Poesia E u, cego Aderaldo cego Aderaldo cego Não trago minha viola, Ne
Jornal de Espiritismo nº 24 · Setembro 2007Página 151 min
Poesia E u, cego Aderaldo cego Aderaldo cego Não trago minha viola, Nem rabeca, violão, Mas um caso vou contar, Escute bem, meu irmão. Eu sou o cego Aderaldo, Um cantador do sertão. Eu nasci no Ceará, Lá na cidade de Crato, Quando fiz dezoito anos, Cumpri com o Céu um contrato, Fiquei cego dos dois olhos, Passei a enxergar com o tacto. Quem já viu e não vê mais, Carrega pesada cruz, Mas quanto mais eu sofria, Mais força dava Jesus.
Foi ele quem me amparou, Com sua divina luz. Minha idade bem demonstra, Que não foi fácil a prova, Tinha noventa e três anos Tinha noventa e três anos Quando o corpo foi pra cova. Eu, para aprender um pouco, Só mesmo com muita sova. O que vou dizer agora Espantaria Tomé, Quem me conhece já sabe, Eu nunca brinquei com a fé. Meu corpo entrou no caixão, Mas eu continuei em pé... No enterro ouvi bem claro: “O cego morreu...
Miséria!” Gritei: “Estou aqui vivo. Sinto pulsar minha artéria, Não abusem de um ceguinho, Parem com essa pilhéria!” Alguém então me guiou Com muita suavidade, Com esse alguém caminhei, Sentindo a minha orfandade... E eu disse: “Quem me quer mal? Sou cego e peço a verdade.” Nem uma palavra ouvi Do meu novo acompanhante, Mas senti nos meus dois olhos Um toque naquele instante, E vi muito iluminado De minha mãe o semblante.
Nada mais eu contarei Sobre o encontro peregrino, Perto dela eu me sentia, De novo como um menino: Beijava, ria, chorava, Foi um momento divino. Sei que para certos seres, A morte é muito cruel, Quando agarra quem merece, Bate muito e dá-lhe fel, Mas pra mim, não sei porquê, Foi uma bênção do Céu.
