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Crónica A morte: um amanhecer Ela não era espírita, mas pensava e agia

Jornal de Espiritismo nº 25 · Novembro 2007Página 133 min

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como se fosse, sem se importar com os preconceitos das religiões dominantes no seu país. Comparando a morte a um amanhecer, a enfermeira-padrão Elisabeth Kubler Ross procurava passar tranquilidade e espe- rança, à cabeceira do leito dos seus numerosos pacientes terminais. Extraímos o título acima, de um dos seus mais de 20 livros sobre o assunto, traduzi- dos em 26 idiomas.

Nascida em Zurique, na Suíça, e radicada nos Estados Unidos, ela trabalhou em vários hospitais de Chicago, Colorado e Nova Iorque. Em todos ficava profundamente triste e até indignada com a pouca atenção que era dispensada aos então chamados moribundos. Nos anos 60, contra a vontade dos seus colegas médicos, decidiu investir o seu tempo nessas pes- soas, sentando-se ao lado delas, trocando ideias e ouvindo as suas queixas.

O seu objetivo, dizia, era romper a crosta de negação social e profissional que impedia esses doentes de expressarem as suas preocupações mais íntimas a respeito da sua morte próxima. Como resultado, em 1969 publicou um livro no qual explicava as suas experiências com mais de 500 homens e mulheres desenganados. «Sobre a Morte e os Moribundos» foi um best-seller que revolucionou esse tipo de atendimento e mudou para sempre o seu enfoque.

A partir daí, passou a ser um diálogo mais espiritua- lista, mais terno e franco sobre a morte e o morrer. Hoje, a formação em tanatologia faz parte dos currículos de Medicina e Enfer- magem nos Estados Unidos. Para Kubler Ross, morrer era tão-somente despir-se do corpo físico, como quem se livra de uma pesada roupa de escafandris- ta, ou como uma mariposa abandonando o seu casulo. Em 1970, ela começou a explorar a possibilidade da existência de vida após a morte.

“Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana”, pensa- va. Mas aí a Universidade de Chicago, onde trabalhava, presa à antiga tradição religiosa e ao paradigma cartesiano, achou que já era demais e simplesmente a demitiu sem maiores explicações. Apesar desse baque emocional/financeiro, Elisabeth não se deu por vencida e passou a atender no seu consultório particular as pessoas em fase de luto e aquelas desesperançadas com a gravidade das suas enfermidades.

Criou um curso itinerante “Vida, morte e transição” para todos os tipos de perda, que há mais de 30 anos é oferecido em várias partes do mundo. Em 1975, publicou entre- vistas e testemunhos de pessoas que passa- ram pela experiência de quase-morte. Nas mesmas, hoje bem conhecidas e estudadas, os pacientes falam da morte como uma experiência agradável, em que há um feliz e surpreendente reencontro com familiares e amigos já falecidos.

São experiências pareci- das com as que foram relatadas no livro de outro médico, Raymond Moddy, intitulado «Vida Depois da Vida» e que, sem contar com o original em inglês e as traduções noutras línguas, já tem mais de 40 edições em português. Doutora Honoris Causa por várias universi- dades, incluída pelo «Times» entre os cem maiores pensadores do século recém-findo, Elisabeth desencarnou placidamente, aos 78 anos, em 24 de Agosto de 2004.

Após prolongada enfermidade, estava no seu sítio, em Scottsdale, Arizona, cercada pelo carinho de sua família e de seus amigos. E bem longe da assepsia fria das UTI moder- nas, onde geralmente as pessoas morrem sem apoio amoroso, experimentando talvez como um último sentimento o medo da solidão. No seu enterro, um rabino pronun- ciou uma prece, uma índia norte-americana a encomendou dentro dos seus primitivos rituais e um monge tibetano entoou textos do «Livro Tibetano dos Mortos».

Ao serem lançadas pétalas de rosas sobre seu esquife, centenas de borboletas foram libertadas e pousaram suavemente entre os presentes. Um símbolo da continuidade da vida, ideia em que ela tanto investiu e se empenhou em divulgar...