Entrevista Desintoxicação: Cada milímetro conseguido já é uma vitória
Jornal de Espiritismo nº 15 · Março 2006Página 117 min
Falar de drogas já não é tão “proibido” como em tempos que já lá vão. Mas preveni-las é, cada vez mais, desafio e imperativo de quem informa, educa, vigia ou corrige. Álcool, tabaco, haxixe, ecstasy, cocaína, heroína … Quem não conhece estas palavras que contextualizam espectros de irresistíveis estímulos, diversões, entusiasmos, prazeres e extravagâncias, mas que “ferem” o estado emocional, psíquico e social de tantas famílias, ao mesmo tempo que impõem dependências físicas, psicológicas e sociais de tamanho relevo?
Atarefada com a posse de bens materiais, a sociedade actual assume diferentes formas de entender a problemática da droga de acordo com a “visita” deste flagelo no próprio ou nos acompanhantes de quem a “recebe”. Despreocupadamente, afirma-se que “só consome drogas quem tem pro- blemas”… Mas a realidade vivida quotidi- anamente demonstra que toda a criatura tem problemas, mais ou menos graves para resolver, enquanto habitante do Planeta Azul, e, entretanto, nem todas procuram refúgio em componentes químicos.
Admite-se, ainda, levianamente, que a para- gem no consumo das drogas é fácil: “basta força de vontade”… Efectivamente, a motivação é o desejo profundo do desapego ao sofrimento pro- vocado pelo ciclo vicioso. Contudo, encetar um tratamento de desintoxicação sem um acompanhamento técnico adequado e, acima de tudo, sem a ajuda pronta e eficaz de “mãos” caridosas deste e do “Outro Mundo”, é quase inútil. Que o diga Alberto, pseudónimo de um jovem de 31 anos, casado, a prestar serviços na área do co- mércio, que viveu intensamente as agruras da dependência e da acção corrosiva de estupefacientes, mas a quem a consciência do sofrimento gerou a energia do autoco- nhecimento e da busca da sabedoria que a doutrina espírita comporta.
Com que idade iniciou o uso de drogas? Alberto — Tinha quinze anos, com o con- sumo de haxixe. Até quando? A — Até aos vinte e dois, vinte e três anos. Que motivos o conduziram a esse sub- mundo? Pessoais? Sociais? A — O principal factor que me motivou foi a curiosidade. E, para além de pretender experimentar coisas novas, também o facto de não querer ficar mal no grupo de ami- gos, sentir-me no mundo deles e, de certa forma, não ser excluído.
Se uns experimen- taram, eu também quis partilhar do mesmo. E foi aí que tudo começou. Que drogas experimentou? A — Consumi haxixe, cocaína, heroína, ecstasy, álcool… anfetaminas. Como chegou à fase do equilíbrio? A — Foi o tempo e a vontade de me reabilitar que trouxeram o equilíbrio. Vivi as experiências do Casal Ventoso; de Mem Martins; das fugas às emboscadas da Polí- cia, de aldeia em aldeia, com traficantes de arma aperrada!!!
Em dada altura, misturei medicamentos receitados por médicos com heroína e quase me suicidei. O tempo foi passando, até que… me convenci de que pretendia mesmo endireitar caminho. Recorri a um dos centros de tratamento do PROJECTO HOMEM. Durante três dias. Tempo para ver claramente a que dramas me havia exposto. E foi aí que fui buscar a força para abraçar a outra face da vida. Pedi para interromper o internamento e propus-me enfrentar a realidade.
Uma semana ou duas sem consumir… depois consumi mais uma semana. Até que… hoje não… hoje não… hoje não… foi um dos propósitos que fui pondo no meu dia-a-dia. Se num falhei, no outro consegui evitar que a droga tomasse conta do meu ser. Assim fui chegando a bom porto… sempre reparando que a esfera em que gravitei era má e acarretava muita angústia. Inscrevi-me num Curso Básico de Espiritismo. Repeti-o. O convívio com amigos de outros gostos foi surgindo.
Sem vandalismos, sem ambientes pesados. O Centro Espírita passou a ser um ponto de apoio crucial e bem capaz de me trazer o equilíbrio psíquico e espiritual por que tanto ansiava. Que ajudas lhe foram prestadas? E por quem? A — O apoio contínuo dos meus pais e de- mais familiares, que são em grande número, contribuíram muito para a minha recupera- ção. A minha namorada – hoje esposa – e o novo grupo a que me liguei fizeram o resto.
