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Entrevista comportamentos plenos de misticismo, como é comum ocorrer e

Jornal de Espiritismo nº 21 · Abril 2007Página 78 min

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Entrevista comportamentos plenos de misticismo, como é comum ocorrer em determina- das associações espíritas aqui no Brasil e alhures. Como dissemos, uma pessoa com transtorno mental está predisposta à acção dos obsessores; neste caso, a obsessão não seria “causa” de Doença Bipolar e sim oportunismo dos obsessores, embora seja importante lembrar que para que haja ob- sessão é necessário ocorrer sintonia entre Espíritos...

Que proposta a doutrina espírita apre- senta para a doença bipolar? IJT – Salvo engano, não há nenhuma refe- rência específi ca à Doença Bipolar, mesmo com outra denominação, na Doutrina dos Espíritos. A Espiritualidade Maior faz refe- rências genéricas à “loucura”, afi rmando que no suicídio por loucura, “o louco não sabe o que faz”, isto é, na loucura a pessoa perde o controle do livre-arbítrio e é o que aconte- ce, tanto na depressão quanto na mania e as leis terrenas prevêem este aspecto, tanto do ponto de vista cível quanto penal.

Assim, não há responsabilidade nem imputabili- dade no ato de uma pessoa com Doença Bipolar em “crise” e a Lei Divina também é Misericordiosa nestes casos, onde existem atenuantes para o suicídio consumado. Como médico psiquiatra, como analisar os pacientes com transtornos Manía- co-Depressivos: de um ponto de vista meramente médico ou médico-espírita? IJT – Os transtornos maníaco-depressivos analisados do ponto de vista puramente médico-psiquiátrico, isto é, biológico, sem os subsídios do princípio espiritual, revela- -nos uma doença que altera o funciona- mento das aminas cerebrais na transmissão do impulso nervoso das células cerebrais (neurónios).

Assim, a substância serotonina (uma amina cerebral) estaria funcionalmen- te em menor actividade nas sinapses (local de conexão dos neurónios). Do ponto de vista, meramente psicológi- co, a depressão seria uma perda da líbido objetal, com a consequente regressão a fases do desenvolvimento infantil, onde os objectos maus são introjectados levando à perda da auto-estima. A mania seria um mecanismo de defesa contra a depressão, seria o “sorrir para não chorar”, assim é vista pelos psicanalistas, mas na realidade há uma alegria verdadeira na Mania...

O maníaco não transmite uma falsa alegria, que nos faça pensar em um disfarce para encobrir a depressão... Do ponto de vista psicológico-existencial haveria uma alteração fundamental da vivência do tempo – na depressão seria uma “atrofia no porvir” e na mania, existe uma “atomização do tempo vivido”. Do ponto de vista médico-espírita a Doença Bipolar – como todas as doenças mentais de carácter essencialmente genético-constitu- cional – é um compromisso reencarnatório de reajuste; não haveria propriamente a evolução do Espírito, nem involução (que nunca ocorre), e sim, estagnação, seme- lhantemente ao que ocorre nos casos de retardamento mental.

Como distingue se os seus pacientes têm problemas neuropsicológicos ou de foro espiritual ou ambos? IJT – Os problemas neuropsicológicos con- duzem a uma sintomatologia e evolução típicas, revelando muitas vezes disfunções do Sistema Nervoso Central (SNC), que podem ser detectados através de exames especializados, denotando a organicidade deles. Quando se trata de um problema so- mente espiritual, o que é raro, além de não haver tipicidade dos sintomas conhecidos das doenças, não há lesões nem disfunções cerebrais e a história dos “problemas” são muito úteis em cada caso, pois a vida espiri- tual de um indivíduo é personalíssima.

Se o problema afectar tanto o orgânico quanto o espiritual – o que é frequente para aquele que, como nós, analisa o homem como um todo biopsicossocial e ESPIRITUAL -, iremos observar a história da doençaea biografia do indivíduo , incluindo sua vida espiritual, naquilo que ele tem de projec- to-de-vida. Enfim, enquanto a Psicanálise está preocupada em buscar o passado do indivíduo, interessa-nos como psiquiatra- espírita a prospecção, os projectos, o futuro da pessoa.

Há um adágio que diz: “o futuro a DEUS pertence”. Não é bem assim. Ele é par- cialmente verdadeiro, porque não podemos prever o que acontecerá no futuro, mas os projectos de uma pessoa darão o sentido de vida dele; por exemplo, dirão o que um indivíduo tem realizado do ponto de vista espiritual, tanto no Bem quanto no Mal, sem maniqueísmos, é claro! Como conduz esses casos? IJT – Procuramos conduzir os casos sempre aliando o nosso conhecimento de Psiquia- tria ao legado kardequiano e literatura con- génere, séria.

Temos alguns casos em que tratamos medicamentosamente pessoas, que se sentiam à vontade para falar de suas mazelas espirituais e a quem recomenda- mos frequentarem Centros Espíritas sérios e lá, assistindo palestras, recebendo passes e, eventualmente, sendo aplicado o eventual processo de desobsessão, aconteceram resultados surpreendentes para aqueles que não admitem o princípio espiritual ou que negam a materialidade de determinadas doenças; estes confundem “materialidade das doenças” com “materialismo”, que é muito diferente...

