21 — índice de conteúdos

Crónica Vida antes do parto O feto terá consciência de estar a ser abo

Jornal de Espiritismo nº 21 · Abril 2007Página 1310 min

Partilhar
Idioma

Crónica Vida antes do parto O feto terá consciência de estar a ser abortado? Parece que sim, segundo as evidências. Diante de quaisquer dúvidas, uma coisa é certa: neste ponto, a ciência oficial ainda usa fraldas. A vida intra-uterina diz respeito à vida do bebé antes do parto. E quando se deci- de sobre a morte desses seres ou dessas pessoas através da ampliação da chamada legalização do aborto, seria bom per- guntar-lhes a esses mesmos fetos se têm sentimentos de alegria ou dor, enfi m, se têm consciência do drama que atravessam antes, durante e após o aborto.

Há factos que dizem que sim, que há um registo emoldurado por reacções conscien- tes. Esta abordagem vai por aí. Perguntar ao feto e esperar dele uma resposta, isso não será possível, pelo menos entendido à letra, já que ele não pode falar por órgãos que ainda não estão formados. Isso, porém, não quer dizer que ele não pense, sinta e tenha maior ou menor cons- ciência do que se passa com a sua mãe e à volta dela. Logo à partida, a telepatia, que segundo o espiritismo é independente da utilização do corpo físico — a transmissão de emoções entre mentes encarnadas ou desencarna- das — é um fenómeno presente.

Nessas condições de ambiente intra-uteri- no há como que uma atmosfera telepática recíproca e afi m entre mãe e fi lho. Este é um dos dados de peso, mas só por si de pouco adianta. Avião não! Por onde vale a pena avançar é por aquilo que permite aferir a dimensão de consci- ência que o feto tem, inclusive no primeiro mês de gestação. Isto, no mínimo pode parecer inesperado. Estamos a falar, por exemplo, dos médicos e psicólogos que usam regressão de memó- ria para localização e tratamento das causas traumáticas de transtornos actuais.

Falámos com um amigo com larga ex- periência. De memória, falou: «Este meu paciente é engenheiro. Procurou-me por- que a fi rma onde ele trabalha o informou de que teria de vir a fazer algumas viagens intercontinentais. Até então não precisara de resolver o problema. Pelo compromisso profi ssional, resolveu procurar uma terapia e solucionar esta difi culdade, que o fazia deslocar-se de autocarro até para cidades distantes, mas nunca de avião.

Mostrando a consciência do feto já na vida intra-uterina, ele vivencia, numa terceira regressão da terapia, um episódio traumático no 3.º tri- mestre da gestação, precisamente quando a mãe se deslocava aos EUA para ir ter com o marido, que ali concluía um doutoramen- to (estava a viajar sozinha de avião). Num dado momento da viagem houve uma turbulência que perturbou os passageiros, preocupando-os. Eamãe do meu pacien- te, por estar só, talvez mais fragilizada, ela vivenciou esse episódio como um evento muito traumático.

Vivenciou pavor, um medo associado a momentos catastróficos. E pensava, por exemplo: «Eu nunca deveria ter feito esta viagem»; «Eu deveria ter fi cado em casa»; «Nunca mais vou viajar de avião se sobreviver a isto»; «Meu Deus! O meu fi lho e eu vamos morrer!». Estes O meu fi lho e eu vamos morrer!» . Estes O meu fi lho e eu vamos morrer!» pensamentos tão catastrófi cos em relação a nunca mais viajar de avião, o meu paciente associou-os ao pavor que ela vivenciava na- quele momento.

E o feto, naquela ocasião, registou com intenso conteúdo emocional essa experiência no próprio inconsciente». Durante a «anamnese* que fazemos no início chamou-me a atenção ele, desde pequenino, aos três anos, já não gostar de aviões. Chorava, fi cava mal. E, aos cinco anos, quando a família fez uma viagem ao Nordeste brasileiro, de avião, ele causou problemas tão grandes que a família percebeu (especialmente a mãe): «Olha, não temos mais condições de viajar com ele!

Temos que respeitar isto. Ele realmente tem medo de aviões». Veja: ele já trouxe tem medo de aviões» . Veja: ele já trouxe tem medo de aviões» para esta vida um registo em relação a essa difi culdade. Então, num momento da vida intra-uterina, associou uma decisão da mãe como sendo a dele próprio (porque a mãe mais tarde voltou de avião com o pai, e soube que ela não levou a cabo as decisões «Nunca mais vou andar de avião», isso foi «Nunca mais vou andar de avião» , isso foi «Nunca mais vou andar de avião» só no momento de desespero; mas quando ela estava mais protegida com o marido, ela viajou tranquilamente, até esqueceu esse episódio traumático; porém, o feto fi cou lá com aquele registo)».

