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Super Interessante

Jornal de Espiritismo nº 20 · Janeiro 2007Página 87 min

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Crónica A hora final A revista SUPER INTERESSANTE (número 101, Set. 2006) publica um DOCUMENTO da autoria de M.A.S., sob o título em epígrafe e dividido em quatro artigos: O último suspiro (página 54), O cérebro moribundo (p. 58), Enterrados vivos (p. 62) e Como falar com os mortos (p. 66). Todos eles com muito interesse para o leitor, independendo da exactidão, ou não, de algumas interpretações aos factos apresentados.

Quanto ao artigo O último suspiro, reporto- -me à alucinação do moribundo que “viu” a esposa (já falecida, três anos antes) abra- çada pela filha de ambos, em lágrimas. Não descartando a hipótese de alucina- ção em situações semelhantes, bem mais plausível se afigura a explicação da doutrina espírita: o moribundo viu efectivamente o que descreveu como alucinação. Claro que não viu materialmente aquilo que já não tem expressão material, nem veria melhor se porventura apurasse mais o olhar físico.

Porém, teve a percepção visual da cena referida, não através dos olhos e do cérebro, mas sim de outros meios de percepção, em dimensão diferente da material. Estão sobejamente verificados e documen- tados casos de pacientes em estado de coma ou de anestesia geral, que, retornan- do desses estados à normalidade, relatam com precisão aos médicos e para-médicos por quem foram assistidos, cenas e con- versas que nunca poderiam ter visto ou ouvido fisicamente, pelo simples facto de se encontrarem naqueles estados, acima referidos, de absoluta inibição sensorial.

Ainda sobre moribundos: o cientista italiano de fins do século XIX, Ernesto Bozzano, dedicou pelo menos um livro ao registo e estudo de casos de aparição de parentes falecidos, no leito de morte. E passo ao segundo artigo, O cérebro moribundo. O que são as experiências próximas da morte? Podem ser reproduzidas em labo- ratório?, interroga o articulista. E demonstra bem que sim, podem ser reproduzidas pelo menos algumas, mediante adminis- tração de certos agentes químicos ou por estimulação eléctrica do lóbulo temporal.

A referência trouxe-me até à lembrança o famoso ensaio de Aldous Huxley “As portas da percepção/ Céu e Inferno”, que há uns 50 anos impressionou o mundo ao descrever as experiências psíquicas do autor, ingerin- do mescalina extraída dum cacto mexicano. Isso não invalida a perfeita realidade das visitas “ao Além” (a outras dimensões da Vida, dizemos nós os espíritas), sem ser por efeito de quaisquer substâncias químicas ou estímulos eléctricos.

Elas acontecem, também, não provoca- das por estados patológicos ou acidentes violentos. Por exemplo, em Lisboa, na Rua da Bica do Sapato, funciona (pelo menos funcionou por vários anos, depois de 1998) o Instituto Internacional de Projecciologia e Conscienciologia (www.iipc.org), que se ocupa do estudo e treino didáctico dessas “visitas” ou “viagens” – voluntárias, conscien- tes, sem utilização de agentes químicos ou eléctricos, mas tão só por meio de técnicas mentais.

(Creio-me insuspeito ao mencio- nar o I.I.P.C., já que este não tem qualquer relação com o movimento espírita, quer nacional quer internacional). No seu Livro Segundo, Capítulo VIIIEman- cipação da Alma, O LIVRO DOS ESPÍRITOS (Paris, 1857) elucida sobre o sono e os so- nhos, visitas espíritas entre vivos, trans- missão do pensamento, letargia, catalepsia, morte aparente, sonambulismo, êxtase, etc. O homem pode muito bem sair em espírito do seu corpo físico, temporariamente, e ver- -se fora dele observando-o como outro ser, distinto de si próprio.

Porque o homem não é o corpo: o seu ser real é o espírito ou alma imortal, que já vivia muito antes de nascer no corpo físico e lhe sobreviverá eterna- mente, após “a hora final”, desencarnado e/ou posteriormente encarnado de novo. Saídas temporárias do corpo físico são acontecimento comum e diário de todos nós, inconscientemente. A ocorrência consciente do facto é que ainda não é tão comum verificar-se. Junto ao texto do mesmo artigo, O cérebro moribundo, uma sarcástica legenda à foto- grafia de Shirley McLaine refere a conhecida actriz como líder “de uma pseudofilosofia…, um panteísmo reencarnacionista em que as almas saltam de um corpo para outro…”.

A ideia de reencarnação, crença milenar de grandes religiões, alastra e alastrará ir- reversivelmente a todo o planeta. Por uma razão muito simples: é uma lei da própria natureza. Assim a apresenta a doutrina espírita; e, posteriormente, também assim a verificam e documentam cada vez mais académicos de todos os países, quiçá mais notoriamente dos Estados Unidos. Por não poder alongar-me aqui, apenas cito uma passagem do já referido O LIVRO DOS ESPÍRITOS, 1857 (publicado dois anos e meio antes da ORIGEM DAS ESPÉCIES, de Charles Darwin): “…tudo se encadeia na Natureza, desde o átomo primitivo até ao arcanjo, pois ele mesmo começou pelo átomo”.