Aconselha os seus pacientes a frequen- tar uma associação espírita idónea, quando necessitam? IJT – Sim, é isso que fazemos quando o paciente e a família admitem o credo espírita. Quando não acreditam, respeita- mos a crença deles, mas mesmo assim não deixamos de abordar os aspectos espirituais envolvidos na vida do paciente e da família, genericamente, apontando sempre, opor- tunamente, a realidade da vida espiritual depois da morte, o porquê de estarmos encarnados, a imortalidade da alma e a importância da prática do Bem.

Viver a mensagem de Jesus será a “vaci- na” para a doença bipolar? IJT – Até certo ponto, sim, porque o mestre JESUS em sua encarnação na Terra deixou- nos um admirável exemplo de condução de vida, com a prática do Bem e da caridade bem compreendida, sem concessões aos Espíritos maléficos. Mas, não basta repetir, como ele mesmo disse, “Senhor! Senhor!” para alcançar o “Reino dos Céus”. É preciso VIVENCIAR a mensagem de JESUS, o que é muito difícil para nós, encarnados, inferiores.

Conhecemos algumas pessoas, que têm o nome de JESUS nos lábios, especialmente, quando fazem uma “prece”, porém, a vida quotidiana delas é totalmente contrária à exemplificação do mestre JESUS. Que mensagem deixaria a mais de 1 milhão de portugueses portadores doença bipolar, também designada por doença maníaco-depressiva? IJT – A nossa mensagem não só aos portu- gueses, mas também aos leitores da Europa, em geral, que são afectados pela Doença Bipolar ou Psicose Maníaco-Depressiva é, em primeiro lugar, que não se desespere, procure um médico, psiquiatra, de preferên- cia espírita, para que alcance uma qualidade de vida melhor, especialmente nas inter- relações familiares e não deixe de seguir as prescrições do seu médico.

Sabemos que este conselho a um maníaco não teria muito sentido, pois ele não tem noção do próprio estado mórbido, isto é, não se julga doente, mas o conselho serve para os seus familiares, também. Procure fazer reflexões constantes sobre o sentido de sua vida e seus projectos existen- ciais, quando atingir o “período lúcido”, ou seja, na interfase da doença. Seja resignado, porque a vida corporal é um breve período ante a imortalidade da alma.

A doença de hoje, provavelmente, tem razões pretéritas e ela pode representar a acção da Providência Divina para futuras aquisições espirituais, imperecíveis. Ao deprimido, sugiro que busque ajuda, quando pensar em suicídio, pois o sofrimen- to depois da morte será muito maior se tal ideia se concretizar (leia-se, por exemplo, a segunda parte do livro “O Céueo Inferno – A Justiça divina segundo o Espiritismo”, de ALLAN KARDEC, referente aos suicidas).

Ao maníaco, que busque ajuda (mesmo que julgue não ser necessária) quando perceber (ou sua família perceber) que está vivendo como se a vida não tivesse obstáculos e que esteja excessivamente alegre, com o humor muito elevado. A vida é para ser vivida com obstáculos e com o mérito de ultrapassá-los, é esta a razão principal da nossa encarnação – aprendizado para evolução. Doente Bipolar Virgínia Pinto, tem 41 anos, é da cidade do Porto e é doente bipolar.

Aluna do Curso Básico de Espiritismo (CBE) no CECA – Centro Espírita Caridade por Amor. - Quando descobriu que era doente bipolar? Em 2001 foi diagnosticada a doença. Tive depressão pós-parto em 1991. E aos 9 anos de idade tentei suicidar-me. - Para si, o que é ser doente bipolar? É ter um rótulo. E por isso as outras pessoas reagem de forma diferente. - Que sintomas apresenta? Alterações de humor. Tanto se está feliz como muito triste, muitas vezes sem razão aparente.

Quando se está feliz podem cometer-se excessos do tipo gastar dinheiro sem pensar se se pode ou não. Quando se está muito triste é muito fácil pensar em suicídio. O pior é conseguir não o concre- tizar. - Como lida com uma crise? Depende. Na fase alta (gastar muito) é o meu irmão que controla as contas e os cartões, nem que queira, não posso gastar. Na fase depressiva ou durmo e deixo passar a má fase, apoio-me na família ou penso em coisas boas e que aquilo é a doença, não sou eu.

- Leva uma vida normal? Sim, o mais normal possível. - Como teve contacto com o Espiritis- mo? Desde miúda ouvia falar. Tinha conheci- mento que havia pessoas “especiais”. - O que a levou a um centro espírita? Estar doente. No fundo recusava-me a acei- tar o que me diziam os médicos. - Conclui o CBE sem faltas. Gostou? Gostei. Aprendi muito. E percebi que, para além de preguiçosa, ainda me falta muito para aprender. - Que retrospectiva faz antes e depois da conclusão do curso?

Antes, andava um pouco perdida, em busca mas não sabia do quê. Depois, aprendi que tudo depende da forma como penso, e não dos outros. As coisas acontecem porque “eu quero” e para eu melhorar. - Vai continuar a estudar e a frequentar os outros cinco cursos que o CECA lhe oferece gratuitamente? Claro. Ainda estou na primária. - A doutrina espírita trouxe-lhe algo de útil para a sua vida? Imenso. Para além de respostas, abriu-me o horizonte.

Que expectativas aguarda relativamen- te ao espiritismo? Muito trabalho. Ainda tenho muito que aprender. Texto: Luís de Almeida * Professor de Psicopatologia e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, coordenador há mais de 10 anos do Curso de Pós-graduação Lato sensu de Psiquiatria, denominado Curso de Especialização em Psiquiatria, escritor, articulista.