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Jornal de Espiritismo nº 18 · Setembro 2006Página 154 min

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Crónica O amor é uma arma PUBLICIDADE O amor é uma arma. De defesa! A única incapaz de magoar outrem. Jesus deixou alto e bom som que toda a lei e os profetas se resumiam a amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Vamos pensar nisto mais uma vez! A Rosinha falava com um amigo. Dizia, am- argurada: «Sabes, sinto-me tão imperfeita, tão nula, tão escura, que nem sei como posso vir a ser melhor. Não admira que ninguém goste de mim!

». O retrato estava delineado. Tons pesados, confusos, entre frustrações imensas e confli- tos recorrentes. Era forçoso reconhecer: a Rosinha é também um diamante em bruto. As forças dinâmicas da vida estão a burilá-la, para que venha a cintilar, qual jóia polida, nos salões do porvir. Mas, qual carbono sob o peso incontorná- vel dos milénios, ensinam os bons espíritos, não basta receber a vida, há que ter jogo- -de-cintura para se afeiçoar a ela.

Por outras palavras, é insuficiente receber as situações que a vida nos traz, há que responder-lhe com atitudes construtivas. Gostar de si próprio Narciso, diz a tradição, encantava-se com a sua figura ao mirar o espelho. Não é isso que interessa. A vaidade é um tropeço desnecessário, porém insistente, nos cami- nhos evolutivos que trilhamos vida após vida, e na erraticidade. A apologia não é a narcisista: falamos é de auto-estima.

Quando nos inclinamos para a posição interior da Rosinha, estamos a esquecer que quase sempre deixámos estatelar-se aos nossos pés uma boa porção de auto-estima. Desvalorizarmos os recursos que amea- lhamos, seja a mais pequena ou a maior contribuição para outrem no âmbito da caridade, é algemar os passos quando necessitamos seguir adiante. Jesus dizia: amar ao próximo como a si mesmo. Rosita, se não gostar realmente de si, a ponto de estar grata a Deus pela vida que lhe ofereceu, vai gostar pouco dos out- ros.

Quando gostamos pouco dos outros, o que esperamos receber? «Poucochito» com certeza. Só conseguiremos gostar mais dos que se cruzam connosco na vida quando nos conhecermos minimamente e ainda assim gostarmos de nós próprios, com consciên- cia do nosso lugar no mundo. Ouve-se a voz da Rosinha: «Ah! Mas eu erro taaannnnto!». Não seria de esperar outra coisa: errar é um caminho de aprendizado. E quanto mais orientamos o nosso conhe- cimento mais poder temos sobre nós próprios.

Os equívocos já caminham connosco há muito, e temos de lhes estar gratos. Veja assim: quando aprendeu a ler, na escola fazia as cópias do professor. Se se esforçar lembra: na primeira cópia viu erros, mas quantas mais cópias fez integrou em si o reconhecimento do engano e evitou-o no futuro. Se não visse logo o seu erro, iria errar muito mais tempo. Depois vieram os ditados: aqui, o fenómeno do erro-recon- hecimento-aprendizado acentuou-se ainda mais!

E aprender a andar de bicicleta? Como é que duas rodas conseguem andar em frente sem cair? Estes inventores lembram- -se de cada uma… Mas, afinal, depois de quedas, do reconhecimento dos efeitos da lei da gravidade conjugada com o movimento de avanço da bicicleta, cada vez se cai menos — mais adiante, com cuidado, dificilmente se chega a cair… fica a lembrança: uma cicatrizes pequenitas nos joelhos, tantas mais quanto maior o esforço autodidacta.

Errar não merece punição, não se castigue: faça mais — aprenda e seja mais útil a ou- trem, sem esperar retribuição. Um exercício entre outros O amor é uma arma defensiva que, se bem aplicada, não agride ninguém. Mas é sobretudo uma ferramenta a que os espíritos chamam caridade, a maior entre todas as virtudes, para a doutrina espírita. Para existir cristalina, supõe as demais. E, caridade connosco próprios, higieniza-nos mentalmente para sermos uma ferramenta mais prestativa.

Não custa, caso queira melhorar-se através da solidificação da sua auto-estima, pensar nesta grelha de ideias: Esta tabela surgiu numa rápida volta pela Internet e, logo desde o seu primeiro ponto, há que reconhecer-lhe qualidades. Concorda? Evoluímos se trabalharmos para a nossa evolução, e não contra ela. Ideias de auto- -punição, de castigo, reflectem visões antropomórficas atrasadas de Deus. Se fomos incorrectos com alguém, o importante é compensar, se possível aqueles a quem prejudicamos, com gratidão pelas oportunidades; não ficar a carpir.

Estes exercícios são um passo importante não só para a Rosinha, mas para todos nós. Não vale alguém olhar de cima. Quando a vida pesa, todo o grão de areia parece estar a transbordar da nossa camioneta, embora seja justo guardar a certeza de que, se cada um de nós fizer a pequena parte que nos cabe, é matematicamente certo que Deus fará tudo o que reste. Texto: Jorge Gomes jorge.je@clix.