Um olhar Crónica Dependendo da situação que nos ocupa a mente e nos do
Jornal de Espiritismo nº 22 · Maio 2007Página 145 min
Dependendo da situação que nos ocupa a mente e nos domina dúvidas e pensamentos o Espiritismo pode comparar-se a um cristal lapidado; observamo-lo com atençãoehá-de sempre haver dele uma faceta que brilha para nos consolar.
Uma das questões que se põe à humanidade é, pelo menos ao que julgo, a diversidade de situações sociais, de riqueza, pobreza, inteligência ou apatia, ânimo ou desânimo, fracasso ou sucesso. Se não fosse à Doutrina Espírita poderíamos considerar-nos gente bem estranha e sem rumo. A explicação para essas assimetrias encontra-se na lei da Reencarnação e na Pluralidade dos Mundos Habitados. Ponto assente: a nossa Terra é, digamos, um mundo menos feliz.
André Luiz, nomeadamente em «Nosso Lar», abre luzes sobre mundos mais felizes do que o nosso. Por ali tudo é harmonia e dá «direito» ao sonho e à fantasia. De vez em quando, explica Kardec, aparecem por estes lados brumosos (...) almas que trazem outras experiências, outros saberes, para nos animar e empurrar para a frente. Os testemunhos que nos deixam, tanto pela sua própria vida, como pelas obras de arte que realizam, vistos com atenção, podem arrancar-nos à desilusão e levar-nos a, pelo menos, olhar a vida com outros olhos.
Foi o que nos aconteceu ao visitar Barcelona. Ao início a cidade parece uma cidade de brincar, de magia, boa para criança se deliciar. Quase em cada canto aparece o inusitado, o irrealista, fachadas que lembram oceanos, tectos que balançam como o mar sereno quando o sol lhe bate. Parece que alguém teve acesso a uma porta secreta que lhe abriu a possibilidade de moldar como plasticina os materiais duros da Terra. Jogos de cor e luz que não são de gente como nós nem parece caberem na cabeça de ninguém...
mas couberam! Couberam na imaginação de António Gaudi, que levou a vida inteira entregue a um sonho e o materializou por ali. É interessante analisar o modo como trabalhava e, daí, o encanto e a projecção do génio.
— Dizorroteiro da sua obra, referindo-se ao Templo da Sagrada Família: - «Gaudi não
'planmcava o seu desenho com antecedência, criava, à medida que a sua imaginação o
= uemmardeféem cada uma das pedras utilizadas na construção.» indo-se à remnstruçao dacasa Badó Gaudi escreveu: «<As esqumas desaparecerão
Era sensível e mostra-o em toda a sua obra, às plantas e aos animais, num tempo em que a preocupação com a natureza andava ainda um pouco diluída.
Vivendo durante muitos anos com o pai numa moradia dum parque perto da cidade, mudour-se, até ao fim da vida para o Templo da Sagrada Família para melhor acompanhar as obras.
«Instalou-se num espaço reduzido ( diz o roteiro), sem luxos nem nada, repleto de mapas e maquetas do projecto que o obsessionava. Quem o conheceu assemelhava-o à um monge, a um profissional entregue à Obra de Deus. Não se enganavam; um dia de 1926, saiu da sua reduzida morada para não voltar. Encontrou a morte atropelado por um bonde. Levava roupa tão humilde que ninguém o reconheceu até muitas horas depois.»
Parece que alguém teve acesso a uma porta secreta que lhe abriu a possibilidade de moldar como plasticina os materiais duros da Terra
Observando o colorido, o inesperado, o encanto e a majestade da obra de Gaudi, cabe lembrar que os Espíritos nos dizem que este nosso Mundo é uma cópia tosca e imperfeita dos verdadeiros mundos para que Deus nos criou e aí os vitrais e jogos de luzes do arquitecto catalão acabam por arrancar aos espíritas um sorriso... ou uma lágrima... depende!
Quanto às torres da Sagrada Família, lá estão. .. inacabadas, rodeadas de gruas, lembrando estalagmites num esforço para encontrar o céu.
Fazem lembrar (pode ser imaginação), as torres do Edifício da Governadoria, desenhado mediunicamente por Heigorina Cunha e referente à cidade espiritual «Nosso Lar». Quem sabe... se quando as gruas forem retiradas, a Terra não será já um mundo de regeneração e tudo seja poesia naquele espaço, realizando o sonho de Gaudi. Quer-me parecer que ele anda por ali (...), rondando a obra.
Mas, não fiquem tristes os que leram este texto até ao fim pelo facto de ser tudo uma «espanholada»!
Nem tudo, porque à porta da casa onde Gaudi viveu mais de vinte anos, está num nicho, com lanterna e tudo, à boa maneira portuguesa, um Santo António de Lisboa à que não falta o Menino eaaçucena.
O melhor guarda-+redes do mundo
E sempre o primeiro a chegar eoúltimo a ir embora. É o mais entusiasta, o mais empenhado, o mais combativo da minha equipa de jovens jogadores de xadrez. É o Eugénio. Tem 13 anos, é simpático, bem-humorado e inteligente. Uma negligência médica durante o parto fê-lo ficar com uma deficiência motora que lhe atinge o lado esquerdo do corpo. Coxeia acentuadamente, e tem pouco equilíbrio.
Tenho vindo a conhecê-lo aos poucos. No final dos treinos costuma desafiar-me para uma partida, pois já percebeu que nessa altura estou cansado e é mais fácil ganharme. À sua argúcia e vontade de vencer só rivalizam com o seu impecável desportivismo. É um miúdo fora de série
O físico delicado e o temperamento afável contrastam com a garra que sabe mostrar quando é preciso. Faz-me sempre lembrar o seu homónimo Gene Vincent, pioneiro e figura emblemática do rock'n'roll, que também parecia ter em si duas naturezas. Com o seu pulover branco e ar de menino bem comportado, era à imagem da doçura. Com a camisa negra, em cima do palco, transmitia uma energia indomável que arrastava multidões. Também coxeava, o Gene Vincent. Essa característica contribuía para a composição da sua imagem de palco, e fazia as raparigas entrár em euforia.
Um destes dias durante uma das habituais partidas de xadrez com o Eugénio, falávamos da sua ambição de vir a ser técnico de futebol, talvez de vir a treinar o Benfica. À conversa ia amena e bem-disposta, como de costume, mas eis que os olhos se lhe enchem repentinamente de lágrimas, que começam a cair copiosamente sobre o tabuleiro de jogo. Confessa-me que, antes de ser técnico de futebol, o que mais queria era jogar futebol! E não pode. Entre soluços, com a frontalidade dos seus 13 anos, pergunta-me porque é que Deus permitiu o que lhe aconteceu.“Eu só queria poder jogar futebol!”
Estou gelado. Estou gelado por dentro e por fora. Respondo que acho que Deus tem uma razão para tudo o que faz, mesmo que nós não a entendamos à primeira. Talvez ele esteja temporariamente a lutar com uma dificuldade, como um futebolista que se oferece valentemente para jogar, mesmo lesionado.
Ele baixa a voz e olha em volta:
— Eu acho que nós vivemos várias vezes
— sussurra — mas tenho medo de vir sempre assim, com esta deficiêncial!...
