Crónica Avó da prece Do tempo da minha infância recordo com alguma sau
Jornal de Espiritismo nº 21 · Abril 2007Página 143 min
Crónica Avó da prece Do tempo da minha infância recordo com alguma saudade os dias de Verão em que ia com a minha avó para a Levadinha, uma «tapada», quase paradisíaca, de terreno plano, casita de granito e um rio ao fundo. foto loucomotiv Saíamos de manhã de casa, a pé, atravessá- vamos a aldeia, eu a planear o que iria fazer o resto do dia e ela, direitinha e esguia, ves- tida de cinzento, saia bem rodada, avental e lenço na cabeça.
No braço, ou à cabeça, levava a cesta do almoçoenão só… Era de poucas palavras, mas tinha paciên- cia connosco. Por vezes o meu irmão ia também. O pior era que o caminho passava e passa rente ao muro do cemitério. Quando a caravana formada por nós os três, bem entendido… atingia o portão do cemitério ela dizia lá do lugar dianteiro cá para trás da fi la: - “REZA FILHA!” E calava-se. Eu não entendia lá muito bem aquilo… mas rezava – três ave-marias, que mais não sabia.
E sempre fi cava a magicar que raio tanto ela rezava, porque só voltava a falar connosco bem passadinho que estava o tal muro. O meu irmão olhava de lado para mim e… «bico calado»; ninguém o tinha mandado rezar a ele, não sabia sequer o que era e estava bem mais preocupado, nos seus cinco anitos vaidosos, em manter intacto o risco do cabelo penteadinho, por debaixo do chapéu que ela lhe tinha imposto, como coisa obrigatória… À noite, de regresso, lá estava o muro… mas como a chiada da carroça em que viajávamos com o avô abafava a possível ordem… a gente passava ao lado do muro e da reza… naturalmente!
Passou o tempo e a minha capacidade de análise infantil…também. Afi nal de contas, porque é que ela me man- dava rezar sempre ali? A vida sempre tem um cordelinho que, quando se puxa, nos traz para a luz da razão os mais pequenos e insignifi cantes gestos. Todos eles fazem parte desta sinfonia imen- sa que é o Universo. Há poucos dias fui à Levadinha e caminhei sozinha até à ribeira. A água cantava cristalina e borbulhante lavando as lajes de granito que encontrava no caminho; céu azul, troncos de amieiro debruçavam-se sobre a água, roçando-a e balançando-se na corrente.
Nas margens um grupo de cegonhas debicavam na erva húmida e, naquele silêncio, orei. Não numa prece feita, de resto não existe para aquele caso (que eu saiba), mas olhando para o céu transparente para a beleza daquele lugar, um sentimento de louvor e agradecimento elevou-se até ao Criador, pela paz daquela hora, pela minha capacidade de o sentir e o gravar na alma, transformando o meu dia. Foi um momen- to único e creio que foi para aí que Jesus apontou quando esteve na Terra.
Com a Doutrina Espírita aprendemos que, com a prece podemos pedir, louvar e agra- decer e que ela se projecta contagiando tudo o que nos envolve. Aquela velhinha iletrada sabia, intuitiva- mente, que, se rezasse, algo se modifi cava dentro dela; mas é que modifi cava mes- mo!... Preciso é, porém, que cada um de nós, dentro de toda a pesquisa que temos ao dispor, espiritualizemos as bases que os nossos avós nos deixaram, porque, um dia, havemos de os encontrar de novo, disso eu tenho a certeza, e aí ajudá-los a seguir em frente, permutando saberes, rumo à felicidade.
Um sentimento de louvor e agradeci- mento elevou-se até ao Criador, pela paz daquela hora, pela minha capacidade de o sentir e o gravar na alma, transformando o meu dia Quanto ao muro, está lá, no mesmo sítio e, quando lá passo ainda ouço aquela voz: “- REZA FILHA!” Já não entro em mudez forçada, mas apro- veito para agradecer a Deus ter-me dado uma avó que martelava «prece» na minha cabecita infantil. Depois elevo para ela um imenso sorriso de gratidão e de saudade.
Hoje sei porque rezo, com a diferença de que já não preciso de muros de cemitério; tudo depende da nossa sintonia com o alto e essa não tem a ver com pedras sobrepos- tas nem frases-feitas, antes com sentimen- tos e fé. Texto: Amélia Reis www.adeportugal.
