Opinião Por que Tom Cego conseguia e eu não?
Jornal de Espiritismo nº 27 · Março 2008Página 128 min
Eu vivi minha adolescência na cidade de São Paulo, na época dos Beattles e Rollings Stones, quando Roberto Carlos era “uma brasa, mora!” E eu queria ser roqueiro! Talvez nem tanto, mas pelo menos aprender a tocar o violão. Pedi a um amigo que me ensinasse, e ele prontamente se dispôs. Começamos as aulas, ou melhor, a luta. E por pouco não perco um amigo. Nossos génios eram incompatíveisdigo, o meu e o do violão!
Não combinávamos. Depois de duas semanas sem conseguir dedilhar sequer as primeiras notas de parabéns pra você, meu amigo perdeu a paciência e eu o interesse. Eu já tinha quinze anos de idade; minhas faculdades mentais e visuais eram perfeitas; e confesso que fiz um grande esforço, mas mesmo assim não consegui tocar nada naquele bendito violão, Agora veja o caso de Tom Cego, ou Blind Tom, como ele ficou conhecido na América e na Europa.
Thomas Greene Bethune (Blind Tom) nasceu em 25 de maio de 1849, com um problema mental grave que apenas 100 casos existem na literature médica, e cego. Seus pais, Domingo Wiggins e Charity Greene, eram escravos e foram arrematados em um leilão por James Bethune, da cidade de Columbus no estado da Georgia, quando Tom era bebé. O ex-dono desses escravos deu Tom a James Bethune como brinde, pois nenhuma serventia teria um escravo cego.
Nos primeiros anos de sua vida, o único sinal de inteligência que Tom demonstrava era seu interesse por sons – qualquer tipo de som. E a sua capacidade de imitá-los era extraordinária. Charity, a mãe de Tom, trabalhava na mansão colonial dos patrões, e eles permitiam que a ama trouxesse o pequeno com ela. Nós aprendemos no Espiritismo que não há coincidências na vida, que nada é obra do acaso; que nascemos na família que vai nos ajudar a cumprir nosso trabalho na terra, e que a vida se encarrega de colocar-nos no meio e com as pessoas que farão parte de nosso destino.
Agora veja quanta verdade há nisso! A família Bethune, cujo sobrenome Tom adotou por tradição, tinha sete filhos, todos com talento musical, e a casa vivia inundada pela música, tocavam piano e cantavam constantemente. Enquanto as crianças praticavam as suas aulas de piano, Tom, quietinho num canto da sala, sem nada poder ver, apenas ouvia. Um dia, enquanto as crianças praticavam, Tom, às escuras de sua cegueira, caminhou até ao piano.
Com pena do menino, deixaram-no sentar-se no banquinho e colocar os seus dedinhos nas teclas do piano. E o menino cego, aquele que nenhuma serventia tinha, que foi dado como brinde a James Bethune, deixou todos os presentes estarrecidos! Ele tocou, na primeira vez que se sentou ao piano, todas as notas, exactamente como as tinha ouvido durante as aulas dos filhos dos patrões. Tom tinha quatro anos de idade! A família Bethune contratou professores de música para ele.
O primeiro veio e nunca mais voltou, disse que nada tinha a ensinar ao menino. Um deles confessou que o talento musical de Tom desafiava a compreensão. Outro disse que Tom conseguia aprender em algumas horas o que outros músicos precisavam de anos para aperfeiçoar. Aos seis anos de idade Tom já compunha as suas próprias músicas. Escravos com talentos musicais eram fontes de renda adicional para os patrões, e eles não perdiam a oportunidade de explorá- -los.
James Bethune apresentou “Blind Tom” ao público de Columbus, como pianista, à casa quase cheia, aos oito anos de idade. Em seguida, contratou um empresário. Aos nove anos de idade Tom já fazia pequenas fortunas a ambos, patrão e empresário, ele nada ganhava. Era levado à centenas de cidades. Explorado, chegava a fazer quatro apresentações por dia. E Tom Cego dava espectáculo atrás de espectáculo. Tocava os clássicos dos grandes génios da música, e não apenas sentado à frente do piano, mas também de costas, e com as mãos cruzadas.
Músicos presentes eram desafiados a um duelo musical com Tom Cego. Tom ouvia-os tocar, e em seguida repetia no seu piano, com precisão, qualquer tipo de música que tocassem. E ia mais longe! Fazia acompanhamento em baixo à charamela tocada por um músico ao seu lado. Depois empurrava o tocador da charamela e repetia, perfeitamente, a composição inteira, composição que até então desconhecia. Quando o público aplaudia, o menino dava o rítmo dos aplausos no piano.
A galera enlouquecia! E Tom exacerbava, três músicas diferentes ao mesmo tempo – tocava Fisher’s Hornpipe (música tradicional das montanhas Appalachian no leste norte-americano) com a mão esquerda, Yankee Doodle, com a direita, e cantava Dixie, cada uma no seu rítmo. Um dos primeiros comentários sobre o talento de Tom Cego saiu no jornal “Baltimore Sun”, em Junho de 1860. O autor dizia que Tom era um fenómeno no mundo musical, que lançava por terra todas as concepções da ciência e mostrava a existência de outro mundo musical sobre o qual nada se conhecia.