Entre outros, este é um exemplo da vida que os bebés têm antes de nascerem, e que em adultos podem relembrar a partir do inconsciente. Eles registam, eles sentem, eles percebem os eventos. «Este pacien- te observou a etiologia deste padrão de comportamento que vinha repetindo, quer dizer, tudo isso nasceu na vida intra-uterina: «Eu não posso viajar de avião, porque é perigoso!». «Depois, ele trabalhou a redecisão e utilizou a ponte aérea (que são voos rápidos São Paulo/Rio de Janeiro de uns 40 minutos) e foi um processo gradativo de dessensibiliza- ção, empregando as redecisões até vencer essa difi culdade de viajar de avião.

Disse- me depois: «Poça! Isso vem da minha vida intra-uterina!...». Naquela altura confi rmou intra-uterina!...» . Naquela altura confirmou intra-uterina!...» esse facto com a mãe, porque ele não sabia. Tinha 28 anos, a mãe nunca lhe tinha falado nisso. Perguntou à mãe, e ela recordou-se: «Lembro-me, estava só», e relatou a experi- «Lembro-me, estava só», e relatou a experi- «Lembro-me, estava só», ência traumática da ida, que não aconteceu na volta, com o marido».

Queriam uma menina... A partir de que dia ou mês o feto se torna sensível e consciente? «Não sei dizer a partir de quando existe consciência no feto», afi rmou este psicólogo. Recorda-se de mais um caso: «Estou a lembrar-me de um outro paciente que estava a trabalhar um transtorno. A queixa inicial dele era uma difi culdade de relacio- namento com as pessoas mais próximas, especialmente os pais. Ele sabia que era homem, tinha consciência disso, mas, por outro lado, sentia que as outras pessoas gostariam mais dele se ele fosse mulher.

E era um confl ito incrível na cabeça dele que se desdobrava no dia-a-dia. Na regressão, vivencia uma situação também traumática na vida intra-uterina, em que, com pouco mais de um mês de gestação, quando a mãe descobre estar grávida, ela diz ao pai: «Nós vamos ter a nossa fi lha, a menina que sempre quisemos ter!». E, desde o início, sempre quisemos ter!» . E, desde o início, sempre quisemos ter!» a expectativa de ter uma criança de sexo oposto ao dele foi muito vincada pelos pais: «A nossa fi lha vai-se chamar assim...

». Eles «A nossa fi lha vai-se chamar assim...» . Eles «A nossa fi lha vai-se chamar assim...» tinham tanta certeza de que iria nascer uma fi lha que nem fi zeram ecografi a. Haviam criado uma expectativa tão grande que, para eles, era facto consumado virem a ter uma menina». E «ele vivencia essa expectativa equivoca- da: «Mas eu não sou uma menina! Eu sou um menino! E como é que vai ser, se eles estão à espera de uma menina e eu sou um menino?

». «O meu sexo não é o que eles esperariam que fosse». «Eles gostariam mais de mim se eu fosse uma menina». Esse padrão fi cou inserido. Ele teve essa impressão em relação às pessoas até na infância, na adolescência e na idade adulta. Aquela sensibilidade «será que as pessoas me vão aceitar quando elas souberem que sou um menino?» passava-se também na idade adulta, mesmo que isso não existisse concretamente, mas ele tinha a impressão de que, se fosse mulher, as pessoas iriam gostar mais dele».

Entretanto, «o meu paciente trabalhou outras difi culdades relacionadas com os pais. Então percebeu, em outras vidas, situações em que ele foi algoz, não foi a vítima, e causou sofrimento aos pais. Claro que não podemos atribuir a culpa aos pais. Existem causas. Várias causas para o mesmo efeito. Mas este é mais um exemplo de um episódio traumático vivido pelo feto. Essa regressão à vida intra-uterina mostrou que ele registou os sentimentos dos pais».

Porque na vida intra-uterina podem suceder acções que causem traumas ou que reforcem padrões de comportamento defi nidos no passado remoto, e que vertam mais tarde como transtornos psíquicos na fase adulta da pessoa em causa. Aborto? Não aborto! Da experiência clínica vão surgindo memó- rias, como as cerejas que sempre que se puxa uma, outra vem atrás. Mesmo que o aborto não chegue a acon- tecer, a hesitação da mãe, ao desejá-lo ou não, pode ser traumática: «Uma mãe des- cobriu a sua gravidez antes de estar casada e, na regressão, o feto vivencia a dúvida da mãe: «Será que faço o aborto?

