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entrevista Albuquerque Rocha: ecos da rádio Um veterano

Jornal de Espiritismo nº 3 · 2004Página 96 min

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Albuquerque Rocha: ecos da rádio

Um veterano. Em 29 de Março conta-se um ano sobre a sua partida para o mundo espiritual. Impossível separá-lo do Núcleo Espiírita Cristão, do Porto, que fundou com outros elementos. No tempo da rádio-

pirata, na década de 80, deu duas entrevistas. Eis o extracto de uma...

— Tendo estado tantos anos ao serviço da Polícia Judiciária, e tendo em conta o seu ideal fraterno, como resolve esse conflito?

Albuquerque Rocha — Com os grandes problemas da vida, nós aprendemos, normalmente, lições. E as lições são tanto maiores quanto for a dificuldade. A profissão, à primeira vista, parece ser irreconciliável pela maneira como a polícia ainda é encarada pelas questões religiosas, onde o amor deve predominar. Mas não, na PJ conseguimos ver uma profissão altruísta quando a encaramos deste ponto de vista: aqueles que por ali passam, e que muitas das vezes são marginais, são apenas almas que necessitam mais de carinho e de amparo do que de repressão, que a nada conduz, conduz sempre à violência.

Assim, nós entendemos que a fraternidade é, na verdade, uma meta a atingir ainda, que a humanidade ainda não conquistou ainda.

Torna-se necessário que os homens se entendam e que eles deixem de desejar para os outros aquilo que não querem para eles e nessa altura verificariamos que a justiça deixaria de ter o papel que ainda hoje tem na sua aplicação, porque ela seria reabsorvida automaticamente pela fraternidade entre os homens. Havendo fraternidade, a justiça abandonaria o papel que hoje tem e deixariam os tribunais de ter acumulados tantos processos. Essa meta está ainda distante da humanidade, mas caminhamos para lá através dos tempos.

Na justiça, na verdade vemos que a justiça divina é aquela que não sofre alterações, é imutável. O amor, a fraternidade, a caridade, a humildade serão aquelas virtudes que predominam através da vida, da vida eterna. E, na justiça humana, verificamos que há alterações, mutações, tal qual como os povos, os hábitos, costumes dentro da própria evolução social. Se a justiça humana é uma justiça que flutua, a justiça divina é constante, eterna.

— Conviveu com Laurentino Simões, antes da revolução de 25 de Abril de 1974. Algum comentário?

A.R. — Eu teria muito a dizer de Laurentino Simões, mas num programa radiofónico limitado poderemos apenas dizer que Laurentino Simões foi um pioneiro do Espiritismo sobretudo no Norte

de Portugal, mais propriamente no Porto. Conheci-o em 1967, liguei-me a ele por uma amizade de facto muito sincera, muito fraterna e jamais nos afastámos um do outro até 1980, no ano em que ele desencarnou. Laurentino Simões foi o impulsionador, como dissemos, do Espiritismo e de todos ou senão quase

Óa esquerda para a direita, na década de 1980: Terroso Martins (fundador da CEC, Rio Tinto), Manuel dos Santos Rosa (Lisboa) e Albuquerqu: Rocha durante recital da Juventude Espírita Meimei, Águas Santas, Maia |

todos os núcleos espíritas existentes mesmo no Norte do país e mais propriamente no Porto, e têm todos a seiva de Laurentino Simões.

— Antes de ser reposto o direito de associação, era difícil ser adepto da doutrina espírita?

A.R. — Sim, na verdade era mais difícil, mas não deixava por isso de se cumprir a nossa missão. Recordávamos os primeiros cristãos, que se reuniam nas catacumbas, e, como espíritas, andávamos de porta em porta e nunca tivemos obstáculos de maior. Só não tínhamos o direito de associação e reunião, que hoje, graças a Deus, se conseguiu com grandes vantagens, porque um maior número de pessoas toma conhecimento de uma verdade que é extraordinariamente necessária nos dias que atravessamos.

— Há algum episódio que queira partilhar connosco que tenha ocorrido consigo nessa época?

