Notícia Jornadas de Cultura Espírita Não obstante a mudança dos tempos
Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 66 min
e o aperfeiçoamento dos métodos, os espíritas cada vez mais se unem para oferecer às comunidades a quota do seu trabalho na aposta de futuros investimentos evolutivos. Esquecem títulos e valores para trabalhar o carácter e o sentimento. A Associação de Divulgadores de Espiritismo de Portugal (ADEP) realizou as suas Jornadas de Cultura Espírita, em Óbidos, nos dias 23 e 24 de Maio de 2008 e escolheu o Auditório Municipal “A Casa da Música” para falar de “Espiritismo: Comunicar”.
Cerca de 170 pessoas participaram nas Jornadas da ADEP. Chegaram de vários pontos do país. De Bragança a Olhão. E prometeram ser muitas mais porque ao despertar interesse pelos problemas espirituais, a filosofia espírita presta grande serviço ao mundo material e lembra ao homem, em particular, que apesar do seu orgulho, não passa de um simples fragmento em toda a criação. Eram 20h45 do dia 23 de Maio. Recebidos e instalados os participantes, a aposta do presidente da ADEP, Ulisses Lopes, apoiado por Amélia Reis, colaboradora do Centro de Cultura Espírita, das Caldas da Rainha, e membro da ADEP, começou por ser encarada num misto de sensatez e ironia, para tornar mais leve o cansaço de um final de semana.
Procurando motivar a qualidade das intervenções no decurso dos dois dias daquele evento, um vídeo sobre a divulgação do Espiritismo em Portugal evocaria a horizontalidade do movimento espírita, enfatizando a decorrência de iniciativas e lides em que a ADEP se tem empenhado, tendo em vista a valorização da doutrina. Depois, a primeira conferência. Vítor Rodrigues, doutor em Psicologia pela Universidade de Lisboa e presidente da EUROTAS, foto josé braga European Transpersonal Association, sobejamente conhecido pelos seus gostos de “viajar com os clientes pelas terras da mente”, brindou o público com mais uma parcela do seu real acervo ético e cultural, própria de um terapeuta experiente e sabedor.
Entre sorrisos e ensinamentos e sob o olhar atento dos participantes, “A Psicologia da Comunicação” durou mais de uma hora, numa ténue aliança entre o conhecimento científico e a experiência humana. Seguiu- -se um debate. E a visualização de um novo vídeo. O deambular das cenas observadas ia “transportando” os olhares e a imaginação através dos insondáveis caminhos que a dinâmica espírita palmilhou desde o ano de 1857 até aos dias de hoje.
A música, linguagem de entendimento universal, não deixou de estar presente. Filomena Lencastre e João Paulo, membros do Centro de Cultura Espírita, das Caldas da Rainha, cantaram em conjunto, preparando o ambiente para o recurso audiovisual que se seguiria: “O Centro Espírita”. Parodiando as inúmeras situações a que o centro espírita se expõe na partilha e divulgação dos conhecimentos deste e do “Outro Mundo”, um grupo de colaboradores da Associação Sociocultural Espírita de Braga revelou, através de uma pequena reportagem, que, pese embora o grande avanço do século XXI a cortina das trevas ainda cobre as mentes falíveis e supersticiosas, impedindo o real conhecimento da Doutrina dos Espíritos.
Em bom estilo minhoto, humor e alegria envolveram sincronicamente todos os presentes naquele serão pacífico de Óbidos, fazendo agradável ponte para as conferências do dia seguinte. Sábado, dia 24 de Maio. Manhã soalheira. O programa era promissor. Os postulados doutrinários estariam ali, bem perto de todos, em atmosfera de fogosa esperança. O esquema previsto para a apresentação das doze intervenções, distribuídas por painéis e agendadas para aquele dia, prometia atrair e distrair o auditório, na medida em que assumia valores próprios e ligações visuais com as mensagens que deveriam apoiar.
A responsabilidade primária de cada palestrante e os programas modernos da apresentação em computadores fizeram o resto. Reportando-se à veracidade dos livros espíritas e à credibilidade de autores clássicos: Léon Denis, Gabriel Delanne, Ernesto Bozzano, entre tantos outros, e modernos: Deolindo Amorim, Richard Simonetti ou José Herculano Pires, o orador Carlos Ferreira, membro da ADEP, apresentou o primeiro painel do dia e destacou o papel da literatura espírita na formação e informação adequadas ao progresso do ser humano.
