29 — índice de conteúdos

Opinião Uma das bandeiras mais utilizadas na defesa do espiritismo é o

Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 103 min

Partilhar
Idioma

facto de que o seu conjunto principal de ensinamentos, comummente denominado por alguns espíritas como “obras básicas”, foi construído sobre bases científicas, isto é, dentro do método científico das ciências naturais. O papel da Comunicação Social no método de Allan Kardec foto loucomotiv Nos seus próprios escritos, Allan Kardec deixa claro que foi aplicada a metodologia que ele próprio havia empregado quando realizou os seus estudos de química e física [1], analisando, comparando, elaborando teorias a partir das observações.

E foi nele que ele se baseou para apontar o critério a ser utilizado na admissão ou não de um ensinamento espírita: o princípio da universalidade, chamado por Kardec de “Controlo Universal entre os Espíritos” [2]. O raciocínio era simples: do mesmo modo que ao perguntarmos aos habitantes de uma cidade a localização de uma rua iremos nos dirigir ao local apontado mais vezes pelas pessoas que indagamos, uma ideia proveniente do mundo invisível só seria aceite se fosse confirmada em diferentes locais por diferentes pessoas.

Tal é a importância do princípio da universalidade que muitos espíritas têm nele o ponto de apoio para a refutação das críticas dos cépticos contrários ao espiritismo. Em recente artigo [3], o pesquisador espírita Alexandre Fonseca propõe um método matemático muito interessante para validar a metodologia de Allan Kardec. Segundo o autor, mesmo se se admitir algum “ruído” na transmissão dos ensinamentos dos espíritos, o uso de vários médiuns faz com que a margem de confiança nas informações seja elevada.

No caso específico de “O Livro dos Espíritos”, onde, segundo os registos de Allan Kardec [1] foram utilizados cerca de 10 médiuns, na hipótese de que cada um deles só consiga transmitir com fidelidade apenas 20% do conteúdo proveniente dos espíritos, se uma dada informação for confirmada por todos eles, a hipótese de que seja realmente verdadeira, segundo as leis da estatística descritas pelo autor, é da ordem de 90%, o que naturalmente é um valor muito significativo.

Apesar da aparente lógica rigorosa, a análise matemática conduzida pelo companheiro Alexandre não é capaz de explicar o conjunto da obra de Allan Kardec, nem tão-pouco é capaz de defendê-la das críticas dos cépticos. Citaremos dois exemplos, apoiados nas próprias obras de Allan Kardec, para demonstrar as afirmações anteriores. Em primeiro lugar, se por um lado foram utilizados mais de dez médiuns na elaboração de “Livro dos Espíritos”, por outro um capítulo de relevante importância em “A Génese”, intitulado “Uranografia Geral” [4], é obra de apenas um único espírito, cujas comunicações se deram através de apenas um médium, conforme nota de rodapé de autoria de Allan Kardec.

Ora, que motivo teria levado Kardec a abandonar aquilo que supostamente teria sido o alicerce da confiabilidade das ideias espíritas, o controlo universal entre os espíritos? De outra maneira, mesmo que se tivesse a certeza meridiana de que tudo nas obras de Allan Kardec fosse produto da comparação com rigor matemático entre dez médiuns, ainda assim, baseado nas próprias conclusões contidas em obras como “O Livro dos Médiuns”, mais especificamente no que diz respeito a dificuldade, senão impossibilidade de se identificar os espíritos [5], seria possível levantar-se a seguinte questão: como certificar-se de que a obra como um todo não foi ditada apenas por um único espírito que desejava impor sua própria vontade?

Apesar de aparentemente ambas as questões anteriores colocarem em cheque a obra de Kardec, e todas as obras espíritas de maneira geral, isso só ocorre porque na maioria das vezes tantos os críticos como também os partidários do espiritismo não levam em consideração um outro aspecto do método de Allan Kardec: que ele é fundamentado no diálogo com os espíritos. O método científico matemático possibilitou a Allan Kardec chegar à conclusão de que os fenómenos que observava eram gerais, isto é, faziam parte da natureza, pois em todas as partes e épocas havia relatos semelhantes.

Contudo, foi através do diálogo, da análise das mensagens dos espíritos, que ele constatou que tais fenómenos eram produzidos por inteligências independentes do médium e que, dentro das inúmeras possibilidades, a que mais explicava o conjunto de factos era a que admitia tais inteligências como sendo as pessoas que haviam deixado o mundo através do processo conhecido por morte. Portanto, não há como analisar a obra de Allan Kardec, e as demais obras espíritas que lhe são semelhantes nos objectivos, sem se levar em consideração o facto de que se está, em última instância, a lidar com um processo de comunicação humana, com algumas características que lhe são próprias.