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OpiniãoODário e a Simone são meus amigos

Jornal de Espiritismo nº 27 · Março 2008Página 103 min

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Moram num bairro em que há vida de bairro. O vizinho do lado oferece-lhes sempre umas maçãs do quintal. A vizinha do lado tem a chave da casa para alguma eventualidade, quando eles estejam fora. Apesar dos videojogos, ainda há garotos a andar de skate na rua. Trabalham ambos fora de casa, e nem sempre podem almoçar juntos. Embora tenham uma amiga, a D. Margarida, que faz a limpeza semanal, à segunda-feira, há sempre trabalho doméstico de rotina que se vai acumulando.

E todos sabem como é penoso, após uma jornada de trabalho, enfrentar as pilhas de louça e de roupa para lavar, o chão para varrer, a casa para arrumar. À quinta-feira, que é dia que passam todo fora de casa, habituaram-se a chegar e a ver tudo limpo e arrumado. Como numa história de detectives, foram-se deitando a adivinhar a solução do mistério. Sem sucesso. Enquanto isso, a “fada das quintas-feiras” foi continuando a manifestar a sua acção providencial.

Um destes dias ele passou ocasionalmente por casa. Meteu a chave à porta, abriu-a e deu de caras com… a D. Margarida, que ficou visivelmente embaraçada. A casa estava arrumadinha, e ela, à laia de justificação: - “À quinta-feira tiro sempre um bocadinho à hora de almoço, passo por aqui e dou um jeitinho… Desculpe lá, ó Dário…” - “Ora essa…, Quem agradece sou eu…” - balbuciou o meu amigo. O mistério da fada das quintas-feiras estava resolvido.

A D. Margarida não é de igreja. Nem de centro espírita. A sua religiãoea sua filosofia são o bem, a caridade no seu mais nobre sentido. Uma vida que tem sido fértil em contrariedades, uma família grande para cuidar, problemas de saúde, não a impedem de ajudar todos quantos pode, se possível em segredo. Não espera recompensas celestes. Não espera reconhecimento. Faz o que lhe sai do coração, com a naturalidade dos que já atingiram um patamar moral superior à mediania.

Confidenciava-me o Dário, após este episódio: - “Eu tenho que estudar o Evangelho, meditá-lo, para aprender a ser gente. Esta senhora já o vive como quem respira.” Frases lapidares de “O Evangelho Segundo o Espiritismo” passaram-me pela mente: - “Os verdadeiros missionários ignoram-se a si mesmos”, de Erasto (Espírito). - “Todos os que praticam a caridade são discípulos de Jesus, sem embargo da seita a que pertençam”, de Paulo, o Apóstolo (Espírito).

- “Amarás o teu próximo como a ti mesmo”, de Jesus de Nazaré, segundo Mateus. Os grandes do mundo, os doutos e prudentes, que confundem humildade com humilhação, serviço com servilismo, amor ao próximo com patetice, muito poderiam aprender com exemplos como este, se se dignassem reparar neles. Na vida em sociedade, na família, nos deveres profissionais, nos cargos públicos, na política, na gestão dos destinos dos países e nas suas relações, na economia, na filosofia, na religião, em todos os sectores da actividade humana, muito se poderia aprender com exemplos como este, de quem pensa nos outros como pensa em si, e lhes deseja o bem que deseja para si.

A mensagem nuclear de todos os profetas, e os seus exemplos de vida, apontam sempre para o amor como lei divina por excelência, caminho único para a felicidade. A lei divina na sua mais simples expressão não exige estudos profundos, nem que se professe nenhuma crença em especial. Basta que se esteja atento, e ela revela-se, na caridade escondida e pura de uma fada das quintas-feiras. Por Roberto António robertoantoniolx@gmail.