E foi mais longe, dizendo que o seu talento sobrepassava o de Mozart. Mas como poderia o seu talento, aos 11 anos de idade, ultrapassar o de Mozart? Como era possível esse menino, mentalmente debilitado e cego, ser capaz de tanta proeza? Qual seria outra explicação mais racional para tão inexplicável fenómeno, senão a reencarnação de um dos grandes génios musicais de outrora? Por que Tom Cego conseguia e eu não? De uma coisa tenho certeza, jamais fui músico noutra vida.
Tom terminou esta vida no dia 13 de Junho de 1908, aos 59 anos de idade. Por Admir Serrano Admir Serrano é espírita, autor do livro “Morrer não é o fim”, lançado pela Petit Editora em Fevereiro. É brasileiro naturalizado americano, e reside em Miami. Email para contato: admir@admirserrano.com Não separar o que Deus juntou Kardec, no capítulo XXII de «O Evangelho Segundo o Espiritismo», referiu-se ao divórcio como uma lei para separar legalmente o que já está, de facto, separado, ou seja, aquelas uniões feitas por interesses financeiros ou articulada pelos pais, onde o amor não está presente.
Contudo como interpretarmos o divórcio à luz da sociedade actual, onde as pessoas se unem voluntariamente e não por imposição dos pais ou da sociedade, como no passado? Como lidarmos com casamentos cármicos que, de uma atracção inicial, se converteu num campo de batalha? O divórcio seria a melhor solução? Segundo a doutrina espírita, o nosso espírito não tem sexo, é potencialmente masculino e feminino. Por isso é que um mesmo espírito que reencarna homem numa existência pode vir a ser mulher na outra.
O homem encarnado possui uma polaridade sexual materialmente expressa (masculina), enquanto a outra ( a feminina) está implícita, necessitando de uma companheira do sexo oposto para complementar-se no mundo físico. Essa complementação sexual, segundo a psicologia junguiana, não se refere apenas à polaridade masculino-feminino, mas a todas as outras polaridades. Segundo Jung, nós atraímos a nossa própria sombra. Pessoas, por exemplo, muito “boazinhas”, que são amorosas mas têm dificuldades de serem firmes e enérgicas quando necessário, atraem pessoas agressivas que são firmes mas não conseguem ainda expressar totalmente o seu amor.
Um exprime a sombra do outro. Todo agressivo é uma pessoa amorosa por dentro (mas que não tem coragem para expressar sua afectividade) e toda a pessoa externamente “boazinha” é firme internamente. A reeducação através do casamento consiste justamente em cada uma delas atingir um ponto de equilíbrio dinâmico entre o amor e o poder, entre a firmeza e a doçura. Essa é a magia do casamento: homens e mulheres, agressivos e doces, dependentes e independentes, racionais e emocionais, responsáveis e aventureiros, atraem-se mutuamente para aprenderem com as diferenças.
Sem o percebermos o companheiro que escolhemos para o casamento complementa-nos e reeduca-nos não só com as suas virtudes mas principalmente com aquilo que consideramos “defeitos” e que, nada mais são do que nossa sombra, do que um aspecto da nossa alma que negamos. O outro é o espelho da nossa alma, a expressão personificada de nossa própria sombra e vice-versa. Quando Jesus nos diz que o homem e a mulher serão uma só carne, ele está a dizer, por outras palavras, que os dois corpos serão um só espírito, ou seja, o que falta num é complementado no outro.
Através do casamento resgatamos a união com o nosso próprio espírito, pois expressamos materialmente na “unidade do casal” a completude que já existe na nossa essência espiritual. Portanto, quando aceitamos e perdoamos o nosso parceiro, estamos a aceitar e a perdoar a uma parte de nós mesmos. Quando nos apaixonamos por alguém estamos a admirar virtudes e potenciais que já existem essencialmente em nós e que, por não estarem plenamente desenvolvidos, projectamos no outro.
O “grande amor da nossa vida” não está, portanto, do lado de fora mas em nós mesmos. Como nos diz o filósofo espiritualista Robert Happé, todos os relacionamentos que temos com o próximo, nossos pais, filhos, amigos e cônjuge, expressam apenas um único relacionamento: O que temos com nós mesmos. Jesus assevera que aquele que repudiar a sua mulher e se casar com outra já cometeu adultério em relação à primeira (S. MATEUS, cap.
XIX, vv. 3 a 9.), ou seja, perdeu a oportunidade de crescer com o outro através do casamento e, atrairá, em outra parceira, a mesma negatividade que possuía a primeira. Assim, a negatividade que precisa ser curada não está no outro, mas em nós mesmos, e dela só nos libertaremos através do perdão e da tolerância. Perdoar e aceitar o nosso cônjuge é, portanto, perdoar e aceitar a nós mesmos. Abandonar o nosso cônjuge é, em última análise, fugirmos de nós mesmos.
Não separe, pois, o homem o que Deus juntou (S. MATEUS, cap. XIX, vv. 3 a 9.) significa que, salvo as excepções óbvias, como agressões físicas ou infidelidade, não podemos permitir que o nosso ego (homem) separe aquilo que a Providência Divina (Deus) uniu através do casamento para nossa própria cura e crescimento. Quanto mais difícil é para nós o nosso parceiro maiores as nossas oportunidades de crescimento através da aceitação e do perdão, pois estaremos a curar um maior número das nossas próprias negatividades num intervalo menor de tempo.
Aquilo que chamamos de “casamento de resgate” ou “casamento cármico” nada mais é que um curso intensivo de crescimento rumo à felicidade e completude que a todos nos aguarda. Por Fernando António Neves a.fernando_neves@yahoo.com.
