Crónica Quando se fala em progresso, de imediato imaginamos um caminho
Jornal de Espiritismo nº 27 · Março 2008Página 115 min
no sentido ascendente, sem barreiras ou obstáculos. Contudo, se pensarmos bem, muitos são os parâmetros envolvidos nesse mesmo progresso. Analisando o Dicionário da Língua Portuguesa, diz-nos que: Progresso vem do latim progressu, e significa movimento para diante; desenvolvimento gradual de um ser ou de uma actividade; adiantamento; melhoramento; aperfeiçoamento.
Progredir: vem do latim progredire, e significa fazer progressos; avançar; prosseguir; desenvolver-se; adiantar-se. Então, podemos dizer que para que a Humanidade esteja em caminho de progressão, ela deve de algum modo estar em movimento activo para diante, num plano de desenvolvimento gradual, melhorando- -se e avançando. Mas como saber então qual o sentido correcto, em direcção a esse crescimento e evolução? Como podemos adivinhar qual o caminho a escolher numa encruzilhada, garantindo que nos leva à meta?
Conhecemos neste planeta centenas de religiões, filosofias e crenças, apoiadas no campo espiritualista ou moral, em que todas elas, independentemente de os seus princípios serem até aparentemente contrários, pregam aos seus seguidores e estudiosos quais os parâmetros de conduta a serem cultivados e praticados para estarmos mais próximos de Deus (ou outra designação). Cada uma tem os seus critérios e nos encaminha nos nossos passos.
E porquê? Porque todos temos esse mesmo objectivo de progredir! Um homem conhecido de todos nós, Mahatma Gandhi, transmitiu-nos uma ideia muito interessante quanto este assunto: “As religiões são caminhos diferentes convergindo para o mesmo ponto. Que importância faz se seguimos por caminhos diferentes, desde que alcancemos o mesmo objectivo?”. Sábias palavras! De facto, temos à nossa disposição centenas de caminhos possíveis para chegarmos ao mesmo objectivo, e sermos felizes.
Então, porque será que nós estamos actualmente ligados à crença que seguimos, e não a outra? A resposta é básica: reencarnação. Sabemos que o Espírito, ser eterno da criação, vive inúmeras encarnações, ao longo das quais vai assumindo diferentes personagens, em diferentes cenários e representando diferentes histórias. Hoje podemos ser ricos, mas ontem podemos ter sido pobres, e vice-versa. E do mesmo modo, hoje somos espíritas, por exemplo, mas isso não significa que noutra vida não tenhamos sido hindus, protestantes, católicos, wicca, pagãos, budistas, seguidores da cabala, da rosacruz, dos terreiros de umbanda...
E o futuro, não o conhecemos… E em cada uma dessas ligações, aprendemos conceitos que assimilamos no intuito de nos serem úteis ao nosso bem-estar e ao nosso principal objectivo. Daí dizer-se que não existem religiões ou filosofias melhores umas do que as outras, pois cabe a cada um, no seu grau evolutivo e em cada uma dessas encarnações, aproveitar aquilo que é de melhor, colhendo os frutos e guardando as sementes salutares para mais tarde plantar.
No nosso caso, e sendo espíritas nesta encarnação, podemos encontrar na literatura espírita diversas referências ao progresso, tais como… Evoluir “(…) é avançar, progredir, desenvolver-se, adiantar-se, aperfeiçoar-se”, Carlos Imbassahy. “(…) progredir é usar bem os empréstimos de Deus”, Chico Xavier e Waldo Vieira. “A evolução é a escada infinita. Cada qual abrange a paisagem de acordo com o degrau em que se coloca”, Emmanuel.
E deste modo, a Doutrina Espírita dá-nos também ela as directrizes que nos poderão ajudar no nosso crescimento como Espíritos em evolução. Explica Allan Kardec que o Espírito é criado no chamado estado natural, isto é, como uma obra-prima em bruto, pronta para ser lapidada e trabalhada. Esse estado é assim “o ponto de partida de seu desenvolvimento intelectual e moral”. Tal como a criança não vive eternamente nesse estádio do desenvolvimento humano, também o Espírito vai atravessando etapas temporárias, à medida que vai apreendendo conhecimentos e ganhando bases que lhe permitem avançar para o nível evolutivo seguinte.