A.R. — Eu entrei para o Espiritismo por uma porta larga, e é essa a porta que geralmente está aberta à maioria da humanidade. Chama-se sofrimento. Normalmente, começamos por ter

alterações, foi o meu caso, e tem sido o caso pela experiência que tenho de quase 20 anos dentro da doutrina, começamos por ter alterações no comportamento nervoso e psíquico e os calmantes não resolvem propriamente o problema. Os anos vão passando, a tortura vai continuando, e temos de procurar algo,

s itério de Pêre Lachaise, em Paris, França

normalmente só procuramos Deus no fim de tudo, porque primeiro procuramos homens e nos homens julgamos resolver todos os problemas da nossa vida. Quando carecemos de alguma coisa maior, só o Cristo é o caminho. Então procuramos o centro espírita, e no centro encontramos o Consolador prometido por Jesus. Aí encontramos verdades que nos esclarecem e os problemas que nos atormentam a alma abrandam. Então ficamos, normalmente ficamos...

— E por que não ficam todos? A.R. — É evidente que sempre houve pessoas, ao longo dos tempos, e hoje ainda existem, que são refractárias ao Espiritismo porque o desconhecem. Normalmente nós encontramos pessoas com uma cultura bastante avançada e que negam o espiritismo e o mais lastimável é que essas pessoas o neguem desconhecendo-o completamente: é que nunca se debruçaram sobre os estudos da doutrina espírita. Depois de estudarmos o Espiritismo, sem ideias preconcebidas, e se esse estudo vem acompanhado já, de facto, de uma preparação do espírito, aí é

Henrique C. M. Albuquerque Rocha 9.10.1925 a 29.03.2003

Para quem o conheceu, não é possível pensar nele sem evocar a associação de que foi co-fundador: o Núcleo Espírita Cristão*, pouco depois do 25 de Abril de 1974, a revolução que libertou Portugal da ditadura e que estendeu o associativismo ao movimento espírita. Albuquerque Rocha nasceu em Pinhel, na Guarda, bem no interior do país. Apesar de passar a sua infância em contacto com a natureza, disse-nos certa vez ter sido uma criança de saúde débil.

Em adulto recorria aos médicos com

A dada altura da sua vida, «o padecimento prolongado impele-o na busca dos assuntos espirituais. Passa a ouvir a palavra da religião evangélica. Passado pouco mais de um ano apercebe-se, não obstante os relevantes conhecimentos que ali adquire, que precisava de mais, de algo mais substancial.

«Pouco tempo depois, alguém acaba por lhe emprestar a revista «Fraternidade». Depara com um artigo que lhe dizia intimamente respeito, ao tratar da dor. AÀ sua esperança reaparece. A dor ensinava-o agora a entender os importantes conceitos que anteriormente não passariam talvez de

meros agrupamentos de palavras. Entusiasmado, assina a revista. Inicia depois o tratamento espiritual pelo passe magnético, e completa-o pelo esforço próprio, no apoio do estudo esclarecedor.

«Seguidamente forma equipa com Laurentino Simões, no auxílio às pessoas muito necessitadas que os procuravam.

«Aí, empenhando-se no trabalho espíiritual com absoluto desinteresse material, grande parte das suas moléstias cessam, dando lugar a considerável restabelecimento. Surgem grandiosas curas. Prossegue admiravelmente na prática da doutrina espírita. Chega a altura da organização

do Núcleo Espírita Cristão (NEC) e é um dos seus fundadores.

«Fruto de todo um processo de burilamento interior que efectuou tão bem, é a personalidade esclarecida e cativante para todos quantos se aproximam dele, sempre amigo, que é fácil reconhecer e admirar» (1). E, de facto, das várias vezes em que visitei o NEC, invariavelmente encontrava-o a atender alguém cujo rosto denunciava dificuldade, e a faia era de esperança e paz, de fé e amor.

* O Núcleo Espírita Cristão, o centro espírita mais antigo do Porto em actividade, comemora em 31 de Março o seu 37.º aniversário

(1) «Nósea Criança», boletim informativo n.º 7 Juventude Espírita Meimei, Setembro de 1979

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