Pedagogia Pestalozzi: mestre de Kardec?
Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 154 min
Sempre que se faz uma abordagem biográfica de Allan Kardec, é referida a sua passagem pelo Instituto de Yverdon, e a sua formação pedagógica junto de Pestalozzi. Mas quem foi Pestalozzi? Johann Heinrich Pestalozzi nasceu a 12 de Janeiro de 1746 em Zurique, na Suíça. Ainda jovem era-lhe reconhecida a inteligência e a acuidade de espírito, mas apenas brilhava no que lhe interessava.
Frequentou a escola latina, o Collegium Humanitatis e o prestigiado Carolinum, onde teve como mestres grandes nomes de humanistas de Zurique como Bodner, Gessner, Breitinger. Na juventude já ele afirmava que “quando for grande irei apoiar os homens do campo; eles devem ter os mesmos direitos que os burgueses da cidade.” Renunciou ao exame de acesso ao curso de teologia e dedicou-se ao estudo de J.J.Rousseau, Montesquieu, Machiavel, Cícero, questionando intimamente “onde reside a verdadeira liberdade do homem” e em que medida ela é um bem para o progresso.
Teve várias experiências pedagógicas (Neuhof, Stans, Burgdorf ) que culminaram com o sucesso do Instituto de Yverdon (1805-1825), em Yverdon-Les-Bains, no cantão de Vaud, na Suíça. A sua obra, tanto prática como teórica, influenciou a educação na Europa e no mundo inteiro. Mais que um pedagogo, ele foi um educador dedicado e atento, privilegiando na sua prática pedagógica, pela primeira vez na história da educação, o desenvolvimento moral e o amor.
Antes, outros teorizaram (como Comenius ou Rousseau). Pestalozzi fez do amor um sentimento não mais limitado ao indivíduo, à matéria, mas o dominador de todas as outras emoções e “impulsionador da humildade” (L’Amour Divin). O famoso Instituto de Yverdon, teve como alunos, crianças e jovens vindos de vários países da Europa: França, Inglaterra, Itália, Alemanha, Rússia. Professores de todo o mundo procuravam o pedagogo Pestalozzi e ofereciam-se para colaborar e aprender no Instituto.
Os professores, recém-chegados, sentavam- -se junto dos alunos e assistiam às aulas, de manhã em francês, à tarde em alemão. Alunos e professores de várias nacionalidades conviviam, assim, em perfeita harmonia. O diálogo inter-religioso era também uma realidade. Todas as crenças eram não só permitidas, como católicos, protestantes e judeus podiam durante a semana assistir, nas capelas respectivas (na vila ou em cidades próximas), aos cultos religiosos que professavam.
O pedagogo suíço promulgava a religião do coração e da vida, “aquela que procura Deus nas profundezas da alma humana” (Chant du Cygne, 1802). Registos de cartas escritas por alunos do Instituto, filhos do professor Marc-Antoine Jullien, fazem referência a uma rotina diária dinâmica, em que todos colaboravam nas actividades educativas, bem como domésticas. Disciplinas como geografia, biologia ou física, não se consignavam às paredes de uma sala: elaboravam cartas e mapas geográficos após a observação da natureza, ou punham em prática o que aprendiam, no cultivo de produtos hortícolas que consumiam no próprio Instituto.
Um dos sonhos de Pestalozzi foi ter uma escola para os pobres, para aqueles a quem era negada a educação por falta de recursos e oportunidades. Ele foi mais longe. Criou uma escola para todos, onde os mais ricos pagavam para que os mais pobres pudessem estudar. Mas mais importante que o apoio financeiro, foi a formação cultural e social subjacente. Os pobres podiam aspirar ao conhecimento e delinear um caminho de vida profissional nunca antes imaginado, e ao mesmo tempo não guardavam dentro de si sentimentos de frustração em relação à classe mais rica.
Por outro lado, os mais abastados conviviam diariamente com os desfavorecidos, aprendendo a reconhecer que todos têm potencialidades e virtudes, independentemente da classe social a que pertencem. É neste ambiente, de intercâmbio cultural, promotor da liberdade de ser e agir, onde cada um descobria o que aprendia, movido pelo interesse e pela intuição, que Hippolyte L. Denizard Rivail, passa a sua juventude (1815-1822).
Se os métodos inovadores do Instituto proporcionaram a Rivail uma aprendizagem que desperta para a autocrítica, para o uso da razão perante todos os factos da vida, conjugada com a afeiçãoeo amor, a convivência com o pedagogo suíço influenciou o seu carácter rigoroso e ao mesmo tempo tolerante. Em 1793, Pestalozzi escreve uma carta a Nicolovius (ministro de Estado da Prússia), onde afirma que sente o cristianismo como o mais puro e nobre avatar da doutrina de elevação do espírito, e que para alcançar esse desenvolvimento interior, o verdadeiro sentimento de amor, só será possível pela dominação da razão sobre os sentidos.
E termina a carta dizendo que “tenho o pressentimento que a minha voz clama no deserto para preparar o caminho de alguém que virá depois de mim. É como se muitas vezes eu mesmo não soubesse o que estou a fazer ou para onde vou.” Por Regina Saião 1 Michel Soëtard, in Pestalozzi, Press universitaire de França, 1995 2 Roger de Guimps, in ob.cit. foto arquivo Os professores, recém-chegados, sentavam-se junto dos alunos e assistiam às aulas, de manhã em francês, à tarde em alemão.