Essa evolução é então regida pela lei natural, criada por Deus, como tudo o resto. A comparação do nosso caminho evolutivo com uma escada é um bom exemplo. Somos Espíritos em desenvolvimento, subindo uma escada em direcção à espiritualidade. Sabemos que nessa subida podemos por vezes parar, sentando-nos no degrau em que estamos e vendo os outros a passarem. É quando adoptamos uma postura passiva perante a vida, optando por sermos folhas à deriva no mar do Universo.
Contudo, jamais descemos para o degrau anterior, pois isso implicaria de algum modo a perda dos conhecimentos já adquiridos, contrariando a lei do progresso. Quando se aprende a andar de bicicleta, como podemos desaprender? Mas mesmo esse estado de aparente preguiça em que estacionamos na nossa subida não dura para sempre. Mais cedo ou mais tarde, acabamos por dar-nos conta de que estamos a perder o nosso tempo, quando poderíamos estar a avançar.
E aí, levantamo-nos, despertamos para a vida e damos continuidade à longa caminhada. A única coisa que daqui resulta é que, mesmo podendo alguns de nós ter sido criados no mesmo momento, afastamo-nos por uns subirem mais rápido do que outros, por mérito próprio. Mas mesmo assim, todos chegamos lá! Compreendemos então que esse progresso pessoal é incontornável. De que modo nos ajuda a Doutrina Espírita para que a nossa caminhada seja um facto?
Essencialmente, ela desperta-nos a consciência, impulsionando-nos para a derradeira transformação: a reforma íntima. “799. De que maneira o Espiritismo pode contribuir para o progresso?” “Destruindo o materialismo, que é uma das chagas da sociedade, e fazendo os homens compreenderem onde está o seu verdadeiro interesse. (…)” O Espiritismo, pelo conhecimento transmitido, ilumina-nos assim o caminho, proporcionando a compreensão da vida e da morte.
Com os seus princípios básicos, alarga a nossa perspectiva do Universo, percepcionando-nos como simples habitantes entre muitos e muitos outros, filhos do mesmo Criador, grãos de areia num amplo deserto, e todos com o mesmo objectivo: a perfeição. Pela crença na reencarnação e na lei de causa e efeito, passamos a compreender melhor o porquê das nossas vivências, enfrentando o mundo de outro modo. Passamos a ver nos outros não “gente”, mas “pessoas”, irmãos, aceitando as suas diferenças e dando apoio quando estamos em posição para tal.
Instantaneamente, e com o tempo, vamo-nos espiritualizando. E desse modo, passamos a deixar que cresça em nós a virtude que melhor nos poderá ajudar no nosso progresso pessoal: o amor. “Progredir, em sentido espiritual, resume-se em conhecer a verdade e a amar”, diz-nos Juvanir Borges de Souza. E é precisamente pelo amor que somos capazes de encarar as experiências com fé, seguindo adiante, unidos. Assim, a Doutrina Espírita coloca à nossa disposição as ferramentas que podem, neste momento, servir-nos como meio ao progresso de cada um, e como cada um faz parte do todo, da sociedade, falamos do progresso de toda a Humanidade.
“O progresso consiste, sobretudo, no melhoramento moral, na depuração do Espírito, na extirpação dos maus germens que em nós existem. Esse o verdadeiro progresso, o único que pode garantir a felicidade o género humano, por ser o oposto mesmo do mal”, Allan Kardec – A Génese Passamos a compreender-nos como filhos de Deus, portadores da chave para a felicidade: nós mesmos! Depende de cada um de nós pegar no saquinho de sementes que nos foi confiado ao sermos criados, e ir plantando, semeando e colhendo virtudes, e eliminando as ervas daninhas dos defeitos.
Temos assim nas nossas mãos o nosso futuro e o da Humanidade. Todos os dias, e todas as vidas.
