Crónica Será Verdade?
Jornal de Espiritismo nº 19 · Novembro 2006Página 143 min
Já a tarde declinava e uma bruma acinzentada ia cobrindo a paisagem quando, rompendo o silêncio da minha aldeia, lugar isolado da Beira Interior, o sino começou a tocar. Era um dobrar triste, espaçado, que vibrava na alma e gerava tristeza. Alguém tinha morrido. Saí de casa, bati a porta e, nos degraus de granito da rua, que o tempo foi envelhe- cendo, estavam sentadas, uma em frente da outra, em silêncio, duas mulheres.
Uma pensativa, quieta; a outra, quieta tam- bém, mas rolando entre os dedos cansados, por quase noventa Janeiros, as contas do terço. Mal que me viu, interrompeu a reza para me perguntar se eu sabia (e não sabia…), quem tinha morrido. E, enquanto eu me rendia à ignorância sobre a vida dos filhos da minha própria terra, ela ia lamuriando em monólogo arrastado: - Aiiii, para onde irá esta «gentezinha» que por esta rua vai passando, sempre para o mesmo sítio… (referia-se ao cemitério).
Parei, sentei-me com elas, como se aquilo que eu ia fazer não fosse coisa de cuidado. E lá lhe fui lembrando, partindo daquilo que era crença dela, naturalmente, e apelando para o terço gasto pelo uso, ele próprio tão negro como a roupa que a vestia… Que a vida é eterna, continua….se assim não fosse, não valeria a pena estar para ali a rezar por aqueles que partiam! De resto, era o que ela afirmava nas suas orações. Calou-se.
Ou não entendeu, ou achou muita filosofia. Depois, a outra, do outro lado da rua, que é estreita e de calçada granítica, avançou: - Pois, mas o pior é que não se sabe quando vai acontecer… velhos e novos, pobres e ricos, doentes e sãos… O jogo estava, nitidamente, do meu lado. - Pois, mas Deus é justo, sempre nos ensinaram assim, e é nisso que todos acreditamos… (novo espaço para reflectir, enquanto o sino…) E, eis senão quando, como diz o poeta, sai da boca da que não tinha terço, a frase que abanaria as estruturas daquele lugar pací- fico onde ainda é possível deleitarmo-nos com a chegada das andorinhas.
- Sabem o que diz a minha Ângela? (era a filha), Que as almas das pessoas que mor- rem, voltam nas criancinhas que nascem, SERÁ VERDADE? Santo Deus!!! Aquele «Será verdade» saiu-lhe do mais profundo do ser, numa interrogação muda, forte, profunda, que se via estar ali há muito tempo, como uma torrente que precisa encontrar leito para drenar. Foi lindo! Aquela mulher íntegra, analfabeta, com mais de oitenta anos, vividos numa vida simples e sofrida, buscava confirmação para algo muito sério, não porque a sua Ângela lho dissera, mas porque ela o sentia, como única saída lógica para toda aquela meia conversa, cortada por silêncios e interroga- ções.
Respondi-lhe também com parcas palavras: - É, sim senhora. Foi como se o céu se abrisse; e lá lhe fui dizendo: - E é por isso, «ti Zefa», que as pessoas são diferentes, porque vêm de vidas diferentes; é por isso que há gente que se entende quase sem se conhecer… porque uns pa- recem bafejados pela fortuna, outros nem tanto. Vossemecê tem razão, voltam sim senhor. Um dia, mas mais de dia (porque escurecia), poderemos continuar a conversar.
Despedi-me e segui o meu caminho, jáanévoa acinzentada cobria os píncaros da Estrela e uma doce brisa me envolvia a alma. Caminhava pelos amados trilhos dos meus avós que me legaram a bênção de poder conhecer as pessoas com quem me cruzei naquela tarde. E senti-me leve, leve, como se a certeza da imortalidade me preenchesse os passos e o coração. Ao mesmo tempo percebi que o meu bondo- so Guia tocava uma pequena campainha, com um timbre mais doce que o soar do sino, alertando-me para a responsabilidade de transmitir aos outros, mas com toda a transparência, a resposta à candura daquela pergunta simples: SERÁ VERDADE?
Por Amélia Reis amélia.v.reis@gmail.
