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Perguntar Além da vida Com base nas perguntas que terão ficado por res

Jornal de Espiritismo nº 26 · Janeiro 2008Página 77 min

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Perguntar Além da vida Com base nas perguntas que terão ficado por responder, a organização das Jornadas Espíritas de Braga reenvia-as aos expositores para aqui lhes darem resposta. Desta vez, a palavra está com Jorge Gomes, que falou neste evento sobre experiências próximas da morte (1), crianças que se lembram de vidas passadas (2) e alteridade. Como se explica o facto de nos relatos de experiências próximas da morte (EPM) parecer tudo tão tranquilo e luminoso, ao ponto de algumas pessoas regressa- rem com custo ao corpo físico, diferen- temente do que se assiste nas reuniões mediúnicas nas associações quando os espíritos são auxiliados?

Jorge Gomes – Fenómeno mediúnico e EPM não são o mesmo fenómeno. Isto é certo. Por isso, vamos sublinhar alguns aspectos de um e de outro. Sobre as EPM, vejamos que, por exemplo, no livro “Vida após a vida” escrito pelo médico norte-americano Raymond Moody Jr. – que tornou mediático este fenómeno antigo – há um capítulo perto do final da obra que junta casos em que as EPM foram muito desagradá- veis, ao contrário do que a pergunta aponta: são casos de suicidas.

No que diz respeito às reuniões mediúnicas, repare: estas reuniões invariavelmente são organizadas com objectivos claros de esclare- cer espíritos desencarnados em perturbação. Logo, sendo um tempo necessariamente limitado por regra a uma hora ou hora e meia, com no máximo umas dez pessoas, se tanto, em ambiente privado, é compreensível que as oportunidades tenham de ser optimizadas e os espíritos que a equipa espiritual esco- lhe para que se comuniquem através dos médiuns sejam dos mais necessitados e que estejam em condições de ser auxiliados por esse meio.

Dizer que todos os que desencarnam estão nessa situação seria um erro. Não se pode generalizar. Os que têm uma consciência leve, e mais ainda edificada pela prática do bem incondicional, desprendem-se com relativa facilidade do corpo físico por efeito da morte corporal e recebem tratamento e/ou esclare- cimento directo dos instrutores equilibrados do plano espiritual. Estão assim, num fenómeno e noutro, focados caminhos de vida diferentes, logo passagens ou decessos diferentes.

Como vê, não é contraditório, bem pelo contrário. Falou nas experiências próximas da morte, as experiências que relata não poderão ser imaginação dos doentes? JG – Um médico que entrevistámos em 1996 cujo caso, nas suas palavras, incluímos na exposição destas Jornadas, assistiu a tal senhora de idade e ficou impressionado: “Te- nho dificuldade em explicar esta EPM. Como médico tentei logo relacionar este fenómeno com aspectos biológicos, dentro do meta- bolismo cerebral.

Mas, ao mesmo tempo, há aqui dados que me dificultam a interpretação. Primeiro, a minha paciente diz-me que vê com os olhos fechados; segundo, ela recorda intensamente, ou observa, numa situação em que o cérebro está entorpecido, em coma hipoglicémico, com baixa de açúcar, depau- perado, o que não permite, à partida, que haja memorização, recordações. Pelo menos é difícil compreender como é possível que ela reúna energias para ter memória naquela altura, e tão rica!

Num estado próximo da morte, encontra-se de facto ali um manancial de conhecimento e de informação que não tem quando o cérebro está cheio de glicose, de oxigénio e de energia. Não se pode expli- car isto apenas biologicamente. Mas também não consigo explicar de outra maneira”. Um cardiologista norte-americano chamado M. S. Rawllings, do Hospital da Faculdade de Medicina do Tenessee, afirma num docu- mentário de TV que não crê que possam ser alucinações.

Diz ele que o doente está inconsciente, é impossível comunicar com ele. O coração está parado, o doente não res- pira. Perguntam-lhe se não seráocérebro que está ainda activo: “O cérebro é a parte mais sensível do corpo. Se não for oxigenado é o primeiro a morrer, nãooúltimo. O sentido das percepções desaparece imediatamente”. Depois, há ainda as informações que o do- ente não sabe e que resultam da consciência activa durante a “morte” corporal.

O médico George Ritchie, também dos EUA, escreveu um livro (“Voltar do Amanhã”) unicamente com a sua EPM. Descreve por exemplo uma deslocação fora do corpo físico onde observa como viajante extra-corpóreo ruas de sítios onde diz nunca ter estado, um bar com um néon luminoso com nome e pormenores específicos, que muito mais tarde, fortuita- mente reconhece numa deslocação causada pela sua vida militar. Numa alucinação há imaginação, não há a percepção de dados concretos, reais.

