Entrevista Admir Serrano: a morte não existe De origem brasileira, Adm
Jornal de Espiritismo nº 30 · Setembro 2008Página 86 min
Entrevista Admir Serrano: a morte não existe De origem brasileira, Admir Serrano mora nos EUA, em Miami. Com estudos universitários que abrangem áreas diversas, incluindo letras, história, filosofia, psicologia e administração, Admir aparece num bom momento como escritor. Lemos o seu livro «Morrer não é o fim», lançado pela Petit Editora, que evidencia fluência, é sucinto, claro. Admir Serrano, colabora com uma associação espírita da cidade em que vive e trabalha no campo da gestão de empresas, e faz palestras quer em português, espanhol ou inglês.
Tendo um especial interesse pelas pesquisas que apontam com respaldo científico a sobrevivência da alma após a morte do corpo, lançamos-lhe algumas perguntas. Como surgiu a ideia de escrever um livro sobre este assunto, que tanto se evita no dia a dia? Admir Serrano – Exactamente esse motivo. Era necessário trazer a público, em linguagem legível, estudos científicos que vêm sendo elaborados em laboratórios e universidades e por pesquisadores independentes em várias partes do mundo, comprovando a imortalidade da alma.
Estudos estes que vêm corroborar o que aprendemos no Espiritismo: Sim, existe vida após a morte. Sim, existe uma dimensão espiritual onde passaremos a habitar após deixarmos esta encarnação. Sim, reencontraremos nossos seres queridos que se foram, aqueles cuja saudade ainda nos aperta o coração. Sim, reavaliaremos as nossas vidas pregressas, reconheceremos os erros cometidos, estudaremos o que precisamos melhorar, e...
sim, retornaremos à Terra, para esta grande escola, como aqui estamos hoje, para uma nova ciranda, outra oportunidade de avançar na senda do progresso até que um dia, ainda que muito distante, encontraremos a divina luz, que é nosso destino. O cancro aparece recorrentemente em casos que refere na sua obra. Porquê? A. S. – Não foi intencional. Faço referências a pacientes terminais, e o cancro é muito comum como causa.
Como curiosidade, de acordo com a American Cancer Society, em torno de 12 milhões de pessoas desenvolveram câncer em 2007, no mundo, e quase 8 milhões morreram em decorrência da doença. Que tipo de fenómenos são capazes de demonstrar a continuidade da vida após a morte? A. S. – Na minha opinião, primeiro as lembranças espontâneas de vidas passadas, sobretudo aquelas que a criança se recorda de haver desencarnado de maneira trágica e traumática, trazendo para o novo corpo marcas de nascença ou defeitos congénitos correspondentes às feridas que causaram a morte na sua vida anterior.
Em segundo, vêm as chamadas experiências de quase- -morte (EQM), tema que abordo com detalhes em meu segundo livro, Nos portais do além (Petit Editora, já disponível no Brasil). Apesar dos fenómenos estudados e publicados ao longo do tempo, que razões aponta para que ainda hoje a maior parte da população mundial evidencie dificuldade em perceber a continuidade da vida após a morte? A. S. – Talvez por uma questão de prioridade pessoal, ocasionado pela profunda ênfase que a sociedade moderna dá às conquistas materiais.
O foco é totalmente voltado à satisfação dos prazeres físicos, identificação total do ser humano com a sua natureza material, em detrimento da sua natureza espíritual. E ainda há outra agravante: a ciência convencional não admite a existência da alma humana, e tal ciência é dominante, sobretudo no mundo ocidental. Ela se mostra como dona da verdade, e as suas ideias materialistas são disseminadas nas instituições de ensino, e daí à sociedade em geral, e o ser humano sucumbe-lhe, comprando a ideia de que a sua vida se inicia no nascimento e se extingue na morte.
No que lhe diz respeito, qual a maior evidência que o leva a concluir que a vida continua? A. S. – No meu caso pessoal, as profundas experiências de emancipação ou desdobramento perispiritual que tenho com frequência. Nessas experiências, em completa lucidez mental, vejo-me fora do corpo físico, mas ainda com um corpo, com minhas faculdades mentais intactas, e capaz de me locomover com o poder do pensamento. Sei que ainda estou ligado a um corpo físico, mas sei também que posso seguir, e viver sem ele.
