Entrevista Raul Teixeira: amor e instrução Conheceu a Doutrina Espírit
Jornal de Espiritismo nº 32 · Janeiro 2009Página 85 min
Entrevista Raul Teixeira: amor e instrução Conheceu a Doutrina Espírita muito cedo, aos 16 anos. Em que circunstân- cias? Raul TeixeiraTravei contacto com o Espi- ritismo aos 17 anos, em busca de respostas para os fenómenos que eu vivia desde a minha infância. Desde a mais tenra infância, até onde a minha memória alcança, convivi com a minha mãe, que era médium, com as minhas irmãs que eram médiuns e, certa- mente, dentro da minha casa, eu visualizava os seres espirituais com quem a minha mãe e as minhas irmãs travavam contacto.
E não tinha medo. Nada daquilo me assustava, eu via com relativa naturalidade. À medida que fui crescendo, tudo isso se transformou, porque a minha mãe desencarnou. Eu fi- quei órfão muito pequeno, aos quatro anos de idade. E o meu contacto com a Igreja Católica foi me fazendo temer aquilo que eu via, porque o sacerdote que me orien- tava dizia que estava a ver era obra do De- mónio e, na minha mentalidade de garoto, naturalmente ficava muito amedrontado.
Isso perdurou até aos meus 15 anos, quando o sacerdote propôs que eu lesse a Bíblia, para que encontrasse a resposta para afugentar o Demónio que eu via. E, desse período até aos 17 anos, eu li e reli a Bíblia quatro vezes, de ponta a cabeça, de trás para a frente, da frente para trás, na tentativa de expulsar o Demónio que me perturbava. Mas quanto mais a Bíblia eu lia, mais demónios eu via. Então, alguma coisa estava errada.
Até que um amigo da minha infância, com quem conversei, narrando a respeito do que se passava comigo, me disse que frequentava uma casa espírita, um grupo de jovens, e perguntou se eu não gostaria de ir lá, porque no Grupo de Mocidade Espírita eles chamavam tudo aquilo de que eu falava de mediunidade e que não havia nada do Demónio. Depois de muita relutância, aceitei conhecer o Centro Espírita e, ao chegar à Mocidade Espírita, fui tomado por uma viva e saborosa emoção, porque encontrei jovens da minha faixa etária, alegres, muito joviais, que conhe- ciam uma questão que eu desconhecia até então.
Eu não sabia que havia no mundo Espiritis- mo. Passei a conhecer o Espiritismo dali e nunca mais me afastei do Espiritismo… e isso já há 41 anos. Sentiu que houvesse problemas em se assumir como espírita naquela altura perante o resto da família, os seus outros amigos que também não tinham contacto com o Espiritismo, com o padre que o teria aconselhado a ler a Bíblia? Raul TeixeiraEm relação ao padre, não sei porque nunca mais retornei à Igreja.
O Espiritismo me preencheu de tal modo que eu não senti mais necessidade de voltar. Na minha família nunca houve problemas, porque eu sempre me disse espírita e todos achavam interessante eu ser espírita, verifi- cando que desde muito cedinho eu sempre tive índole para a religião. E agora que eu me tornara espírita eles não estranhavam nada, porque não viam nada de diferente no que eu ia fazer. Eles não entendiam as reentrâncias do Espiritismo, as diferenças existentes, e isso não me causou nenhum problema e não me causa até hoje.
Em nenhuma parte de minha vida, nem na universidade, nem na minha vida social, jamais o facto de ser espírita me causou qualquer problema. Nunca ninguém verbalizou para mim que o facto de eu ser espírita causava problemas. Pelo contrário. Muita gente que era ateia e materialista, como colegas meus da universidade, hoje são espíritas. E aqueles que não são espí- ritas são muito afeiçoados ao espiritismo, graças à convivência que com ele passaram a ter, através de mim.
Como explica a resistência ao estudo dos fenómenos referidos na Doutrina Espírita e a desconfiança votada aos estudos já realizados? Raul TeixeiraEu vejo tudo isso como um fenómeno natural da criatura humana, porque os próprios espíritas não se ajustam ao Espiritismo, não aceitam o Espiritismo como verdade vivencial. Aceitam-no como verdade teórica. Nós vemos os espíritas falar do Espiritismo engalfinhando-se, falando mal uns dos outros… Como é que eu vou querer que a Academia acate o Espiritismo que os espíritas não acatam?
Tem a ver com credibilidade que nós mesmos… Raul Teixeira - … nós mesmos deixámos de dar. O grande móbil da crença acadé- mica no Espiritismo é a vida de quem é es- pírita. E eles não vêem em nossa vida nada que lhes chame a atenção. Não fazemos nada de diferente do que fazem os outros irmãos de outras denominações religiosas. Vivemos batendo-nos, disputando cargos, posições… Então, somos mais um grupo religioso que eles vêem no mundo e que não interessa à Academia.
Os poucos indiví- duos espíritas que têm aparecido com um arrazoado cabível, lógico e com uma vida consentânea com esses arrazoados não têm acesso à Academia. Então será a mesma explicação que vai justificar o facto de nos programas de Filosofia não se contemplarem filóso- fos, ou pelo menos, a filosofia espírita, quando os próprios programas permi- tem a abordagem do estudo de vários outros filósofos? Raul TeixeiraEu acredito que ainda não tenha aparecido, no meio espírita, um filósofo que possa fazer face à Academia.
Nós temos encontrado muitos estudiosos da filosofia do movimento espírita que têm feito bons trabalhos, mas esses trabalhos não têm alcançado a Academia. Então, é muito importante, para que a Academia aceite, e quem lida com a Universidade sabe disso, os trabalhos sejam divulgados em revistas especializadas, publicados em veículos especializados, academicamente especializados… Eu não posso publicar um trabalho num jornal espírita, de circulação no meio dos espíritas, e querer que a Aca- demia leia o jornal espírita para estudar os nossos filósofos.
É muito importante que se saiba disso. Em nenhuma parte de minha vida, nem na universidade, nem na minha vida social, jamais o facto de ser espírita me causou qualquer problema. Conheço, no Brasil, vários professores de Filosofia que, como indivíduos – não como instituição –, colocam obras como as Deolindo Amorim, que foi um notável filósofo espírita brasileiro, na pauta dos seus estudos, pela grandeza das reflexões, pela grandeza dos seus estudos.
Mas isso é uma iniciativa do professor. O professor tem liberdade de fazer essas abordagens dentro da sua disciplina. Mas se eu estou a lidar com um professor de Filosofia ateu, ou ma- terialista, ele não vai ver a mínima graça nos textos da Doutrina Espírita. São fenómenos com que nós precisamos de aprender. Às vezes eu noto, por parte de muitos espíritas, uma certa ansiedade, uma certa sofreguidão, para que o Espiritismo seja reconhecido pela Academia, pela Universi- dade.
Isso demonstra que nós não temos muita confiança no Espiritismo como ele é. Nós precisamos que ele esteja coroado pela Academia. Não deixa de ser uma certa vaidade que a gente alimenta. Deixem o Espiritismo ser o Espiritismo. Deixem a Academia chegar até lá. Se a Academia não aceita Deus, como é que a gente quer que aceite o Espiritismo?! Ainda relativamente à Ciência, conside- ra que está provada a imortalidade da alma, a reencarnaçãoea comunicabili- dade dos Espíritos?
Raul TeixeiraComo homem da Ciên- cia, eu não diria que, para a Ciência, está provado. A Ciência não provou nada disto.
