29 — índice de conteúdos

Crónica foto loucomotiv Não lhe sigam as pegadas Morreu o mais antigo

Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 143 min

Partilhar
Idioma

dos meus amigos desta vida terrena. Conhecemo-nos por volta dos quatro anos de idade, numa disputa por uma bola de futebol. Após grande briga, grande aversão ou grande amizade. Ficámos na grande amizade. Um pouco mais velho que eu, ele impressionava pelos seus “feitos”, pela sua constante busca de novidade e aventura. Era uma referência para a rapaziada.

Metia-se em complicações e saía-se em regra mais ou menos bem. Por alturas do nosso final de adolescência, não dava sinais de pensar em estudo, em trabalho, em “assentar”. Em casa dos pais havia sempre comida, dormida e desculpas. Correu o mundo, viveu de expedientes, voltava de vez em quando para nos encantar com os seus relatos. À noite juntava-se a mocidade, na esquina do café, trocando piadas e relatos das peripécias do dia.

Ele olhava para o letreiro da companhia de seguros “O Trabalho” e arrancava gargalhadas com o seu desabafo de que “aquilo o incomodava”. Não era um vulgar preguiçoso. Era alguém que simplesmente tinha mais que fazer, ou assim pensava. O gosto pelas complicações, pelas brigas, pelas fugas, pelo desafio constante a tudo e a todos, deu lugar a um novo gosto. De explorador do mundo, irrequieto, de moral um tanto discutível mas inegavelmente divertido, tornou-se um explorador de sensações artificiais.

O hábito das drogas passou a ser um modo de vida. “Estar bem” passou a ser sinónimo de estar sob efeito de drogas. Pela amizade que lhe tínhamos, recusámos, nós também, entender que ele corria riscos reais. Ele afigurava-se intocável e superior a coisas triviais como o vício, a doença, o afastamento progressivo do mundo real. “Só acontece aos outros”, pensávamos, nós e ele. Mas como não acontece só aos outros, também os entusiasmos das primeiras aventuras, quimicamente induzidas, em novos territórios sensoriais, deram lugar à desventura constante.

Vício, doença, afastamento progressivo do mundo real. Sucederam-se os conflitos mais sérios com a família e com a sociedade, que o levaram a algumas estadas na prisão. Assistimos impotentes às agonias da privação, à doença galopante que lhe causticava o fígado, à solidão de quem, estando perto de nós, estava longe demais para o podermos ajudar, como era nossa vontade. Da prisão e do hospital escrevia-me que “nunca mais”.

Não teve nunca força de vontade suficiente para cumprir. Acabou por deixar este mundo precocemente, vítima da sua insaciável “sede de viver”. Tal como nós, o grupo de amigos, ele tinha algumas noções de Religião, mas muito poucas de Espiritualidade. E as interrogações chegam-me em catadupa: Se ele entendesse que a felicidade não é deste mundo, ter-se-ia dado a tantos excessos? Se ele conhecesse a causa dos sofrimentos e das desigualdades, teria tido menos aversão a uma vida comum, com as suas canseiras e preocupações?

Se ele soubesse que as obrigações familiares, sociais e profissionais, são disciplinadoras do Espírito e passaporte para a evolução, teria a todas recusado tal como fez? Se ele tivesse a noção de que um suicídio lento é, em termos espirituais, um “rasgar de contrato”, teria destruído o corpo e perturbado a mente tal como fez? Há um mercado florescente que se aproveita da ignorância dos incautos consumidores de drogas.

O proibicionismo parece aguçar ainda mais os apetites. As estatísticas e as advertências dos profissionais da Saúde passam ao lado dos incautos e não demovem os temerários. Uma visão meramente materialista, ou meramente religiosa, não chegam para esclarecer. Urge dar uma visão espiritual do problema. Penso no meu amigo que partiu em condições dolorosas e presto-lhe homenagem espalhando a palavra. Conhecendo-o como conheço, estou certo de que ficará feliz por cada pessoa que não siga as suas pegadas.

Por Roberto António Não era um vulgar preguiçoso.