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Jornal de Espiritismo nº 29 · Julho 2008Página 94 min
Crónica foto jorge gomes PUBLICIDADE O papel da matéria na evolução do espírito As informações trazidas pelos próprios espíritos estabelecem a existência de uma relação directa entre o grau evolutivo de um espírito e a influência da matéria sobre este. Quanto mais desmaterializado o Espírito, maior será seu estágio evolutivo. Desse conceito, pode-se concluir que de alguma forma a matéria serve de embaraço à marcha do espírito.
Porém, qual a origem dessa influência da matéria e como actua ela dessa maneira sobre o espírito? Uma boa pista para tal resposta encontra-se na própria proposição anterior: da mesma forma que quanto mais evoluído o espírito, menor será o efeito da matéria sobre ele, quanto mais primitivo o seja, maior será a sua ligação à matéria. Uma vez que nada no Universo foi criado sem um fim útil, podemos concluir que a matéria é um elemento indispensável no progresso do espírito nos primeiros estágios da sua evolução, mas que, com o passar do tempo, deixa de o ser.
A questão fundamental é: porquê? Segundo os Espíritos, a união entre o elemento espiritual e matéria vai muito além do fenómeno conhecido por encarnação. Esse conceito está expresso na questão 26, de “O Livro dos Espíritos” : Poder-se-á conceber o Espírito sem a matéria e a matéria sem o Espírito? “Pode, é fora de dúvida, pelo pensamento.” Ora, se as inteligências habitantes do mundo invisível, a que chamamos Espíritos, estivessem se referindo tão-somente à ligação espírito-corpo de carne, a resposta não faria o menor sentido, visto que qualquer Espírito desencarnado poderia reconhecer- -se imediatamente livre da matéria.
Assim, é possível inferir que a resposta abrange um espectro muito mais amplo que o espírito na escala humana, dizendo respeito, inclusive, aos próprios espíritos desencarnados. Em outras palavras, o que conhecemos por “Espírito livre da matéria” expressa unicamente a ideia de que o Ser nesta condição utiliza um organismo, conhecido por perispírito, sem, contudo, estar livre da matéria. Esta conclusão está plenamente de acordo com proposição inicial, que em nosso actual estado de evolução, seja no plano visível ou invisível, sentimos ainda forte influência da matéria.
Uma vez descartada a hipótese de que a separação entre espírito-matéria se dá com o fenómeno da morte, também se pode eliminar a ideia de que o processo de ligação seja restrito apenas ao nascimento de uma criança, ou encarnação. Ao invés disso, tal ligação deve ser entendida num estágio evolutivo muito anterior ao humano. Daí decorre que a matéria também sofre a acção salutar do espírito, de maneira que ambos os elementos progridam, ainda que por meios diferentes.
Ambos os raciocínios podem ser observados nas seguintes questões de “O Livro dos Espíritos”: 22a) - Que definição podeis dar da matéria? “A matéria é o laço que prende o Espírito; é o instrumento de que este se serve e sobre o qual, ao mesmo tempo, exerce sua acção.” 25) O Espírito independe da matéria, ou é apenas uma propriedade desta, como as cores o são da luz e o som o é do ar? “São distintos uma do outro; mas, a união do Espírito e da matéria é necessária para intelectualizar a matéria.
” Assim, o espírito no seu estado primitivo necessita de um elemento externo que seja capaz de despertar as suas faculdades que ainda se encontram em estado latente. Tal é o papel da matéria. Nesse sentido, é razoável imaginar que a matéria, longe de ser completamente passiva, contenha determinadas características, uma vitalidade, podemos assim dizer, capaz de estimular o espírito, fazendo-o progredir. Como todo efeito inteligente é resultado de uma acção inteligente, essa potencialidade da matéria tem a sua origem em algum ponto anterior à sua ligação com o espírito, de modo que, tal como a conhecemos, a matéria é decorrente de um desenvolvimento anterior.
Para ilustrar esse conceito tomaremos um fruto, um abacate, como exemplo. Assim como a polpa do fruto foi lentamente fabricada pela planta, algum tipo de elemento que desconhecemos, que chamaremos aqui de proto-matéria (antes da matéria) também foi lentamente sendo elaborado segundo processos de evolução ainda desconhecidos por nós. Isso explicaria determinadas características da matéria capazes de estimular o espírito na sua evolução.
Da mesma forma, tal como um animal que se serve da polpa para se desenvolver e manter assegurada a sua existência, o elemento espiritual tem na matéria uma espécie de vitalidade oriunda de um estágio anterior à própria ligação entre ambos. Contudo, à medida que o espírito evolui, agindo e sofrendo a acção da matéria, ele fatalmente atingirá um ponto em que, ao invés de auxiliá-lo, a matéria passa a turvar-lhe novas visões.
Nesse ponto da sua evolução, assim como a semente se separa naturalmente da polpa para que assim possa germinar, o espírito espontaneamente busca novos caminhos para escapar, digamos assim, da influência da matéria, sem a qual jamais teria chegado ali. Tal é o sentido que damos à desmaterialização do espírito. Portanto, não estamos perdidos em meio às garras da matéria. Estamos apenas seguindo o nosso curso evolutivo, a fim de que cada vez mais possamos entender o Criador.
Por Dermeval Carinhana Instituto de Estudos Espíritas “Wilson Ferreira de Mello”, Campinas, Brasil.
