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opinião Sexualidade Falar em sexualidade é ainda hoje complicado para

Jornal de Espiritismo nº 2 · 2004Página 75 min

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Falar em sexualidade é ainda hoje complicado para muitos, visto tratar-se de um tema interpretado por

cada pessoa de um modo diferente.

De tabu a mero encontro carnal, passando por algo de grande significado emocional, a sexualidade faz parte de todos, mesmo daqueles que pensam ignorá-la.

O Dicionário de Psicologia dá-nos uma visão muito clara do tema em causa, definindo a Sexualidade como “uma função estritamente humana (...), porque investe nos comportamentos de procura de prazer sexual de conteúdos culturais e simbólicos. (...) A satisfação do desejo exercese sob um quadro de interditos mais ou menos variáveis, indispensáveis para canalizar a energia sexual capaz de escapar ao controlo (...)”.

No entanto, o homem nem sempre se rege por essas regras, tendo um comportamento sexual considerado desequilibrado. Surgem então as parafilias, em que a pessoa obtém prazer sexual através de objectos, e de outras funções fisiológicas, sendo algumas das actividades consideradas crime em sociedades mais civilizadas — pedofilia, necrofilia, voyeurismo, masoquismo, sadismo, etc.

«O Livro dos Espíritos» não dá uma definição concreta da sexualidade, mas a resposta à pergunta 686 é clara: “686. E lei da Natureza a reprodução dos seres vivos?”; “Evidentemente. Sem a reprodução, o mundo corporal pereceria.”

O ser humano caminha com uma energia peculiar que deve ser canalizada para que ele mantenha o seu bem-estar. Essa energia é geralmente descarregada no acto sexual, ou através da expressão artística. No entanto, muitos acumulam e carregam esse fardo energético, por verem na sexualidade algo promíscuo.

No contacto sexual, há uma troca fantástica dessa energia entre os dois protagonistas, estabelecendo-se um circuito fluídico-vibratório intenso. Essas energias espalham-se por todo o corpo físico, e aos poucos são absorvidas pelo psicossoma, nutrindo o ser. Um casal que se ame, ao manter uma sexualidade saudável, estabelece permutas energéticas compensatórias.

No livro Forças Sexuais da Alma, podemos ler: “O desagúe da energética espiritual é variável em graus e tonalidades. (...) Enquanto uns estão travando o sexo no corpo físico (...), outros estão criando e bendizendo nas harmónicas forças criativas. Os primeiros estão recalcando forças que um dia explodirão (...); os segundos encontraram o caminho pelo ajustamento, naturalidade e equilíbrio de conduta.” Então, a energia sexual, direccionada pelo contacto sexual físico e emocional e/ou implementada nas artes, é um combustível valioso que deveremos utilizar no caminho evolutivo.

O seu uso indevido causará um desvio, perdendo-se todas as suas vantagens, assim como tentar silenciar essas forças é destruir-se a si próprio.

físico, mas também pelo nosso psiquismo profundo (inconsciente).

Sendo o espírito dotado de livre-arbiítrio, é ele quem escolhe o que fazer com a sua sexualidade. No entanto, a “Lei de Causa e Efeito” é uma “regra” do jogo da vida, o que implica que haja consequências quer pelo bom uso, quer pelo mau uso. O sexo bem dirigido, na monogamia ou na castidade construtiva, é caminho para a ascensão e conquista. Por outro lado, o sexo mal dirigido, na poligamia ou na renúncia sem aplicação alternativa das energias sexuais, traz desarmonia e leva à queda.

É ainda importante termos consciência de o que é realmente a castidade, visto que esta nem sempre implica ausência. E função sexual equilibrante com mente sadia, na troca de energia entre dois seres que se amam, com ajuda dos órgãos sexuais ou sem eles. Então, ser casto não implica que não tenhamos contacto sexual com outrem, mas sim que este seja consciente e harmonioso, apoiado no amor. A sexualidade deve ser utilizada de forma equilibrada em todas as fases da vida. O abuso afecta os centros de força, devido aos desajustes energéticos, interferindo nos sectores emocionais do homem e causando problemas a nível do sistema nervoso neuro-vegetativo.

Em suma, sexo é vida e evolução quando apoiado na ideia do bem comum. Sexo é luta, tormento e desequilíbrio (bem como atraso evolutivo) quando abafamos os sentimentos na satisfação sexual temporária, na ausência de amor e da troca afectiva.

Uma vez mais, o livro Forças Sexuais da Alma diz, a respeito das consequências do mau uso: “Pela morte do corpo, carrega o espírito, (...) toda a desarmonia que provocou, e em nova reencarnação, levará na mente atribulada as tendências desequilibrantes, que somente o esforço, disciplina e bom senso podem encarregarse do equilíbrio reconstrutivo.”. Na verdade, não existe tormento dos órgãos sexuais e sim mentes atormentadas pelo descontrolo vibratório do sexo mal dirigido. É essencial impor nessas mentes a disciplina, para que as energias sexuais e o corpo físico

não sejam utilizados indevidamente, bem como a educação e orientação para que não se erre por considerar imoral tudo o que diga respeito à sexualidade. O sexo ainda não é moral devido à nossa evolução. Quanto menos evoluído é o espírito, mais o seu impulso sexual é dominado pelo instinto. Quanto mais evoluídos os seres, mais conscientes se encontram da necessidade de nos afastarmos do sexo puramente físico, para o enriquecermos espiritualmente.

Mas antes de atingir esse ideal, é imprescindível que passemos por todas as fases, todos os degraus. Aquele que não esteja preparado (devido à própria evolução), não pode dispensar o mecanismo sexual natural da zona física. Se o encontro entre um homem e uma mulher tem por base a satisfação física, sem a presença de um amor puro e equilibrado, os efeitos manter-se-ão à superfície, não atingindo a alma. Por outro lado, quando existe um amor com profundidade espiritual, as fontes do homem e da mulher são abastecidas.

Então, a sexualidade é uma grande força que não devemos tentar destruir, mas utilizar e elevar, porque na evolução tudo procede por continuidade. E mesmo aqueles que não vivem o encontro sexual físico, mas capazes de equilíbrio da própria alma, podem conduzir as energias criativas para o bem, pela caridade.

Devemos ainda lembrar que a sexualidade não é uma característica exclusiva do adulto, e muito menos do homem casado. Ao longo de toda a vida, o espírito sente os diferentes efeitos no seu corpo, variando a forma como se manifestam.

Na sua juventude, os espíritos sentem a influência do controlo reduzido que têm das forças sexuais. Por outro lado, a velhice do corpo físico não implica que haja um apagar da energia sexual. Aquele que deu bom uso aos seus campos sexuais quando em prática fisica, sempre terá capacidade para vivenciar nos campos que ultrapassam o sexo físico, pela troca de carinhos, de abraços, de olhares cheios de amor...

A atitude saudável diante da vida sexual será sempre dotada de beleza e não de degradação. A sexualidade em si nunca se corrompe. As atitudes humanas, com instintos deturpados e tendenciosos para o mal é que são uma fonte de censura. O sexo está ligado às mais nobres funções de sentimentalidade, manifestando-se em todas as fases da vida, em que o prazer do acto sexual deve representar, quando bem dirigido, uma poderosa fonte de construção e aprendizado para o espírito, proporcionando-lhe a evolução.

Bibliografia: «O Livro dos Espiíritos», Allan Kardec. «Forças Sexuais da Alma», Jorge Andrea. «Dicionário de Psicologia», Roland Doron e Françoise Parot, 1.º Edição, Lisboa, Outubro 2001, Climepsi Editores.

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