pesquisa Fronteiras da vida São muitos depoimentos
Jornal de Espiritismo nº 2 · 2004Página 94 min
São muitos depoimentos. Quem os dá, esteve tão próximo da morte quanto é possível estar. Cativos num coma profundo, sentiram-se livres, de fora, como observadores. A ciência vê-se forçada a pesquisar, porque as alucinações, só por si, não satisfazem os factos.
«A senhora estava na cama, de olhos fechados, aparentemente sem respirar. Auscultei-a. Pareceu-me ainda haver sons cardíacos. Verifiquei que a pele da doente ainda estava quente: se tivesse morrido, isso teria sido há pouco tempo», conta João Pereira*, médico. Escolhera um recanto discreto do amplo vestíbulo do hospital, naquela tarde calma de fim-desemana.
Olhos brilhantes, resolvera arriscar falar a um desconhecido sobre um arquivo secreto das suas memórias. O gravador... «bem, depois desgrava isto mal passe ao papel?h». «Sim, simb», tranquilizei-o.
A voz é medida, palavra a palavra, pausada, mas expressiva. Rememora: naquela noite, os filhos da senhora octogenária procuravam-no, em casa, à hora de jantar. Não se conheciam. Esse encontro ocorreu em virtude da emergência. Informaram que a mãe estava naquele estado desde as duas da tarde. Não a levaram para o hospital a pedido da doente, que avisara preferir falecer em casa. Após exame, o médico diagnostica «um coma hipoglicémico», uma quebra de glicose.
Na falta de ampolas injectáveis, administra-lhe um pouco de açúcar normal pela boca. Depois, «passei aos filhos a receita de uns comprimidos, para lhos administrarem». Está atrasado para a palestra agendada para às 21h30, alhures na cidade. Promete passar ali um par de horas depois, nem que seja para verificar o óbito.
«Passei por casa da doente pelas 23h30. Recordo que evoca João Pereira , quando entrei naquela casa, fui recebido com alegria pelos filhos. Com um sorriso, disseram-me: Venha ver a doente, que não parece a mesmab.
Entra no quarto da doente. Vêa sentada, bem-disposta e cumprimenta-a:
- Com que então está bastante melhor! Não há dúvida que foi uma alegria franca, graças a Deus que está outra.
- É, estou melhor do que há umas horas, quando o senhor doutor cá veio.
- Exactamente, eu vim cá, mas a senhora não se recorda de eu cá ter vindo!
- Ai isso é que recordol... - Não pode ser...
- Não pode. Porque a senhora no estado em que se encontrava, num coma profundo, olhos fechados, era impossível ver-me.
- Eu vi-o! Não tenho dúvidas de que foi o senhor doutor que veio cá!
- Não pode ser. Digo-lhe com todo o respeito: a senhora não podia ver-me...
«E então ela olha para mim afirma João Pereirae perante o espanto da família diz-me»: - Pois vou contar-lhe uma coisa que não era para lhe contar. Eu hoje morri. Morri e depois de morrer apercebi-me de que na minha proximidade se encontrava uma luz brilhantíssima que eu nunca tinha visto. Nem é possível descrevê-la.
«A senhora falava até muito bem», salienta.
- Não há maneira de dizer como era aquela luz. Só sei que ao ver aquela luz diante de mim, ajoelhei-me. Ao ajoelhar-me passou-se entre mim e a luz toda a minha vida. Tudo o que eu tinha vivido até agora, eu vi
diante de mim. Vi tudo! Desde criança, quando eu era jovem, coisas que nunca mais me lembrei que tinha feito. Vi-as com muita clareza, e sem poder modificá-las!... Era aquilo, com toda a força real, não podia modificar, nem podia dizer que não foi. Era aquilo! Comecei a
ver o mal que fiz, o que me dava uma tristeza profunda, mas também vi o bem, e isso dava-me uma alegria, uma felicidade enorme. À medida que me fui apercebendo que o bem que fiz era muito mais forte do que os erros que cometi, essa luz (que é que eu hei-de chamar-lhe?) dava-me alento, confiança, força. Ajudava-me. Estava tão feliz!... Vejo vir ao meu encontro os meus pais, meus irmãos já falecidos, outros familiares, vizinhos, amigos, vinham em trajes resplandecentes abraçarme.
Eu estava num estado que nunca tinha tido, nem imaginava que era possível ter. Ao mesmo tempo via a minha família aqui, junto do meu corpo. Enquanto isso, vejo entrar o senhor doutor. Não sei o que me fez, só sei que me tirou deste estado.
O médico ficou perplexo até hoje. Já lá vão nove anos. Este é um caso, entre tantos outros, de uma experiência próxima de morte (EPM). Nada mais do que um fenómeno que, hoje em dia, é cada vez mais
Alguém sofre, de súbito, um acidente fulminante. Na estrada, num hospital, e até na guerra. Está em coma e, em muitos casos, é considerado morto do ponto de vista clínico, durante alguns minutos. Esta,
depois de reanimada, conta as experiências que viveu. E descreve-as intensamente. Com fases diversas, comuns a outros casos, a EPM, em certas partes, é vivenciada com profunda lucidez. Por vezes, o ex-paciente fala de um túnel que percorre, com uma luz ao fundo. Ouve sons como campainhas ou uma música bonita, tranquilizadora. Descreve o encontro com o ser de luz, que não se comporta como juiz, mas como uma criatura amorosa e inteligente, até com sentido de humor, ou com familiares falecidos, e, com frequência, antes de passar a última e irreversível fronteira, diz-lhe essa luz que tem de voltar ao corpo.
Em profundo bem-estar, a ideia não agrada. Detectadas as características clínicas da morte, considerase a reanimação impossível passado um período de sete minutos, ou menos, sob pena de haver danos nos tecidos cerebrais. Mas algumas destas pessoas estiveram nesse estado sete, 12 e até 16 minutos.
observaram com detalhe a azáfama que rodeou a morte clínica do seu próprio corpo físico. E, contudo, não morreram.
* Dados fictícios para evitar transtornos para a família e demais pessoas envolvidas.
Texto: Jorge Gomesjorge.je(Qclix.pt