Aliás, muitas foram as ocasiões que já acreditava estar desencarnado, tamanha a lucidez. E para mim não faria diferença se retornasse ao corpo ou não. Eu estava activo, em lugar que me era familiar, na companhia de Espíritos que me eram familiares. Em resumo, estava em casa, e poderia muito bem ficar por lá. Como compreender que um assunto tão importante para a orientação de vida de cada pessoa ainda esteja incipiente no domínio da ciência oficial?
A. S. – Porque a ciência oficial é materialista, isto é, extremamente materialista. A vida humana, na sua concepção, é obra do acaso, fruto de mutações genéticas a partir de organismos unicelulares iniciadas nos primórdios da formação da Terra, até à evolução, sem nenhuma aparente raison d’être, do ser humano. Na concepção materialista, não há lugar para o espírito no ser humano, ou em qualquer outro ser vivo. Para ela, a vida humana está confinada na fisiologia do corpo e a processos mentais cerebrais, e morto o corpo eocérebro, extingue-se o ser.
Falar em espírito em ambiente académico é expor-se ao desdém dos colegas. E o que dificulta ainda mais: não há verbas disponíveis para empreender estudos que não sejam materialistas. O Dr. Ian Stevenson, por exemplo, fundador dos estudos sistematizados da reencarnaçãoeo pioneiro desta ciência, à qual se dedicou por mais de 40 anos, até ao seu desencarne em Fevereiro de 2007, teve de penar muito para manter a doação de 1 milhão de dólares feita por Chester Carlson, inventor da fotocopiadora Xerox e fundador da empresa, para o estudo das lembranças espontâneas de vidas passadas em crianças.
A reitoria da Universidade de Virgínia, onde foi director de psiquiatria, tentou, de todas a maneiras, convencê-lo a repassar o dinheiro para “estudos mais úteis”, e não desperdiçá- -lo com tais superstições. Como último recurso, o Dr. Stevenson evocou o lema do grande fundador daquela universidade, Thomas Jefferson, redactor da declaração de independência americana e o terceiro presidente dos EUA: “Buscar a verdade onde quer que ela nos leve,” ao qual a reitoria conservadora, possivelmente envergonhada da sua atitude, se curvou.
Na sua opinião, basta entender a continuidade da vida após a morte do corpo para qualquer um se tornar uma pessoa melhor na sua vida de relação? A. S. – Não necessariamente. Certamente há muitas pessoas que procuram melhorar- -se nos seus relacionamentos mesmo sem compreender o facto de sua imortalidade. Os maus relacionamentos dificultam a vida da pessoa, seja pessoal ou profissional, causando sofrimento, e muitas pessoas buscam ajuda psicológica ou até mesmo espiritual para a resolução desses problemas.
Por outro lado, certamente há pessoas que entendem a continuidade da vida, mas que não se preocupam muito com o seu melhoramento. Talvez mais importante que apenas compreender a imortalidade para buscar melhoria, seria compreender que vivemos sob a lei de causa efeito, e que vamos sofrer as consequências das nossas más acções, seja nesta ou em outras vidas. Seria igualmente necessário compreender que as pessoas com quem convivemos são partes integrantes de nosso aprendizado na Terra, e como estamos aqui para aprender a amar e a perdoar, devemos esforçar-nos também para mantermos relacionamentos saudáveis e proveitosos com quem quer que cruze os nossos caminhos em qualquer uma das nossas existências.
Apego à vida material é outro grande empecilho ao desencarne tranquilo. Muitos desencarnantes recebem a visita de seres queridos desencarnados, que vêm ajudá-los na sua transição para a outra vida Como é morrer, o momento em si: será o mesmo para todos? A. S. – No que diz respeito à parte fisiológica, sim. Isto é, a cessação da respiração, da circulação e da consequente desagregação dos órgãos. Mas não os momentos que antedecem a morte.
Muitos aceitam a morte com tranquilidade, e desencarnam em paz. Outros não querem morrer, e sofrem muito na sua passagem, sobretudo aqueles que carregam muita culpa ou que deixam assuntos pessoais não resolvidos, ou mal resolvidos. A falta de oferecer ou pedir perdão por erros cometidos é um dos causadores desses transtornos no momento do desencarne. Apego à vida material é outro grande empecilho ao desencarne tranquilo.
