Opinião elementos básicos: o emissor de uma mensagem, seu receptor e a
Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 114 min
própria informação a ser transmitida. Ao receber a in-formação, cabe ao receptor decidir se tomará a mesma para si ou não. Portanto, no que diz respeito ao trato com o mundo invisível através do canal mediúnico, não basta que se compare uma informação entre um punhado de médiuns. Tão pouco se deve recusar automaticamente uma ideia trazida por um único espírito.
Em ambos os casos, é absolutamente necessário que o emissor tome papel activo na análise das informações transmitidas, utilizando os seus conhecimentos como base para a aplicação de seu próprio julgamento. Em uma palavra: ele deve analisá-las com o seu bom senso. Alguns críticos podem afirmar que não há nada de científico nisso, que tal análise pessoal não pode ser medida através de dados quantitativos. E estão correctos, a não ser pelo facto de que se trata de um método científico voltado exclusivamente para as ciências humanas, em especial, à comunicação social, uma vez que o contacto com o mundo espiritual se trata efectivamente de um processo de diálogo entre pessoas.
Sob esse novo ponto de vista, ambas as dúvidas levantadas anteriormente quanto à legitimidade da obra de Allan Kardec, e similares, podem ser refutadas sem maiores problemas. Ao usar mais de dez médiuns, Kardec, que ainda estava a elaborar um modelo que explicasse o que de facto estava a ser observado, aplicou a melhor ferramenta que dispunha para tal estudo, o método matemático, a fim ter uma ideia de conjunto, e não somente fragmentos do fenómeno sob observação.
Após comparar e analisar uma série de nuanças, desde a questão da linguagem do médium até à qualidade das informações, percebeu que as manifestações eram causadas pelas pessoas que, apesar de não mais contarem com os seus corpos orgânicos, mantinham as mesmas características psicológicas de quando estavam vivas. Estabelecido o facto sob bases da matemática estatística, Allan Kardec focou as suas atenções nas mensagens que eram trazidas.
De facto, ele comportou-se como um sociólogo que, munido de um rádio de longa distância, se dedica ao estudo de um povo ou nação através de múltiplas entrevistas com as pessoas que compõem tal agrupamento humano. E na impossibilidade de se ter certeza absoluta, salvo alguns casos, conforme descrito em “O Livro dos Médiuns” [5], quanto à identidade dos seus interlocutores, restou-lhe fazer aquilo que qualquer pessoa de bom senso faria: analisar com todo o cuidado o que lhe era dito.
Desta forma, mesmo que os dez médiuns lhe trouxessem uma informação cuja essência não tivesse sustentação racional, ela seria recusada. De maneira análoga, muitas vezes uma comunicação de um único espírito, ou médium, bastava-lhe para tomá-la como verdade, nunca absoluta, mas ao menos como algo digno de ser estudado, como foi o caso da comunicação de Galileu pelo médium Camille Flamarion. Contudo, a prática espírita mostra que a grande maioria dos casos se situa entre ambos os extremos anteriores, isto é, dificilmente uma ideia importante fica restrita a um único médium, ou melhor dizendo, a um mesmo agrupamento espírita.
A própria ciência oficial está repleta de exemplos do género, em que pesquisadores, de maneira absolutamente independente, chegaram a descobertas semelhantes, senão idênticas. Muitos poderiam argumentar que se isso fosse verdade, teríamos o desenvolvimento contínuo das ideias trazidas à época de Allan Kardec. Ora, a resposta a essa questão é bastante simples: uma vez que o processo de transmissão de ideias se baseia na comunicação entre pessoas, não existe diálogo sem dialogadores.
A experiência demons-tra que os espíritos estão lá, prontos para manterem uma conversa sadia e instrutiva em torno dos mais variados assuntos. Resta saber por que motivo, nós, espíritas, deixámos de nos interessar por tal diálogo com vistas ao esclarecimento geral. Há muito que o homem se tem questionado sobre a existência do mundo dos espíritos. Muitos pesquisadores, espíritas ou não, se têm dedicado ao estudo dos fenómenos físicos produzidos por espíritos que, a despeito da sua origem espiritual, possuem eco no mundo material, o que abre a possibilidade do emprego dos métodos adoptados pelas ciências naturais.
Contudo, muitos tentaram aplicar os mesmos métodos aos próprios espíritos e às ideias transmitidas pelos médiuns, como se próprios espíritos fossem um fenómeno material qualquer, como uma pedra em queda livre, um astro que se movimenta no céu, ou ainda um interruptor que se acende. Antes disso, a experiência acumulada demonstra que os espíritos devem ser tomados, segundo eles próprios, como pessoas, cujas possibilidades e capacidades variam ao infinito, da mesma forma que ocorre com a humanidade da qual fazemos parte.
Desta forma, ao invés de tubos de ensaio, balanças e eléctrodos, os espíritos e as suas ideias devem ser estudados por uma única ferramenta: o diálogo, cujas bases de análise podem ser adquiridas junto à comunicação social. É nessa ciência, portanto, que Allan Kardec e outros pesquisadores espíritas se apoiaram para a elaboração das suas obras, o que, naturalmente, pode ser confirmado por qualquer pessoa que aplique essa mesma metodologia aos estudos do mundo invisível.
Por Dermeval Carinhana, Associação de Divulgadores do Espiritismo de Campinasdcarinhana@gmail.com Bibliografia [1] KARDEC, Allan. A Minha Primeira Iniciação no Espiritismo. Obras Póstumas. 26 ed. Rio de Janeiro: FEB, p. 270. [2] _. Introdução. O Evangelho Segundo o Espiritismo. 112 ed. Rio de Janeiro: FEB, p. 28. [3] FONSECA, Alexandre F. da,. Uma análise matemática do Método do Controle Universal do Ensino dos Espíritos.
Reformador, n. 2141, p. 275-277, nov. 2007. [4] KARDEC, Allan. Uranografia Geral. A Gênese. 35 ed. Araras: IDE, p. 89. [5] _. Identidade dos Espíritos. O Livro dos Médiuns. 66 ed. Araras: IDE, p. 294.
