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Entrevista Allan Kardec: o Missionário Como participante activo no VI

Jornal de Espiritismo nº 26 · Janeiro 2008Página 118 min

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Congresso Nacional de EspiritismoCarlos Alberto Ferreiradisponibilizou-se para responder algumas questões ao “Jornal de Espiritismo”, referentes aos dois trabalhos que apresentou no evento: «Allan Kardec, o missionário», inserido em trabalho colectivo de homenagem ao Codificador, e «Espiritualismo e Espiritismo», enquanto trabalho individual. Por que razão considera o sábio de Lyon, Kardec, um génio?

Carlos Alberto Ferreira – Consideramos como génio todo aquele que vê aquilo que a maioria não vê, como se fôssemos verda- deiros cegos. Porque desde a noite de 31 de Março de 1848, em Hydesville, até àquela terça-feira de Maio de 1855, em Paris, os fe- nómenos inusitados que abalaram o Mundo foram observados por milhares e milhares de indivíduos de todas as condições inte- lectuais e morais, mas só com o prof. Rivail é que foram compreendidos na sua verdadeira finalidade.

Ninguém até àquele momento conseguiu tirar conclusões filosóficas do fe- nómeno, ninguém conseguiu fazer doutrina, não obstante mentes lúcidas e talentosas tenham observado esse fenómeno natural. Assim como Newton vislumbrou através da queda duma simples maçã da árvore a Lei da Gravitação Universal. Antes dele, milhares de criaturas, em todas as épocas, viram fruta a cair da árvore, mas só Newton teve a intuição genial da grande Lei da Natureza.

O que distingue o génio daquele que é muito inteligente e informado é a intuição. A intui- ção é o que caracteriza o verdadeiro génio. Kardec ao observar pela primeira vez, naquela longínqua terça-feira de Maio, a convite do sr. Pâtier, o fenómeno, intuiu de imediato algo de muito sério, a resposta ao anseio de pensa- dores de todas as épocas: «Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos». Por que motivo diz que o Espiritismo não nasceu em Hydesville, em 1848, com os Fox, mas sim em Paris com a publicação de «O Livro dos Espíritos» por Allan Kardec, no dia 18 de Abril de 1857?

CAF – O Espiritismo está fundado em cinco princípios básicos: 1ºDeus; 2ºImortalidade da Alma; 3ºComunicabilidade dos Espíritos (mediunidade); 4ºPluralidade das existências (reencarnação); 5ºPluralidade dos Mundos habitados. Em 1848 foram comprovados pelos factos a Imortalidade da Alma e a Comunicabilidade dos Espíritos, mas não o grande princípio do Espiritismo: a Reencarnação. Naquele ano nascia o Novo Espiritualismo, ou simples- mente, Espiritualismo, como também ficou conhecido, mas não o Espiritismo.

O Novo Espiritualismo não aceitava a Reencarnação, pois não estavam ainda criadas condições socioculturais para os americanos e ingleses admitirem aquele princípio admirável do Espiritismo. Os próprios Espíritos reveladores, como bons pedagogos, abstiveram-se na altura de dizer toda a verdade, porque era impensável, dizer a um americano, da época, que poderia renascer como negro e escravo, ou a um inglês que poderia renascer como criado de servir, seria uma temeridade, no dizer de Deolindo Amorim.

E quanto à capacidade de trabalho de Allan Kardec? CAF – Porque, não obstante enfrentar sozinho os tremendos preconceitos da Igreja e das corporações científicas, deixou uma obra impressionante de clareza, objectividade e bom senso. Não dispondo da electricidade, do computador, nem de secretárias para o ajudarem no imenso caudal de elaboração de textos. Não dispunha do telefone para as comunicações urgentes, nem de automóvel para as deslocações rápidas.