De entre a vasta bibliografia sobre essa matéria, menciono dois autores bem conhecidos de algum público português, sendo ambos professores universitários nos seus países: Ian Stevenson, que escreveu entre outras obras Where reencarnation and biology intersect (Westport, USA; Praeger, 1997); e Décio Iândoli Jr, autor de A reencarnação como lei biológica (FE Editora Jornalística, Ltda, São Paulo, Brasil, 2004). Décio Iândoli esteve de novo entre nós nas I JORNADAS DE MEDICINA E ESPIRITU- ALIDADE, em 14 e 15 deste mês de Outu- bro, no anfiteatro da Escola de Medicina Dentária de Lisboa (informações em www.

geb-portugal.org). O princípio da evolução biológica (hoje pacífico nos meios científicos, mas não desde longa data) quando surgiu foi desdenhado, proscrito e ridicularizado por eclesiásticos, por cientistas, pela popula- ção. Acontecer hoje o mesmo à teoria da reencarnação, que com aquele princípio se articula indissociavelmente, nada tem de relevante nem de admirar. Sem me deter no terceiro artigo, interes- sante e bem documentado como os dois antecedentes, com a possível brevidade vou abordar o último, Como falar com os mortos.

Quando nele se afirma que “todas as culturas falam de um Além misterioso”, concordo humildemente, na minha insi- gnificância; “…sobre o qual nada se sabe porque ninguém voltou para contar”, aí, também humildemente, não posso concor- dar: de facto, já se conhece muitíssimo a tal respeito, precisamente porque tem voltado muita gente para contar, e garantidamente continuará a voltar. A história da Humani- dade está repleta de menções (claro que também de fraudes, porém a existência destas não anula a veracidade dos casos autênticos).

Informação fidedigna às tone- ladas, literalmente, prolifera pelo Mundo e está ao alcance de quem quiser aceder-lhe. Uma questão de vontade, sem má vontade nem preconceito. Quanto a fraudes, os próprios espíritas são os seus primeiros e mais autorizados denunciadores, por absolutamente prescindirem delas a todos os títulos. Além da própria codificação espírita, menciono por exemplo o livro “Fraudes em Espiri- tismo”, da autoria de António Joaquim Freire, médico português, um dos eméritos fundadores da Federação Espírita Portu- guesa, em 1926.

Este último artigo da série de quatro, na SUPER INTERESSANTE, destoa do valor documental dos três anteriores, carecendo, ao contrário deles, da feição isenta e digna com que podia fazer jus às páginas da revista, mesmo discordando totalmente da doutrina espírita. O afã gratuito de despres- tigiar o Espiritismo dá abrigo a alegações e depoimentos há muito desautorizados, preferindo ao bom trigo o joio histórico das irrelevâncias.

Só o total desconhecimento da história e fundamentos do Espiritismo permite hoje alegar que ele se haja originado de “uma mãe assustadiça e um par de meninas brin- calhonas”. O pueril sofisma partiu do facto autêntico e indesmentível de que uma das irmãs Fox, muito depois de 31 de Março de 1848, se desmascarou e retratou publica- mente, no teatro da Academia de Música de Nova Iorque, revelando que as supostas “pancadas dos espíritos” (que entretanto alastravam por toda a América do Norte) não eram mais que o bater dos dedos dos pés das meninas, na beira da cama.

Parece incrível invocar tal “argumento”, apesar de histórico, omitindo o óbvio (e também histórico) motivo de tão dispa- ratada declaração, feita em público. Seria a mesmíssima coisa, argumentar que o Sol gira em torno da Terra… pois Galileu, que ousara sustentar o contrário, teve o “bom senso” de, a respeito, se desmentir e retratar publicamente. Não faltou aduzir o também histórico e não menos vazio argumento de “neutralizar” William Crooks, o génio da Física e também autor do livro “Factos Espíritas”.

Recordo que ainda no século XIX Fre- derico Engels aderia ao desafinado coro do preconceito antiespírita. Mostra o livro “Di- aléctica da Natureza” que não escaparam ao conhecimento do respeitado companheiro intelectual de Karl Marx as surpreendentes experiências laboratoriais que o então futu- ro Prémio Nobel de Física realizou, testando a exuberante mediunidade de Florence Cook. Engels contornou o problema (in- contornável para o materialismo dialéctico), aderindo sem hesitar ao alegado e nunca provado rumor de que existiria no laboratório uma porta secreta; esta permitiria a Crooks, ou falsear ele mesmo as experiências ou ser enganado pela sua cobaia humana.

Claro que nos últimos 150 anos se têm repetidamente comprovado, por vezes ostensiva e notoriamente, todos os fenó- menos que o sábio inglês submeteu à sua proba e rigorosa investigação; se tais provas são ou não convincentes para todos, é uma questão diferente. E face à doutrina espírita, os mesmos nada têm de milagroso ou so- brenatural, pois obedecem pura e simples- mente a leis da natureza, como sempre acontece e acontecerá debaixo do Sol.