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Jornal de Espiritismo nº 18 · Setembro 2006Página 145 min

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Crónica A D. Maria partiu para o além… Conhecemos a D. Maria numa tarde de final de Verão. Foi ela que nos abriu a porta com um sor- riso simples que parecia sair-lhe do coração. Sabia ao que vínhamos, a filha falara-lhe de um centro espírita que tinha um grupo de trabalhadores que se disponibilizavam para visitar doentes, conversar um pouco, tentar ajudá-los em alguma dificuldade, enfim, levar-lhes algum consolo. Ficara feliz com a ideia.

Passara por um longo período de internamento hospitalar e… para ali estava até que Deus quisesse. Foi fácil entrar no ambiente daquela família e, sobretudo, fazer da D. Maria uma amiga. Cedo nos apercebemos de que o passe espírita que nos propúnhamos levar, teria de ir um pouco mais além. Ela tudo queria saber, era como se o mundo se tivesse aberto aos seus olhos cansados, naquele final de vida, com a chegada da Doutrina Espírita.

Optámos pelo Evangelho no Lar, naquele lar, e resultou. Ao longo de vários meses o livro de Kardec «O Evangelho Segundo o Espiritismo» foi base de um trabalho in- tenso. Recordo quantas vezes ela nos inter- rompia, sentada na sua cadeira, envolta em «mantinhas» de lã que quase se tornaram o símbolo daquele Inverno. A cada parágrafo do texto lido, ela o relacionava com situa- ções da sua vida acrisolada, de luta inces- sante pela sobrevivência.

Por vezes, perante as explicações que iam surgindo, parava para meditar, abstraía-se, como se quisesse gravar na sua memória as conclusões a que ia chegando e para as quais, as mais das vezes, nunca até então obtivera resposta. Mas, paralelamente ao trabalho que nos propusemos com a D. Maria, outro acabou por surgir. Das primeiras vezes que lá fomos, aparecia uma ou outra vizinha, digamos que… de um modo casual… para saber como estava, ou… quem estava (presumo eu).

A verdade é que a «casualidade» foi au- mentando e as vizinhas… ficando. Decidimos que não havia de ser por causa das interrupções quase constantes que iría- mos mudar a estrutura do nosso trabalho e fomos em frente, quer dizer – Evangelho pra toda a gente! Eram tardes de Inverno, frio, em que a chama do Evangelho transformava aquele ambiente no mais doce e inebriante calor humano. O tempo foi passando, tornou-se rotina; o grupo sempre aumentava e a pilha de «mantinhas» de lã que repousava em cima de uma cadeira era repartida pelos joelhos daquela gente boa que sempre queria saber mais.

Lembro a D. Maria, quando ten- tava moderar o debate de ideias (e o tempo estendia…): «– Por favor, dizia ela, calem-se agora, porque estes «queridos» daqui a nada vão-se embora e eu gosto tanto de os cá ter…». Era um fascínio! Saíamos ao escurecer, saíam também as vizinhas, em grupo, de casacos bem acon- chegados, que o frio apertava. Lembrei-me um dia que aquilo me recordava aquelas cenas de Eça de Queirós, no bucolismo de A Cidade e as Serras.

Nunca a D. Maria que pouco mais era fisi- camente, pelo menos aos nossos olhos, do que uma doce figura de cera, envolta em roupa quentinha e sacos de água quente disfarçados, se queixou com dores. Mas nós sabíamos o quanto ela sofria e o quanto a morfina era a companhia permanente dos seus dias e noites também. A pouco e pouco passou a viver para as terças-feiras e, a determinada altura, era o único dia em que se levantava.

Já quando a Primavera surgia batemos, um dia, mas ninguém nos abriu a porta; ligá- mos para a filha e lá soubemos do escon- derijo da chave; entrámos – lá estava a D. Maria, tal como a filha a deixara antes de ir trabalhar, acomodada na cadeira, adorme- cida, como uma imagem. Nesse dia a D. Maria estava só, havia já uma empatia profunda entre nós, e ela contou- -nos de coisas simples da sua vida, que guardava como segredos e que lhe tolda- vam a hipótese, pensava ela, de vivenciar na Espiritualidade as venturas que o Evangelho e as explicações dos «senhores» lhe apon- tavam como certas.

O que se passou foi indescritível; quando saímos daquela casa quase nos abraçámos na rua. Duvido que naquela hora houvesse alguém mais feliz, neste planeta, do que nós!!! Ela nunca nos disse que ia morrer, nunca! Mas contou-nos um dia, que tinha estado a conversar com a filha, vejam que coisa en- cantadora, e que chegara à conclusão que ficava melhor no dia em que «os senhores» lá iam; então tinha pensado propor-nos irmos mais vezes… nem que nos pagasse!

Esqueci-me de referir que era pobre a D. Maria… Lá lhe explicámos que os Bons Espíritos não se interessam com dinheiro… quanto a nós, estávamos em dívida com ela, por nos proporcionar aquela oportunidade linda de a conhecer. Quedou-se silenciosa! Sempre aquelas tardes terminavam com a leitura de um caso da vida de Chico Xavier e uma prece que os Bons Espíritos perfu- mavam. Porém, o corpo da D. Maria, sempre lú- cido, acabou por não resistir e, uma tarde fomos encontrá-la no leito, dormindo (ou parecia…).

Coloquei-lhe a mão na testa e fui conversando com ela, brandamente, dizendo-lhe do quanto a amávamos, recor- dando-lhe as coisas bonitas que tínhamos aprendido juntos, enquanto as mãos de uma das minhas companheiras pairavam serenamente, sobre o corpo prostrado. Nunca mais vi a D. Maria; nesse fim-de-se- mana ela partiu. Parece que a mensagem espírita calou fundo na alma das pessoas que nos acom- panharam naqueles dias pois vieram pedir que continuássemos os nossos encontros em casa de uma delas.

Mas o nosso trabalho acabava ali, na certeza de que Deus nos permitirá vivenciar novos aprendizados, junto de outras pes- soas impedidas de ir ao Centro e tão lindas quanto a D. Maria. Ficou bem patente a certeza de que o passe espírita é eficaz em qualquer lugar pois, como nos diz Emmanuel: «Onde existe sincera atitude mental do bem, pode este- nder-se o serviço providencial de Jesus». Texto: Amélia Reis amelia.v.reis@gmail.