Elaborou, só, com o amparo dos bons Espíritos, a obra básica, livros de divulgação, a “Revue Spirite” (revista espírita) e a resposta a milhares de cartas provenientes dos mais diversos cantos do Planeta. Suportou a calúnia, a incompreensãoea traição de membros da própria Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas – o primeiro centro espírita do Planeta, por ele fundado. Durante década e meia consecutiva, não sou- be o que era o descanso, levantava-se pelas 4h30 da manhã.

Foi um autêntico gigante na perseverança e tenacidade para nos deixar a terceira revelação. Não podemos deixar de registar o amparo da sua querida Gabi, que sempre providenciava o seu bem-estar para poder dedicar-se inteiramente à causa da sua vida. Diz que Allan Kardec é co-fundador do Espiritismo: é frequente ouvir dizer que os fundadores foram os Espíritos, aliás, como ele mesmo sempre fez questão de afirmar... CAF – Allan Kardec era uma pesssoa muito humilde, jamais se impunha, gostava de passar discreto, razão por que hoje sabemos pouco da sua vida particular, nomeadamente da fase de Lyon.

Mas se analisarmos friamente a sua obra espírita, vemos que não foram ape- nas os Espíritos que fundaram o Espiritismo como o próprio fazia questão de afirmar. Deus quis, os Espíritos tiveram iniciativa e Kardec realizou. Não foi um mero «Secretário dos Es- píritos», como alguém disse, mas um gigante no trabalho de construção da Nova Era. A ideia que fazemos de um missionário que faz parte do imaginário das pessoas é a de um indivíduo de veste especial, barbas lon- gas e cajado.

Como então explicar que Allan Kardec foi um verdadeiro missionário? CAF – Um verdadeiro missionário não é caracterizado por exterioridades, por excentri- cidades, nem tão-pouco por uma grande in- teligência, embora esta seja importante, mas por si só, não faz um missionário. O verdadeiro missionário possui um conjunto de qualida- des positivas: a humildade, a paciência, a tena- cidade, a honestidade, o respeito à verdade, acima das suas ideias e interesses pessoais, espírito de renúncia e sacrifício, como nos esclarece Deolindo Amorim.

Kardec foi um homem da sua época, sociável e de hábitos simples, jamais se apresentou como dono da verdade, lançou anátemas, condenações ou ensinou o desprezo pelo mundo. Quem criou o vocábulo «Espiritismo»? CAF – Allan Kardec e não os Espíritos como muitas pessoas julgam. Porque Kardec criou esse neologismo, uma palavra nova? CAF – Logo no primeiro item da «Introdução ao Estudo da Doutrina Espírita» que abre O Livro dos Espíritos, o Codificador é muito claro a respeito das razões porque criou a palavra «Espiritismo».

É uma questão de nos darmos ao trabalho de lermos com atenção tal peça doutrinária. Diga-nos algo de importante que fez Allan Kardec para a evolução do pensamento humano, a respeito do Homem e do seu destino. CAF – Começou por retirar à mediunidade a pecha de sobrenatural com que sempre foi caracterizada, libertando o homem de muitas fantasias e superstições, que o vinham atormentando ao longo da História, mostran- do-nos que a mediunidade é uma faculdade inerente ao homem, uma faculdade orgânica.

Depois, com a publicação de O Livro dos Espíritos, superou definitivamente a dico- tomia sustentada pela tradição teológica, que pretendia, e ainda pretende, o mundo dividido entre o natural e o sobrenatural, como nos esclarece Zalmino Zimmerman, inspirado pelo emérito Herculano Pires, que nos explicou que o sobrenatural é o natural desconhecido que a Ciência paulatinamente vai integrando na realidade conhecida. Esclarecemos ainda, que os trabalhos de investigação de Kardec estão na base de todas as disciplinas que estudam a alma, ou o psiquismo humano, como se queira designar: a Ciência Psíquica Inglesa, a Metapsíquica, a Parapsicologia, etc.