Outros temas se perfilharam. Grafismos. Jornalismo de eficiência, consciência e rigor, onde os conceitos doutrinários, de Allan Kardec, estejam presentes e internet, como vasto canal de informação e cultura ao serviço do público, iam surgindo aos olhos e ouvidos da assembleia. Vasco Marques, membro e webmaster da ADEP, forneceu dados concisos e ferramentas apropriadas à comunicação fácil e pronta a ser usada por qualquer centro espírita.
Depois, um pequeno intervalo seguido de um debate. E novamente a comunicação em evidência: “Como palestrar”, uma forma preponderante de abordar ideias, modificar percepções e esclarecer consciências nos centros espíritas, conduzida por José Lucas, secretário da ADEP. Pelo meio-dia, Amélia Reis pronunciou-se sobre a neutralidade dinâmica do atendimento ao público nos centros espíritas. Recordou aos assistentes as diversificadas capacidades de que os mesmos deverão dispor, como o local físico ou as características humanas e doutrinárias de quem executa esta tarefa, a fim de não “criar mais dúvida e confusão, em vez de esclarecer” aqueles que procuram os benefícios relacionados com a prática do bem.
Seguidamente, coube a Noémia Margarido, tesoureiro da ADEP, falar sobre a “Comunicação Mediúnica”. Dissertou sobre a mediunidade como canal de comunicação por excelência e ainda como serviço de utilidade pública, desde que salvaguardados os inconvenientes e os perigos que a mesma acarreta, ao mesmo tempo que ia fundamentando as suas afirmações nos princípios da observação e da pesquisa, preconizados por Allan Kadec. A manhã chegava ao fim.
E o almoço prometia retemperar os estômagos. Um debate iniciou os trabalhos da tarde. Seguiu-se novo painel: “Formação e relações interpessoais no centro espírita”. Mário Correia, membro da ADEP, apelou à necessidade de formação espírita no combate às dúvidas e conflitos que assolam as mentes da humanidade actual e ao benefício do conhecimento administrado em todas as idades, mas prioritariamente na infância e na juventude para derrubar as barreiras da incompreensão, dos vícios e das paixões, tão próprias dos nossos dias.
Regina Figueiredo, colaboradora do Centro Espírita Caminheiros da Luz, no Porto, deu- -lhe seguimento. Chamou a atenção para a obrigatoriedade de princípios educacionais nas crianças e nos jovens, principais receptores dos fundamentos espíritas que os elevarão a estratos mais alinhados, ao mesmo tempo que os desviarão do veneno da indiferença e da balbúrdia dos desocupados, muito visíveis na sociedade actual. Coube ainda a Jorge Gomes, vice-presidente da ADEP, exprimir por palavras a imprescindibilidade das relações interpessoais no centro espírita, local privilegiado para entender a irreversibilidade da lei do progresso e do entendimento da Doutrina Espírita como basicamente informativa.
A consciência de fraternidade que a humanidade está a atingir obriga a repensar os painéis mentais construtores de ligações fraternas e a abolir os constrangimentos responsáveis pela desarmonia entre iguais. De seguida, Ulisses Lopes expôs, em breves palavras, como cuidar do espaço físico do centro espírita. Limpeza, conforto, simplicidade, brio, imagem simples, mas cuidada, não são, segundo ele, entraves a uma decoração espacial onde os princípios doutrinários da codificação estejam presentes, como: ausência de rituais, imagens, altares e paramentos, entre outros.
Pequeno intervalo. Novo debate. Depois, a arte espírita como forma de comunicação. Reinaldo Barros, membro da ADEP, expôs conceitos e diferenciou a arte mediúnica da arte espírita, aquela “onde se incluem os postulados da Doutrina Espírita”. Os momentos que se seguiram a este painel seriam de surpresa. Reinaldo Barros foi mais longe, exibindo dotes de artista musical. Cantou a liberdade: “Hoje é dia de ser livre e ser feliz/Hoje é dia de amar e ser amado como sempre quis/Hoje é dia”, encerrando oficialmente as Jornadas.
Finalmente, a surpresa que todos aguardavam. A organização anunciou o lançamento do “Jornal de Espiritismo” em versão on-line. A emissão em papel já conta cinco anos consecutivos. Os presentes no auditório aclamaram a iniciativa e prometeram aderir, tendo em vista o enobrecimento da natureza cultural da filosofia espírita. Estava assim terminada uma maratona de agradáveis horas de educativo convívio. Os presentes no auditório, mas também os 470 que pela primeira vez assistiram a um evento espírita em Portugal, via internet, deram testemunho ao mundo de que o Espiritismo educa e cativa.
Texto: Eugénia Rodrigues Os vídeos de todas as jornadas estão disponíveis no sítio da ADEP em www.adeportugal.
