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Jornal de Espiritismo nº 23 · Julho 2007Página 124 min
Crónica PUBLICIDADE E o Robin dos Bosques? Seria o Robin dos Bosques cleptomaníaco? É difícil garantir que sim, ou que não. Entretanto, o que dizer sobre isso à luz da doutrina espírita? Segundo uma definição de dicionário, cleptomania é a incapacidade recorrente de resistir ao impulso de furtar objectos sem utilidade imediata ou valor monetá- rio; o indivíduo sente uma tensão interior crescente antes de cometer o furto; em seguida, enquanto o pratica, é tomado por uma sensação de alívio ou prazer que não consegue justificar.
O furto é planeado, e no momento o indivíduo não pensa nas suas consequências sociais, embora mais tarde possa sentir ansiedade e depressão pelo receio de ser apanhado e pela consciência da sua doença. É uma perturbação rara. A cleptomania é normalmente sinal de uma personalidade imatura e perturbada. Pode manifestar-se ainda em formas iniciais de demência ou lesão cerebral orgânica.* Casos em pauta Eis dois casos de que tivemos conheci- mento.
O primeiro aconteceu numa loja de mobiliário e decoração com uma senhora chamada Maria, enquanto o segundo é da época do final da adolescência de Manuel. Ambos os nomes são fictícios. Maria ia com bastante frequência a uma loja, onde gozava de grande estima e respeito. Prestável e educada, era esposa de um dos fornecedores do proprietário. Ela ia lá com regularidade e ninguém suspeitava dessas visitas. Tinha sempre um comporta- mento normal e por vezes comprava, mas outras não.
O insólito aconteceu quando um dos fun- cionários avisou o patrão que tinha visto a dita senhora a colocar dentro da mala uma chávena de colecção que se encontrava numa prateleira. O dono da loja disse que era impossível e que talvez ele tivesse visto mal porque ela não precisava roubar, se quisesse a chávena tê-la-ia comprado. O certo é que a chávena tinha desaparecido e aos poucos as outras chávenas da colecção também foram desaparecendo.
Então, o dono da loja achou melhor conversar com o marido de Maria e contou-lhe o que o empregado tinha visto. João, marido de Maria, confirmou-lhe as suspeitas, disse que a sua esposa sofria de cleptomania e já não era a primeira vez que tirava objectos das lojas das pessoas que ele conhecia. Disse-lhe também que ela tinha acompanhamento clínico e prontifi- cou-se a pagar todos os objectos roubados. Somente lhe pediu para nunca falar sobre isso directamente a Maria e que sempre que acontecesse novamente falasse so- mente com ele.
Outro caso é o de Manuel, um jovem rapaz entre os 16 e 17 anos, uma pessoa usual- mente divertida. Mas havia algo de estranho com ele, pois apesar de os pais não terem grandes pos- sibilidades e terem muitos filhos, o Manuel era o único que andava com frequência de roupa nova. Além disso, levava a toda a hora para a escola canetas e cadernos novos. Os amigos achavam estranho mas sabiam que quando ele entrava nas lojas não resistia a trazer “recordações”.
Sempre que entrava numa papelaria trazia canetas, sempre que ia a uma loja de música trazia discos e cassetes, dos supermercados cho- colates e tudo o que dava para meter nos bolsos, dos cafés, bares e discotecas trazia sempre um ou mais copos. Um autêntico caçador furtivo de objectos. Um dia, Manuel foi passar um fim-de-se- mana a Lisboa com os amigos. Visitaram vários museus, o Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e foi no Monumento dos Descobrimentos que o Manuel se lembrou de trazer uma lembrança.
No espaço de entrada do museu havia umas escadas e quando ele as subia viu que o que fazia de corrimão era uma dessas fitas estilo corda, grossa. Resolveu levá-la. Era uma coisa que não servia para nada. O Manuel veio para trás e, com toda a calma que sempre o caracterizou, foi metendo cordão no bolso do casaco. Quando vinha embora do fim-de-semana, a carrinha onde o Manuel e os amigos seguiam sofreu um imprevisto. Uma pedra saltou de um ca- mião e partiu o vidro da frente da carrinha.
Pararam no primeiro café que viram, uma espécie de tasca mal arranjada, tomaram alguma coisa e fizeram vários telefonemas para tentar resolver o problema. Quan- do chegaram à carrinha um dos amigos disse que o dono do café tinha sido muito simpático, não tinha levado nada pelos telefonemas. O Manuel sorriu e disse que tinha trazido uns copos. Ninguém disse nada, mas a partir dessa altura começou a notar-se um mal-estar.
Apesar de tudo continuaram amigos. O Manuel dizia que o que tirava não fazia falta a ninguém. Ele continuava a ser simpático, não fazia mal aos outros e se fosse preciso ajudava as pessoas que necessitassem. Tratamentos Há terapias de “insight” (psicanálise, tra- tamento analítico). Há quem interprete a cleptomania como resultado de impulsos freudianos. Considera-se ainda a terapia comportamental, bem como o psicodrama.
Mas tudo a nível muito experimental. Há vulgarmente um transtorno de ansiedade associado à cleptomania. Um dos tratamentos utilizados nestes casos são as Terapias Regressivas a Vivências Pas- sadas (TRVP), um recurso terapêutico das doenças mentais, que tem como método a regressão de memória. A regressão de memória é o processo pelo qual o paciente em estado alterado de consciência (estado específico de consci- ência) é levado a retroceder, ou seja, voltar atrás conhecendo estágios anteriores do seu passado, quando submetido a técnicas especiais para esse fim.