O que distingue a reencarnação, vista pelo Espiritismo e pela óptica das doutrinas orientais e correntes reencarnacionistas com raiz nas culturas do Oriente? CAF – A crença nas vidas sucessivas nas filo- sofias orientais e nas doutrinas que têm raízes no Oriente, como a Teosofia, o Esoterismo, a Umbanda, a Rosacruz, etc. estão impregnadas de misticismo, alegorias, símbolos e práticas ritualistas que têm origens milenares.

No Espiritismo, a reencarnação é apresentada como uma lei biológica, portanto natural, a que todos estamos sujeitos. Aliás, os Espíritos Reveladores e Allan Kardec eram eminen- temente racionais, positivos e objectivos, nunca transigiram com o misticismo e os rituais que mantêm adormecidas as criaturas. Lembramos ainda, que as religiões do Oriente têm como fundamento das suas doutrinas a metempsicose, ou seja, acreditam que o es- pírito humano pode reencarnar num animal, ou mesmo numa planta ou num mineral, o que é radicalmente contrário à reencarnação ensinada pela falange do Espírito da Verdade a Kardec.

O Espírito jamais degenera (Q. nº18 do O Livro dos Espíritos), pode estacionar na sua evolução, sempre temporariamente, mas jamais perde as qualidades intelectuais e morais conquistadas. Como é designada a Lei Moral, que rege a reencarnação, segundo o Espiritismo? CAF – Lei de Causa e Efeito, também co- nhecida por Lei de Acção e Reacção, que os Espíritos ensinaram, primeiro a Allan Kardec e depois, mais tarde, de forma mais pormeno- rizada, através da mediunidade admirável de Francisco Cândido Xavier.

Vejamos as lições de Emmanuel e as reportagens de além-túmulo de André Luiz, que foi médico e cientista na Terra. No Oriente, essa Lei Moral é designada por Karma. O que distingue o Karma da Lei de Acção e Reacção? CAF – Aparentemente, sim. Tanto que André Luiz, algumas vezes, utiliza o termo para designar essa lei natural, mas com significado distinto do que é compreendido e ensinado no Oriente, apenas para simplificar a expres- são do conceito.

A grande diferença é que o Karma, como é compreendido nas culturas orientais, é fatalista, porque não admite a misericórdia. O Espiritismo explica que o bem que possamos fazer anula o mal que fizemos, sem termos que passar pela mesma situação que fizemos passar outrem. O Evangelho ensina que «o amor cobre a multidão de pecados». O conceito de Karma, no Oriente, leva as pessoas a conformarem-se com a sua sorte, a sua condição, sem nada fazerem para mudar, porque dizem que é o Karma e deve- mos aceitá-lo, podendo apenas mudá-lo, com alguns rituais ofercidos à divindade.

Madre Teresa, que viveu longas décadas mergulhada na sociedade indiana, numa entrevista, disse que tal crença arreigada na consciência das pessoas dificultava muito o trabalho de reer- guimento dos marginalizados e sofredores, porque existe uma certa frieza nos corações, não por maldade, mas por hábitos culturais milenares, veiculados pelo conceito de Karma. E não podemos ainda esquecer, que a lei do Karma aceita a metempsicose, que é radi- calmente contrária a tudo o que os Espíritos ensinaram a Kardec, pois é oposta à Lei do Progresso que rege todos os seres.

O que gostaria de dizer aos espíritas? CAF – Que criassem o hábito de ler e estudar o legado de Allan Kardec e seus discípulos fiéis – Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, Deolindo Amorim, Herculano Pires, Francisco Cândido Xavier, Yvonne do Amaral Pereira, Divaldo Pereira Franco – para não virmos mais uma vez a adulterar a verdade, perdendo-nos em fantasias e mistificações que, com grande facilidade, se insinuam à sombra do Consolador, por invigilância de alguns espíritas.

É lamentável a avalancha de livros que se intitulam de «espíritas», publica- dos regularmente para confundir os incautos e estimular a vaidade dos orgulhosos. Hoje, como nunca, compreendemos a afirmação de Léon Denis quando nos disse que o «Espi- ritismo será o que dele fizerem os homens».