Será que não o faço? Será que me caso ou não?». E o feto o faço? Será que me caso ou não?» . E o feto o faço? Será que me caso ou não?» a registar isso... pedindo à mãe telepatica- mente (ele não poderia comunicar-se de outra forma) que não fi zesse aborto, que ele queria essa oportunidade de vir...». Este caso «foi muito interessante! Olhe o que acontece: ela tenta fazer aborto através de uns chás, de uns medicamentos.

Não consegue. Essa criança luta para viver, resiste quanto pode a esses chás. A criança, o feto, com sentimento, diz em plena re- gressão: «Eu preciso de viver. Eu preciso de viver!». E comunicava-se telepaticamente viver!» . E comunicava-se telepaticamente viver!» com a mãe para ela não o abortar, que era importante essa experiência para os dois, mesmo que não houvesse o pai; que am- bos tinham uma experiência importante.

E vivencia, ao regredir à origem do trauma, essa dúvida materna, sem que pudesse fazer algo para interferir o que podia era comunicar emocionalmente com a mãe. E é interessante que, mais tarde, essa criança nasce. Essa criança vem para equilibrar uma vida absolutamente desregrada que a mãe tinha, como se através desse fi lho a progenitora tivesse com isso um aprendi- zado muito importante que reformulasse a qualidade da vida dela».

Mas «O feto naquela ocasião sabia isso. Era importante que ele vivesse para que ambos pudessem ter uma experiência positiva juntos. Só que a mãe não sabia». Neste caso, «na anamnese disse-me este paciente: «Eu, com sete anos de idade, tra- tava da minha mãe. Preparava-lhe comida, levava-lha», uma coisa que não é peculiar levava-lha» , uma coisa que não é peculiar levava-lha» aos fi lhos. Ele agia como se fosse pai. Esta pessoa vivenciou uma angústia muito grande pela dúvida da mãe, e por estar entregue à decisão da mãe: «Faço aborto ou não?

». Quando essa decisão não a envol- ou não?». Quando essa decisão não a envol- ou não?». ve só a ela, mas também à vida que já se manifesta dentro dela». Amar o feto O feto grava sobretudo as emoções ma- ternas. Se a gestante produzir sentimentos felizes, o bebé sente-se apoiado no proces- so de nascer: «Cultivar a relação carinhosa desde o início da gestação, conversar com o bebé. Ele compreende a mãe, compre- ende o pai.

Os pais podem experimentar. É comum as mães dizerem: «Quando o pai chega do trabalho, o bebé agita-se aqui na minha barriga, como se o reconhecesse: O pai está a chegar!». «Quando o pai toca na minha barriga, o bebé reage. Quando outro toca, não reage». Existe um reconhecimento da criança na vida intra-uterina em relação aos pais. O meu conselho, especialmente às mães (mas também aos pais), é estabelecerem um relacionamento afectuoso através de conversas carinhosas: «Estás a ser muito bem esperado; vais chegar aqui para uma vida em conjunto, e temos muito a apren- der e a desfrutar juntos, temos muito a conviver», através de um contacto amoroso, conviver» , através de um contacto amoroso, conviver» carinhoso, para que essa mesma dinâmica da relação se possa propagar na primeira infância, na adolescência, na idade adulta, porque essa relação pode ser estimulada, exercitada desde o início da gestação».

Feitas as contas Bom, deixemo-nos de rodeios: o espiritismo afi rma que abortar é um erro. Em casos extremos, recomenda a hipótese de abortar quando a vida da mãe tivesse de ser sacri- fi cada. Algo que agrava o drama de quem prati- ca o aborto e de quem o sofre é a dor de consciência que deixa marcas, e muito mais quando se sabe que, quem não quer ter fi lhos, tem outras soluções, sendo a mais fácil de todas, sem dúvida, o uso sensato de anticoncepcionais.

Estão ao alcance de todas as bolsas, são bastante seguros e, se não o forem, a vida apoia quem a recebe com amor. O dogma materialista que afi rma que sem cérebro não há dor cada vez mais deixa de ter sentido. Menos sentido tem quando se sabe que o corpo é o efeito de um corpo espiritual, sensível e inteligente, que mais não é do que o molde etéreo do espírito reencarnante. * A anamnese é uma fase do tratamento psicoterapêutico em que se recolhe dados exaustivos sobre a história do paciente, seus antecedentes familiares, etc.

Texto: Jorge Gomes (texto revisto da autoria do autor quando assinava como Fernando Pereira noutro periódico: «Revista de Espiritismo», Julho/Setembro de 1998).