Sentiu-se alvo da discriminação e do preconceito? A — Quando se está envolvido num processo como o que vivi, o importante é a droga. Os outros não contam, desde que estejamos no nosso ambiente. E só há amigos, se houver droga. Então, só nos sentimos observados ou rejeitados quando estamos sozinhos num ambiente de outra dimensão além do que conhecemos, ou seja, fora do mundo da droga. Se, entretan- to, estivermos com duas ou três pessoas que comungam do mesmo procedimento, sentimo-nos bem… estamos no nosso próprio espaço.
No fundo, somos nós a impor a auto-rejeição. Alguma vez pensou nos riscos espiri- tuais? A — Houve momentos que sim, mas em muitos outros, nem me passava pela cabeça a componente espiritual. Isto porque, até se encarar a realidade como ela efectivamente é, tudo é difícil. Pensa-se no momento, reage-se, diz-se que sim às coi- sas mas, uma hora depois, aparece a droga para consumir e… o assunto varreu. Mais tarde, volta o confronto com o pensamento anterior.
A toxicodependência é distúrbio con- sentido ou agente espiritual? A — Fui eu que elegi o caminho que percorri. Cada ser escolhe o que pretende para a sua vida. No mesmo grupo a que inicialmente pertenci, havia outros colegas que conheciam e assistiam à nossa postura sem, no entanto, desejarem experimentar, evidenciando que o livre-arbítrio é, na realidade, um atributo concedido por Deus e que cada um age com inteira liberdade.
Os químicos provocam desequilíbrios espirituais? A — As drogas provocam desequilíbrios físi- cos, psíquicos e espirituais. A dependência que geram desarticula o discernimento e interrompe os comandos do centro da von- tade, tornando-nos verdadeiros farrapos. Causam muita dor e sofrimento. Ao longo da temporada de desintoxicação, a saúde física foi-se refazendo, face aos efeitos das ressacas. Quanto ao reajuste psicológico, são precisos anos!
Cada milímetro con- seguido já é uma vitória. Espiritualmente, foi a frequência do Curso Básico de Espiritismo, que repeti, que em muito contribuiu para me reabilitar. Como revê a angústia dos seus pais face à situação vivida? A — Quando penso em tudo que se pas- sou, fico triste!... Só mesmo eles poderão descrever os sentimentos e as aflições que viveram. Entretanto, e como já referi, os meus pais tudo fizeram para me ajudar.
O Centro Espírita que frequentavam há bastante tempo ajudou-os muito, para, em seguida, eles me ajudarem a mim. Além disso, vendo que os actos que praticava não me diziam respeito só a mim, como encarnado, também me levaram lá com eles, uma forma de, em conjunto, encon- trarmos paz. Entende que durante o período de consumo adentrou um processo obses- sivo? A — Sim. Muitas vezes senti a influência de seres que me coagiam a perder o controlo, a fazer coisas que, no dia seguinte, negava veementemente, inclusive a quem as tinha presenciado.
O conhecimento espírita ajudou-me a entender que muitos irmãos desencarnados terão sido atraídos a emanar o meu “delírio”. As drogas alteram a textura do perispírito? A — Evidentemente que sim. Os compo- nentes tóxicos gravam deformações no perispírito, deixam muitas marcas psicológi- cas e afectam a organização fisiológica com variadíssimas lesões. Sou portador de algumas, nomeadamente no que respeita aos mecanismos da memória e não sei o que me espera em futuras encarnações.
Que poderá concorrer para evitar este flagelo da humanidade? A — Aos pais cabe a responsabilidade de falar abertamente com os filhos, aconselhar e corrigir-lhes amorosamente as tendências. Inclusivamente, levá-los aos locais pro- blemáticos onde possam avaliar friamente a dor e o sofrimento de quem por lá vai passando. Campanhas nas escolas, prin- cipalmente nas secundárias, para eviden- ciar a realidade das drogas. Exibir filmes e organizar entrevistas com ex-toxicodepen- dentes: será um testemunho vivo.
Através de espaços publicitários televisivos, em horário nobre, lembrar a problemática não só das drogas, mas também do álcool que, geralmente, abre-lhes as portas. Também o Centro Espírita é uma excelente oportuni- dade de firmar as bases morais. Na qualidade de ex-toxicodependente, o que aconselha aos jovens? A — Se quiser ser toxicodependente, experimente drogas. Se quiser praticar uma vida normal e saudável, nem sequer experimente.
Deseja lançar algum apelo ao Movi- mento Espírita? A — Os Centros Espíritas deverão criar condições e espaços físicos para os jovens se aproximarem e ali colherem os benefí- cios do conhecimento racionalizado. Ópti- ma oportunidade para a escolha atempada de valores que os preservarão dos perigos que os espreitam. No meu caso pessoal, a frequência do Curso Básico de Espiritismo, do Curso de Educação da Mediunidade e particularmente os novos contactos que aí fiz ajudaram imenso à minha reabilitação, permitindo até o regresso à actividade escolar.
