela declarou-lhe inequivocamente: “Não, não me foi dito: onde ele está, aí estarás tu; mas sim: onde tu estás, aí estará ele também”. Para Mónica, a mensagem do sonho era bem clara, não havia ambiguidades: “onde tu estás [agora, no cristianismo], aí estará ele também [um dia, no futuro] ”. Mais do que tocado pela descrição do sonho, Agostinho confessa que se sentiu profundamente abalado pela forte con- vicção demonstrada por sua mãe na res- posta que lhe deu.
Escreve ele: Ela “(…) não se perturbou com aquela [minha] interpre- tação falsa, mas tão prontamente viu o que devia ver e o que eu, na verdade, não vira, antes que ela o dissesse.” Ou seja, Mónica “viu prontamente o que devia ver”, enten- deu o significado pleno da mensagem que o “jovem airoso e alegre” lhe transmitiu; não tinha dúvidas, estava certa, o que a deixava perfeitamente segura e tranquila de que Agostinho acabaria por se converter ao cristianismo, passando a “estar” na crença religiosa onde ela “já se encontrava”.
“Por meio desse sonho, foi anunciada com antecedência [de nove anos] a esta piedosa mulher, para lenitivo da sua aflição presen- te, uma alegria que só deveria dar-se muito tempo depois.” Mónica, de forma simbólica, durante o sono, anteviu o futuro. O sonho foi profé- tico pois realizou-se tal como ela o “viu”: foi Agostinho que se converteu ao Cristia nismo e não ela ao Maniqueísmo. Como se explicam estes sonhos pre- monitórios?
Vejamos o que diz Allan Kardec. “O perispírito é o traço de união entre a vida corpórea e a vida espiritual. É por seu inter- médio que o Espírito encarnado se acha em relação contínua com os desencarnados; é, em suma, por seu intermédio, que se operam no homem fenómenos especiais, cuja causa fundamental não se encontra na matéria tangível e que, por essa razão, parecem sobrenaturais. “É nas propriedades e nas irradiações do fluído perispirítico que se tem de procurar a causa da dupla vista, ou vista espiritual, a que também se pode chamar vista psíqui- ca, da qual muitas pessoas são dotadas, frequentemente a seu mau grado, assim como da vista sonambúlica.
“O perispírito é o órgão sensitivo do Espírito, por meio do qual este percebe coisas espiri- tuais que escapam aos sentidos corpóreos. (…)”2 A vista espiritual “(…) não é idêntica, quer em extensão, quer em penetração, para todos os Espíritos. Somente os Espíritos puros a possuem em todo o seu poder. Nos inferiores ela se acha enfraquecida pela relativa grosseria do perispírito, que se lhe impõe qual nevoeiro”.3 “Necessariamente incompleta e imperfeita é a vista espiritual dos Espíritos encarnados e, por conseguinte, sujeita a aberrações.
Tendo por sede a própria alma, o estado desta há de influir nas percepções que aquela vista faculte. Segundo o grau de desenvolvimento, as circunstâncias e o estado moral do indivíduo, pode ela dar, quer durante o sono, quer no estado de vigília: 1.º a percepção de certos factos materiais e reais, como o conhecimento de alguns que ocorram a grande distância, os detalhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e os remédios convenientes; 2.
º a percepção de coisas igualmente reais no mundo espiritual, como a presença dos Espíritos; 3.º imagens fantásticas criadas pela imaginação, análo- gas às criações fluídicas do pensamento. Estas criações se acham sempre em relação com as disposições morais do espírito que as gera. (…)”4 “Os sonhos propriamente ditos apresentam os três caracteres das visões acima descri- tas. Às duas primeiras categorias dessas visões pertencem os sonhos de previsões, pressentimentos e avisos.
Na terceira, isto é, nas criações fluídicas do pensamento, é que se pode deparar com a causa de certas imagens fantásticas, que nada têm de real, com relação à vida corpórea, mas que apresentam às vezes para o Espírito, uma realidade tal, que o corpo lhe sente o contragolpe (…)”.5 Durante o sono, quando o corpo repousa, afrouxam-se os laços que prendem o Espírito ao corpo e como o Espírito jamais está inactivo, lança-se no espaço e entra em relação mais directa com os outros Espíri- tos.
Ele tem então, porque mais liberto da matéria, mais faculdades do que em estado de vigília. “Lembra-se do passado e algumas vezes prevê o futuro.”6 Escreve Yvonne A. Pereira no seu livro “Re- cordações da Mediunidade”7: “Tais possibi- lidades derivam de uma faculdade psíquica que possuímos, uma espécie de medi- unidade, pois a premonição não existe no mesmo grau em todas as criaturas, embora seja uma disposição comum a qualquer ser humano, a qual, se bem desenvolvida, poderá conceder importantes revelações e provas do intercâmbio humano-espiritual, tais como as profecias de carácter geral, a se cumprirem futuramente, ou mesmo de carácter restrito ao próprio indivíduo e a outro que lhe seja afim.
Alguns casos de premonições pelo sono parecem mesmo tratar-se da interessante e bela faculdade denominada “onírica” (mediunidade pelo sonho), tão citada na Bíblia e tão comum ainda hoje.” Escreve ela ainda: “frequentemente, cada um de nós é avisado, pelos protectores es- pirituais, durante o sono natural ou provo- cado, de factos que mais tarde se realizam integralmente, tais como foram vistos du- rante aqueles transes”.
Ela coloca a hipótese de que o Espírito pode, de acordo com os seus méritos, participar no planeamento reencarnatório, preestabelecen- do um programa de vida que abrange determinados momentos chave para a sua existência humana: provações, testemu- nhos, reparações, etc.. Esses acontecimen- tos predefinidos, que se desenrolarão em torno da criatura ou com ela mesma, ficam arquivados na sua consciência profunda ou subconsciência.
“Durante a vigília ou vida normal de relação, tudo jazerá esquecido, calcado nas pro- fundidades da nossa alma. Mas, advindo a relativa liberdade motivada pelo sono, poderemos lembrar-nos de muita coisa e os factos a se realizarem em futuro próximo serão vistos com maior ou menor clareza, e, ao despertarmos, teremos sonhado o que então virá a ser considerado o aviso, ou a premonição.”8 Aí se integram os fenómenos de pre- monições, pressentimentos e mesmo as profecias, como os sonhos de Santa Mónica que tanto impressionaram Santo Agostinho.
1. Santo Agostinho. “Confissões”, pág. 64-65. Livraria Apostolado da Imprensa. 13ª Edição. 1990. 2. Allan Kardec. “A Génese”. Cap. XIV, item 22. FEB. 24ª Edição. 1982. 3. Idem. Cap. XIV, item 25. 4. Idem. Item 27. 5. Idem, item 28. 6. Allan Kardec. “O Livro dos Espíritos” Cap. VIII – Da emancipação da alma, o sono e os sonhos, pág. 221-227. FEB. 24ª Edição. 1982. 7. Yvonne A. Pereira. “Recordações da Mediunidade”. Cap.
9 “Premonições”. FEB. 5ª Edição. 1987. 8. Idem.