Outro autor, também norte-americano, o pediatra Melvin Morse, no seu best-seller “Closer to the light” (mais perto da luz), relata alguns casos de EPM em crianças. Uma delas sai do corpo no hospital, vai a casa, vê o que a mãe está a cozinhar, a irmã a brincar. Quando regressa ao corpo, em conversa, confirma-se a autenticidade dessa ocorrência. Isto nem sempre acontece, mas quando acontece não adianta virar a cara para o lado.

Sinto pânico só de pensar em morte, mas sei que ela é uma passagem. Há alguma ligação com o passado relativamente a esse pânico? JG – Segundo Allan Kardec, o medo da morte deriva do desconhecimento acerca do que ela é realmente. Explica isso no seu livro “O Céueo Inferno”, afinal nada mais do que estados de consciência. E na nossa experiên- cia todos percebemos que se isolarmos algo e o rodearmos de aversão o abismo que nos afasta disso vai crescendo com o tempo até que, na ausência de dados mais concretos, preenchemos esses espaços com muita imaginação.

A morte, e sobretudo o que se passa depois dela, hoje é algo perfeitamente acessível em termos de compreensão. Aquele dito antigo de que “nunca ninguém voltou de lá para nos contar como foi” é uma daquelas pseudo- -verdades que só acredita quem quiser igno- rar tanto fluxo de informaçãoenão perceber que todos os dias volta sempre alguém a dar notícias do outro lado da vida. Embora em muitos casos “morrer” seja de facto quase como tirar o casaco e seguir viagem, no seu caso, contudo, pode haver algum facto traumático, mal assimilado como experiência de vida anterior, que esteja aí a associar a ideia de “morrer” com algo terrível, uma dor maior.

Não sabemos o que possa ser, claro, mas uma maior desdramatização do as- sunto pode ajudar. Quando demos um curso de básico de espiritismo numa associação, houve um ano em que surgiu na turma um senhor já de idade que apresentava o mesmo problema. Passado quase um ano, no término do curso, ele adiantou que tinha mudado substancialmente também nesse ponto. Foi uma satisfação. Como é que a reencarnação é compatível com as descrições de experiências de quase-morte (EPM) em que os visados são recebidos por familiares e amigos?

JG – Perfeitamente compatível. Evoluímos em vários grupos. O conceito de família corporal é muito importante num momento evolutivo, mas alarga-se a toda a humanida- de à medida que mais aprendemos e mais avançamos. O espiritismo desenvolve a ideia da família espiritual. Jesus falava dela: «Quem são minha mãe e meus irmãos?». Quantas famílias encontramos com o perfil de oficina, onde as relações humanas se aprimoram à custa de muita paciência.

Muitas vezes são contas antigas que renovam a oportunidade de acerto. Outras há afectivamente mais com- pensatórias, onde naturalmente os elementos que a compõem reúnem maior afinidade e harmonia. Crianças que têm memórias das suas vidas passadas: isso deve-se ao facto de permanecerem pouco tempo no plano espiritual? JG – Há autores que pensam que sim. Sobre- tudo porque na investigação de Ian Steven- son os casos tratados apontam nesse sentido.

Contudo, na ausência de estudos mais amplos, apenas pode ser considerada ainda uma hipótese a ser mais trabalhada. O que parece ser mais seguro é que o cérebro do corpo físico funciona como uma válvu- la do baú de memórias das diversas vidas nos mais variados cenários evolutivos. Essa “válvula” está programada para funcionar num só sentido, aquele que veicula a interpretação pessoal das experiências deste plano material para a consciência que transcende o corpo material.

Por vezes, permite que haja fluxos no sentido inverso, memórias ou fragmentos dela que vêm da consciência para o cérebro material. Pensa-se que quando isso acontece há um fim útil, mas não se sabe concretamen- te como isso ocorre. O espírito não se contém num tubo de ensaio. (1) As experiências próximas da morte, também conhe- cidas como mortes aparentes ou experiências de quase- -morte, reúnem casos de pessoas que estiveram por alguns minutos aparentemente mortas, por vezes com características de morte clínica, mas que relatam depois uma exteriorização do espírito em relação ao do corpo físico, assistindo com percepções activas e conscientes ao que se passa, no local ou noutros sítios.

(2) As crianças que se lembram de vidas passadas têm como grande referência de investigação científica o Prof. Dr. Ian Stevenson, mas outros pesquisadores continuam o seu caminho revelando mais outro nível de evidências da reencarnação.